Nanni Moretti: "O cinema tem de ser visto numa sala de cinema"

O cineasta italiano de Tre Piani, das vozes mais lúcidas em Cannes, falou ao DN. Um cheirinho de uma entrevista a publicar quando o filme chegar às salas nacionais.

Este filme estava pronto para o Festival de Cannes de 2020 que não se realizou. Como é que lidou com toda esta antecipação? Thierry Frémaux, o diretor artístico do festival, até se espantou com a sua paciência...

Só pedi ao meu produtor para não me dizer os valores que a Amazon, a Disney Plus, a Netflix e essas plataformas ofereciam... O importante para mim é que Tre Piani fosse visto no cinema. Digo isto antes como espetador, muito mais do que cineasta. Para mim, o cinema tem de ser visto numa sala de cinema. Na Itália há um risco muito grande com as plataformas. Os produtores estão a receber muito dinheiro para colocar os filmes nas plataformas e encontram-se numa encruzilhada: ou continuam a receber todo esse dinheiro sabendo que vão ter um controlo paranoico ou, então, recomeçar a trabalhar com os autores de forma mais convencional para fazer cinema mais pessoal para os cinemas...

O plateau de um filme pode ser a sua casa?

Não, nunca: é o meu lugar de trabalho. Não me sinto mesmo em casa, mas desta vez algo aconteceu de novo: não me senti angustiado nas filmagens! Sabe, todas as rodagens deixam-me muitíssimo fatigado, não só no campo físico como no psicológico. Mal terminavam tinha a habitual sensação de alívio, de libertação, sobretudo porque na montagem sabia que iria trabalhar apenas como uma pessoa e não com umas cinquenta que me perguntam sobre tudo e mais alguma coisa. Com Tre Piani foi diferente, até fiquei com pena. Tive muito prazer em dirigir este filme! Foi a minha rodagem menos cansativa e angustiante. Antes dir-lhe-ia que tinha sido muito doloroso...

Tem o hábito de observar os vizinhos?

Já tive mais... Curiosamente, agora mudei-me para um prédio de três andares. Estou a gostar muito, é num local muito pacato de Roma, longe das ruas de passagem. Cada vez mais, percebo que sou um urbano, nunca poderia viver num outro lugar que não fosse uma grande cidade.

E fez um filme sobre a comunidade antes de saber que não poderíamos viver tanto em comunidade...

Sim, o filme foi terminado antes da pandemia. Agora ganhou uma certa atualidade. Esta é uma história que mostra que não podemos viver sem família e fora de uma comunidade.

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