Mulherzinhas com paisagem japonesa em fundo

A Nossa Irmã Mais Nova é um inédito nas salas portuguesas. Agora em streaming, traz-nos em boa altura a serenidade do cinema de Hirokazu Kore-eda, para nos sentirmos genuinamente em casa.

A grande estreia que estava programada para a semana em que os cinemas tiveram de encerrar, devido à pandemia, era A Verdade, do japonês Hirokazu Kore-eda. Vale a pena começar por esta referência ao mais recente - e maravilhoso - filme do mestre que, pela primeira vez, trocou o Japão pela França e aí foi filmar Catherine Deneuve, Juliette Binoche e Ethan Hawke dentro das linhas do drama familiar que tão bem domina. Não por acaso, linhas suaves e seguras que definem igualmente A Nossa Irmã Mais Nova (2015), um título seu que, apesar de ter integrado a seleção de Cannes, não chegou a passar pelas salas de cinema portuguesas, estando agora disponível na plataforma de streaming Filmin.

Baseado num manga (banda desenhada japonesa) que segue o quotidiano de três irmãs adultas, a viverem juntas, e a adoção da sua meia-irmã adolescente, o filme de Kore-eda apresenta-se como uma delicada acumulação de eventos que traduzem as pequenas maravilhas e angústias do dia-a-dia na cidade costeira de Kamakura. Desde o primeiro plano, em que a câmara percorre dois corpos sonolentos cuja respiração se cruza com o murmúrio do mar lá fora, somos levados pela carícia de uma aragem até à casa das irmãs Kôda, uma grande e vetusta residência de madeira que lhes foi deixada pela avó e que será o centro desta graciosa experiência familiar.

Elas vivem nessa casa desde a separação dos pais - que, longe dali, constituíram outras famílias - e aprenderam a sustentar-se sozinhas. Uma trabalha num banco e mete-se frequentemente em namoros frustrados, outra tem um emprego numa loja de artigos desportivos e a mais velha é enfermeira no hospital local. Ao depararem-se com a notícia da morte do pai, marcam presença no funeral e aí conhecem uma meia-irmã (filha do segundo casamento dele) que está destinada a ficar aos cuidados da madrasta. Algo que só não acontece porque as três lhe lançam um espontâneo convite antes de as portas do comboio se fecharem, quando estão prestes a regressar à cidade, no primeiro dos vários momentos luminosos do filme. Ela vai ser a benjamim do lar.

A chegada da doce Suzu não altera os ritmos daquela existência serena, mas expande a respiração da casa, corrobora os afetos e dá azo a uma particular reflexão sobre os laços de família. Não será, por isso, de estranhar que tantos aspetos da cultura nipónica neste A Nossa Irmã Mais Nova,a meio caminho entre o passado e o presente, remetam quer para a tranquilidade do cinema de Yasujiro Ozu, quer para o retrato feminino dos filmes de Mikio Naruse. São claramente dois espíritos que acompanham a evolução da obra de Kore-eda e que aqui se manifestam no recato dos gestos e na perfeita conjugação da vida no interior da casa com a paisagem moldada pelas diferentes estações do ano. É ver a beleza da sequência em que Suzu percorre de bicicleta uma alameda repleta de cerejeiras em flor, ou aquela outra, bucólica, em que as quatro irmãs apanham ameixas da velha árvore do jardim e, entre conversa amena, preparam a fruta para fazer vinho de ameixa.

Mais do que tudo, os momentos à mesa são o verdadeiro conforto deste radioso filme. As personagens surgem imensas vezes a comer iguarias que são, elas próprias, tópicos de diálogo, motor de memórias ou simplesmente ocasiões de prazer. E depois há o mar, essa entidade omnipresente que, pela fleuma das ondas, parece ditar o misto de otimismo e melancolia que envolve a vida destas "mulherzinhas". Um bálsamo para a alma.

**** Muito bom

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