Morreu Robert Fisk, o jornalista que não usava a internet

Fez a cobertura dos anos de chumbo na Irlanda, do 25 de Abril em Portugal, das guerras no Médio Oriente. Um dos mais veteranos e respeitáveis correspondentes da imprensa ocidental, Fisk morreu em Dublin, aos 74 anos.

O jornalista Robert Fisk, com uma carreira multipremiada, mas também criticada, autor de livros fundamentais sobre geopolítica no mundo árabe, como Pobre Nação: As Guerras Do Líbano No Século XX, ou a enciclopédica A Grande Guerra Pela Civilização: a Conquista do Médio Oriente (Edições 70), tinha sido internado no Hospital de São Vicente em Dublin, na sexta-feira, e morreu pouco tempo depois, noticiou o diário Irish Times.

Entre outros marcos jornalísticos, conseguiu entrevistar três vezes, entre 1993 e 1997, o antigo líder da Al-Qaeda Osama Bin Laden. E os artigos que escreveu foram igualmente procurados e admirados pelos leitores do mundo árabe.

Em Beirute, há décadas, Fisk foi uma das figuras mais cobiçadas da imprensa britânica pelo caráter anticonformista e visão iconoclasta dos conflitos na região.

Em entrevista ao DN em 2008, Fisk afirmava que não usava a internet, mas os seus arquivos, e os livros que queria ler para conhecer melhor uma região da qual dizia continuar a "saber pouco".

No documentário de 2019 This is not a Movie, sobre Robert Fisk, realizado por Yung Chang, o repórter afirma: "A velha ideia de que o jornalista deve ser neutro e não tomar partido é um disparate. O jornalista deve ser neutro e isento do lado de quem sofre."

O jornal The New York Times chegou a classificá-lo como "o correspondente mais famoso do Reino Unido".

Nascido em Maidstone, Kent (sudeste da Inglaterra) em 1946, começou por escrever no Sunday Express. Já no The Times foi enviado em 1972 para Belfast, no auge do conflito na Irlanda do Norte. Dois anos depois fez a cobertura do 25 de Abril, em Portugal.

Em 1976 mudou a residência para o Líbano, onde se tornou correspondente do The Times. Em 1989, depois de um desentendimento com o magnata Rupert Murdoch, proprietário daquele título, passou a trabalhar para o The Independent, um jornal para o qual continuou a escrever até morrer.

"Destemido, intransigente, determinado e totalmente empenhado em descobrir a verdade e a realidade a todo o custo, Robert Fisk foi o maior jornalista da sua geração. O fogo que ele ateou no The Independent vai continuar a arder", comentou o ex-diretor do jornal londrino, Christian Broughton.

Em 2001, na cobertura da "guerra ao terror" na ressaca do 11 de Setembro, foi atacado por uma multidão em fúria pelos ataques das forças militares anglo-americanas.

Os artigos foram em muitas ocasiões contra a corrente dos governos ocidentais: em 2003, por exemplo, criticou fortemente a invasão do Iraque. E nos últimos anos foi acusado de ser complacente com o regime autoritário de Bashar al-Assad na Síria.

Fisk, que sempre se sentiu muito ligado à Irlanda, onde fez um doutoramento no Trinity College, tinha adquirido a nacionalidade irlandesa e residência nos arredores de Dublin.

O primeiro-ministro irlandês, Micheal Martin, prestou homenagem ao jornalista. Numa publicação no Twitter sublinhou que Fisk era "corajoso e independente, com uma compreensão profundamente documentada das complexidades da história e da política no Médio Oriente".

"Ajudou muitas pessoas a compreender melhor essas complexidades", acrescentou Martin, que se declarou "triste com a notícia".

Mais Notícias

Outras Notícias GMG