Morreu E.M. de Melo e Castro, o autor que fez emergir a poesia experimental portuguesa

Morte foi anunciada pela filha, Eugénia de Melo e Castro. O poeta tinha 88 anos e vivia no Brasil.

O poeta, ensaísta e artista plástico português Ernesto Manuel de Melo e Castro, que vivia no Brasil, morreu no sábado à noite em São Paulo, aos 88 anos, anunciou neste domingo a sua filha, Eugénia Melo e Castro.

Numa publicação na rede social Facebook, a artista e cantora Eugénia Melo e Castro anunciou a morte do pai e poeta português E. M. de Melo e Castro, aos 88 anos.

"Um dos mais importantes poetas e homem de artes e cultura do mundo", escreveu na rede social.

Ernesto Manuel de Melo e Castro marcou, com uma obra definida pela construção de experiências com diversos materiais, a emergência da poesia experimental em Portugal.

Poeta e escritor, E.M. de Melo e Castro, como assinava, nasceu a 19 de abril de 1932, na Covilhã, e foi particularmente marcante na emergência da poesia concreta experimental e visual em Portugal.

Autor de uma obra demarcada pela construção de experiências com diferentes materiais, o seu livro Ideogramas, que reúne 29 poemas concretos sem qualquer introdução ou nota explicativa, foi um "marco fundador" do experimentalismo, na literatura e na arte portuguesas.

Filho de Ernesto de Campos Melo e Castro, neto materno do 1.º visconde da Coriscada e comendador da Ordem da Instrução Pública, E. M. de Melo e Castro licenciou-se em Engenharia Têxtil pela Universidade de Bradford, em Inglaterra, em 1956.

Desde sempre reconhecido como "figura multifacetada", na literatura e na arte, pela crítica e pela investigação, E.M. de Melo e Castro participou no primeiro número da revista Poesia Experimental ("Po.Ex"), em 1964, tendo sido, dois anos mais tarde, um dos organizadores do segundo número desta publicação, pioneira na exploração de transtextualidades.

Entre as diversas antologias e suplementos em que colaborou, assinala-se a organização de Hidra e Operação, tendo também colaborado com a revista Arte Opinião.

A publicação da extensa Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, em 1959, pela Moraes, em colaboração com Maria Alberta Menéres (1930-2019), sua companheira, constituiu um momento decisivo na afirmação e divulgação da literatura portuguesa e dos autores emergentes, que vieram a definir a sua modernidade, de Alberto de Lacerda, Ana Hatherly, António José Forte e António Maria Lisboa a Couto Viana, Gedeão, Daniel Filipe, Fernando Lemos, Leonor de Almeida, Mourão-Ferreira, Pedro Tamen, Ruy Belo, Vítor Matos e Sá, entre muitos mais.

A prática poética de Melo e Castro, pai da cantora Eugénia Melo e Castro, foi sempre acompanhada por uma "teorização sistemática sobre a linguagem e as tecnologias de comunicação", cruzando-se, na sua extensa obra, múltiplas práticas e formas experimentais.

A explosão grafémica, o poema-objeto tridimensional, a recombinação intermédia de escrita, a performance que inscreve presença corporal e a teorização do poema como meio de crítica do discurso no universo dos meios de comunicação constituem exemplos de algumas dessas práticas experimentais, pioneiras na arte portuguesa.

Figura marcante no meio artístico dos anos 1960 e 1970, E. M. de Melo e Castro dedicou-se, nas décadas seguintes, a investigar e espelhar no seu trabalho as relações entre a arte e o desenvolvimento tecnológico, tendo sido autor de um conjunto de obras pioneiras que recorreram ao vídeo e computador para produção literária.

E. M. de Melo e Castro chegou mesmo a desenvolver, entre 1985 e 1989, um projeto de criação de videopoesia, designado Signagens, na Universidade Aberta.

Em 1998, o poeta terminava o seu doutoramento em Letras pela Universidade de São Paulo, no Brasil, tendo sido professor no Instituto Superior de Arte, Design e Marketing (IADE) e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

A sua atividade artística foi apresentada em várias exposições coletivas, tanto em Portugal como no estrangeiro, mas também em exposições individuais, espetáculos e happenings.

Fez parte da histórica Alternativa Zero (1977), expôs na Galeria 111, na Galeria Buchholz, na Quadrum, na Galeria Divulgação, 1975, Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, entre outros locais, no país e no estrangeiro.

Em 2006, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresentou O Caminho do Leve, uma exposição retrospetiva (retroativa) da sua grande obra, viajando da poesia concreta e experimental à infopoesia, passando pela videopoesia e pela criação de imagens fractais, com uma seleção de obras representativas de quase cinco décadas de trabalho.

Em 2018, Brasília recebeu, nos meses de outubro a dezembro, a exposição Poesia Experimental Portuguesa, que reuniu obras datadas de 1960 até à atualidade e inéditos de E.M. Melo e Castro.

O poeta e artista foi também evocado na mostra dedicada à primeira geração de autores de poesia experimental portuguesa, da qual fizeram parte igualmente Ana Hatherly e Herberto Helder, montada pela Galeria Zé dos Bois (ZDB), em Lisboa, no início de 2017.

A obra de Melo e Castro faz parte de coleções como as de arte contemporânea da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação de Serralves.

A viver há mais de 20 anos no Brasil, E. M. de Melo e Castro, considerado um dos artistas portugueses mais acarinhados pelo público do país de acolhimento, foi feito, a 10 de junho de 2017, comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

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