Morreu o homem que inspirou o filme "Bom dia, Vietname"

Adrian Cronauer trabalhou na rádio das forças armadas americanas em Saigão. Em 1987 a sua história chegou ao cinema e foi interpretada pelo ator Robin Williams.

"Goood morning, Vietname!", gritava a personagem de Robin Williams, todas as manhãs, ao microfone da Rádio das Forças Armadas, em Saigão, no Vietname do Sul. O filme, intitulado Bom dia, Vietname, foi realizado por Barry Levinson em 1987, e inspirava-se na história verdadeira do sargento da força aérea Adrian Cronauer, que foi animador da rádio em Saigão em 1965 e 1966 e se tornou popular por levantar a moral dos militares americanos com o seu entusiasmo matinal e uma seleção musical com muito rock'n roll.

Cronauer, que morreu esta quarta-feira com 79 anos, gostou de ver a sua história contada no cinema mas admitiu que havia ali também uma grande dose de ficção. Na altura, o militares queriam uma programação conservadora, mas Cronauer percebeu que os jovens que estavam no Vietname, tal como os jovens que estavam na América, queriam algo novo. No filme, vemos Robin Williams a pôr de lado os discos de Perry Como e Lawrence Welk para pôr a tocar, no seu programa da manhã, músicas dos Dave Clark Five. "Sim, tentei que soasse mais como uma estação de rádio urbana. Sim, eu tive problemas com a censura. Sim, eu estava num restaurante que foi atacado pelo Viet Cong. E, sim, eu começava todos os programas a gritar 'bom dia, Vietname!", contou Cronauer numa entrevista à Associated Press em 1989. Tudo o resto, contudo, era "um argumento cinematográfico bem construído".

Por exemplo, a personagem do filme é muito mais revolucionária. "De certa forma, sou um tipo muito conservador", comentou Cronauer, explicando: "Um republicano convicto a vida inteira não pode ser assim tanto um tipo anti-establishment."

Depois do sucesso do filme - com o qual Robin Williams esteve nomeado para um Óscar e ganhou um Globo de Ouro para melhor ator - Adrian Cronauer chegou a ser contactado pela campanha presidencial do democrata Jess Jackson, mas o ex-militar recusou explicando que apoiava os republicanos. Já quando George W. H. Bush se estava a candidatar, em 1992, Cronauer aceitou participar num anúncio, no qual acusava Clinton de mentir.

Antes do Vietname, disse bom dia a Iraklion

Oriundo de Pittsburgh, Cronauer era filho de um profissional metalúrgico e de uma professora. Aos 12 anos já tinha uma rubrica numa estação de televisão local. Na universidade, também ajudou a criar a estação de rádio dos alunos. Alistou-se na Força Aérea americana e teve o seu primeiro destacamento no estrangeiro na ilha de Creta, na Grécia, onde ficou durante um ano e meio. Foi aí que começou o seu "grito matinal", com um "Bom dia, Iraklion!" (Iraklion é uma base aérea americana em Creta).

Em 1965 voluntariou-se para o Vietname e começou a trabalhar na Rádio das Forças Armadas em Saigão. Quando o animador do programa das 6:00 da manhã, Dawn Buster, se foi embora, Cronauer assumiu a função e retomou o seu "grito de guerra". Além disso, tornou-se popular entre os militares por lhes dar músicas que eles gostavam, de Tom Jones, Righteous Brothers ou The Beatles. Queria atenuar-lhes as saudades de casa e fazê-los sentir-se como "jovens normais", apesar de estarem longe da América. "O maior elogio que me podiam fazer era quando me diziam que ligavam o rádio e pensavam que estavam a ouvir uma estação de rádio dos Estados Unidos", contou numa entrevista.

Depois de servir no Vietname, Cronauer trabalhou em rádio, televisão e publicidade. Em 1979, foi com o amigo Ben Moses ao cinema ver Apcalypse Now, o filme de Francis Ford Coppola. "À saída dissemos: esta não é a nossa história do Vietname". Foram beber uma cerveja e decidiram fazer um filme que contasse a sua história, com o título Bom dia, Vietname. Não foi fácil convencer os produtores de Hollywood a fazer uma comédia sobre a guerra do Vietname. Ben Moses escreveu a história de 30 páginas que haveria de dar origem ao guião do filme, assinado por Mitch Markowitz.

Os dois amigos acabaram por ser afastados da produção. Quando o filme estreou em Nova Iorque, Robin Williams quis cumprimentar Cronauer. "É um prazer conhecê-lo, finalmente", disse-lhe o ator, ao dar-lhe um aperto de mão. "Também é um prazer conhecer-me, finalmente", respondeu Cronauer, com bom humor. O ex-militar sempre encarou o filme com bastante leveza e costumava brincar que, quando morresse, ainda haveria de pôr no seu epitáfio: "Adrian Cronauer, DJ no Vietname".

Na verdade, a sua vida foi muito mais do que isso. Estudou Direito, mudou-se para Nova Iorque, trabalhou em advogacia, abriu uma agência de comunicação e tentou sempre juntar esses dois mundos de que gostava - da lei e da comunicação. Entre 2001 e 2009 chegou a ser consultor do subsecretário-adjunto da Defesa. Passou os últimos anos em Troutville, na Virgínia. A mulher, Jeane, com quem tinha casado em 1980, morreu há dois anos.

"Sempre fui um pouco iconoclasta, como Robin era no filme", disse Cronauer à Associated Press em 1999. "Mas não era anti-militarização ou anti-establishment. Era anti-estupidez. E de certa forma encontra-se muita estupidez nas forças armadas."

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