Exclusivo Monstra: narizes à solta, homenagem à Bélgica e uma exposição 

Está a decorrer, até 1 de agosto, a 20.ª edição da Monstra - Festival de Animação de Lisboa, com sessões nos cinemas São Jorge, City Alvalade, Ideal, Cinemateca e Cinemateca Júnior.

Há aquela brincadeira que os adultos fazem às crianças fingindo que lhes "roubam" o nariz, e depois há um conto satírico de Nikolai Gógol chamado O Nariz, que narra o absurdo de um oficial de São Petersburgo cujo órgão do olfato decide libertar-se do rosto e ir à sua vida. Publicado em 1836, esse conto esteve na base de uma ópera criada por um jovem Dmitri Shostakovich, no final da década de 1920, e agora é o realizador veterano Andrey Khrzhanovsky quem o revisita na animação O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes, usando, justamente, excertos sonoros da ópera do compositor russo numa montagem visual dinâmica com desenhos animados e imagens documentais. Este é o filme mais experimental da competição de longas-metragens desta edição da Monstra (passa quinta-feira, às 20h45, no Cinema São Jorge), e aquele em que a história, a cultura e a política convergem numa homenagem às personalidades artísticas da Rússia que estiveram à frente do seu tempo.

Nesse sentido, O Nariz ou a Conspiração dos Dissidentes é também uma animação a vários tempos. Tudo começa dentro de um avião, com os passageiros a verem diferentes filmes, de diferentes épocas, nos pequenos ecrãs embutidos nos bancos. Num desses ecrãs surge a figura animada de Nikolai Gógol de partida para São Petersburgo, à procura do sucesso literário. Uma viagem que, por sua vez, nos leva ao encontro de outras figuras, desde o referido Shostakovich, de par com o encenador Vsevolod Meyerhold, ao cineasta Serguei Eisenstein; este último retratado num momento de epifania, quando lhe ocorreu a ideia do carrinho de bebé que desce desgovernado a escadaria de Odessa na cena emblemática de O Couraçado Potemkine. Isto entre os desenhos que encenam a ópera O Nariz... Mas onde Andrey Khrzhanovsky quer chegar é à crítica a Estaline e às suas práticas de perseguição política (o segundo ato do filme reflete o caso do escritor Mikhail Bulgákov), e fá-lo com uma mistura criativa de técnicas visuais que celebram a arte insubordinada, apetece dizer, através da "insubordinação" formal.

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