Martine, há mais de 60 anos a mostrar-nos a beleza do mundo

O ilustrador Marcel Marlier convidava uma menina para posar para si e fazia inúmeros esboços. Foi assim que nasceu Martine. "Ele preferia ver e desenhar o belo", conta o filho.

O primeiro livro, publicado em 1954 pela editora Casterman, em francês, foi Martine na Quinta dos Avós. A história tinha sido escrita pelo autor Gilbert Delahaye, inspirado pelas férias que os seus filhos tinham passado numa quinta, brincando com patos, galinhas e cavalos. Mas, mais do que a história, o que captou a atenção dos pequenos leitores foram os desenhos, de autoria de Marcel Marlier. "Este primeiro livro, muito simples, fala de uma menina que descobre uma quinta. Ninguém pensava que ia dar uma série. Mas o sucesso foi imediato", lembra Jean-Louis Marlier, o filho do ilustrador, atualmente com 55 anos.

Logo se seguiu outro livro. E outro. Em breve, Martine tornou-se a obra mais importante destes autores belgas. Ao todo, foram publicados 60 volumes, que foram traduzidos para várias línguas (em Portugal, durante muito tempo Martine era conhecida como Anita). Quando, em 1997, Gilbert Delahaye morreu, foi Jean-Louis que continuou a escrever as aventuras de Martine, tendo sido responsável por mais 12 histórias. O último livro foi publicado em 2010.

"Eu tenho um irmão mais velho, François, com 57 anos, e uma irmã mais velha, Martine, dos livros. Não uma irmã na vida real, mas ainda assim um membro da família, porque ela estava presente em todos os momentos da nossa vida", conta Jean-Louis Marlier numa entrevista por e-mail.

Delahaye e Marlier moravam a 25 quilómetros de distância um do outro mas, ao princípio, nem se conheciam. Comunicavam por correio. O ilustrador recebia o texto, fazia os desenhos e nem mexia uma vírgula. "Gradualmente, um encontro tornou-se indispensável. E eles acabaram por se tornar amigos", conta. "Ao longo dos anos, as coisas mudaram, o desenho tornou-se a verdadeira razão do livro e o texto era adaptado aos desejos do ilustrador. Nos últimos livros, os textos são reduzidos a quase nada para dar prioridade ao seu desenho."

Marcel Marlier era um perfeccionista. "Se ele desenhasse um animal, precisava de conhecer cada articulação, cada músculo, cada tendão. Centenas e centenas de esboços em frente do animal eram indispensáveis para que o desenho ficasse fiel", lembra o filho. Com Martine era a mesma coisa. "Reparou que em 60 anos Martine mudou 60 vezes o cabelo e a cara?", pergunta Jean-Louis. "Para desenhar a menina com uma grande naturalidade, a cada novo livro uma menina vinha posar no estúdio. O pai adaptava-se às mudanças sucessivas. Que a menina mude não tem importância para os pequenos leitores, dizia."

Mantinham-se aqueles olhos dela - "sempre maravilhada com as coisas ao seu redor" - e o detalhe com que todos os pormenores eram desenhados. "Numa página com dez crianças cada personagem tinha de ter uma vida e uma personalidade. Para cada um, um gesto e uma postura relevante, vincos em roupas que são credíveis. Isto é apenas o começo porque é necessário que este conjunto entre numa composição geral ou cada linha seja útil ao todo. Requer um equilíbrio das massas, das sombras e das luzes."

Martine era uma menina feliz? "A personagem está próxima do estado de espírito e da visão do mundo do seu desenhador", explica Jean-Louis. "Ele conhecia a escuridão e a fealdade do nosso mundo mas preferia ver e desenhar o belo. O que ele nos queria dizer com estes livros é que a humanidade é necessária, sob um bombardeamento ou apenas quando, num momento de aborrecimento, um menino ou menina nos procura para ler uma história e acreditar em algo mais bonito."

Para este autor, Martine pode ainda falar para as crianças do nosso tempo, que passam a vida agarradas aos ecrãs e aos videojogos, pois estes livros falam daquilo que é essencial e comum a qualquer criança, em qualquer país, de qualquer época: a humanidade. A história é a de uma criança à descoberta do mundo. Seja a cozinhar um bolo ou a tomar conta do irmão bebé, a aprender a andar de bicicleta ou a velejar, a ficar em casa doente ou a ir à escola.

Todos os domingos, o Diário de Notícias vai distribuir em banca a coleção de livros da personagem Martine.
Trata-se de uma coleção composta por 32 livros que serão distribuídos durante 12 semanas, até 22 de dezembro.
Os livros terão um custo adicional de seis euros.
Venda limitada ao stock existente.

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