"Maravilhoso é olhar para onde ninguém olha e ver o que ninguém vê"

A Sangrada Família é um romance que queima as mãos e cega os olhos dos leitores frequentemente. Não é por acaso que tal acontece, nem pelo cenário de que resulta, antes devido à teimosia do escritor em se fixar noutras emoções literárias e assim destacar-se entre os parceiros de uma chamada "nova geração". Outras novidades: reedição de Mrs. Dalloway, entrevistas a Mário Cesariny, a biografia de Carlos Rates.

Sandro William Junqueira faz parte da "nova geração" de escritores portugueses, mas têm percorrido um caminho muito próprio e livre da sedução comercial que faz chegar aos leitores as obras dessa nova leva de autores de uma forma mais fácil. A Sangrada Famíla é um bom exemplo de um trabalho que desde 2009 tem vindo a publicar, tão capaz de ser duro e cru como exige um tema inovador no desfiar da história. Sem dúvida, um dos romances mais exigentes deste ano.

Três homens fazem a história de A Sagrada Família: Manuel, Teodoro e Ezequiel. Há mais duas mulheres: Filomena e Babá. Uma mãe em fundo. Mas, principalmente, existe um cenário: a serra onde o medronho floresce. A partir deste septeto, Sandro William Junqueira escreve sobre aquilo que um dos personagens refere à página 81: "Na literatura, transformamo-nos em humanos"; é essa versão que este romance dá.

Não se o lê à velocidade a que, refere-se no livro, a luz do Sol demora a chegar à Terra - oito minutos e dezoito segundos -, mas há urgência em o fazer com pressa. Porque, como escreve duas páginas à frente "o que interessa é o invisível. A magia. O maravilhoso é olhar para onde ninguém olha e ver o que ninguém vê." Então, mal dá início à história, o leitor quer saber o que se passa e como será o durante antes do fim.

O romance nasce de um convite que o diferencia da habitual forma de criação literária de William Junqueira, pois resulta da colaboração num projeto de dramaturgia sobre um tema inesperado: as destilarias do medronho que existem na Serra de Monchique. E o que o autor descobriu sobre essa temática de pesquisa, ao fim de três décadas a viver perto desses sítios sem reparar neles, mostrou-lhe que nada sabia sobre o processo e a vida dos que estão nele. Visitou várias destilarias, falou com os produtores e outra gente que vive em função do medronho. O que aprendeu e o material que reuniu fez com que pudesse escrever o que lhe tinha sido encomendado; a boa receção fez com que repetisse nova fornada de textos e, principalmente, sentiu que o cenário e as vidas a ele entrelaçadas merecia um romance.

Entretanto, os grandes fogos de 2018 na região de Monchique alteraram a sua visão: "Assisti à devastação daquele espaço e foi um momento muito impactante, que jamais poderei esquecer". Os testemunhos pós-incêndios fizeram com que a "saga continuasse" e ao olhar para toda a produção já escrita, sentiu que "poderia fazer um livro". Foi o que aconteceu, reescrevendo, cortando e acrescentando: "Agradou-me a ideia de, a partir de textos dramáticos interpretados por atores, transformá-los num outro objeto, uma criação que reúne a ficção e a realidade do teatro e do documentário."

"A família é ao mesmo tempo um porto de abrigo e um lugar de habitação difícil e propício à discórdia, bem como feroz no defraudar de expectativas."

Não será por acaso que refere: "Muitas das frases que estão no livro foram ditas por pessoas que vivem na Serra de Monchique." Ao dar exemplos do que ouviu, é fácil ao leitor recordar passagens que leu no livro, os que "exemplificam a luta das populações cercadas por incêndios que não esquecem". Confessa que "estava com muito receio do resultado, porque quando estou a escrever nunca fico satisfeito." Até porque, como se escreve numa das badanas, este é um romance que o traz "pela primeira vez para um território concreto, sujo de terra e cinza, com árvores e ar nos pulmões em vez de betão e muros altos". Não se deixa de avisar que "os personagens têm vozes que nos interpelam diretamente, que nos são próximas, com vozes a sair da janela ao lado." É essa uma das características desta narrativa, que deixa o leitor tenso e expectante do que virá na página seguinte, dos acontecimentos e das respostas que cada personagem irá dar, quase sempre pouco esperadas. Aliás, basta ver a iconografia da capa para se perceber que se está perante algo muito diferente do que a tal "nova geração" de escritores anda a deixar nas estantes das livrarias.

A Sangrada Família nasce de um lugar e de uma situação muito concreta ao contrário dos livros anteriores e Sandro William Junqueira, mas se em termos formais é diferente, garante, as personagens não deixam de ser as habituais no seu trabalho: "O que aqui está são temas recorrentes em todos os meus livros: a luta permanente contra os elementos naturais ou a disputa contra um poder inacessível. Tal como em anteriores livros, tentei também encontrar o outro lado das pessoas, designadamente daqueles que são os proscritos, os que vivem nas margens ou os que nunca têm voz." Não é por acaso, garante, que coloca na boca de um dos personagens uma consciência de quem é que o faz repetir amiúde: "Eu não sou importante, nem filho de gente importante". Daí que as figuras que passam pelo romance, conclui, "estejam num permanente jogo com o leitor, que acontece de forma natural, assumindo-se como de carne e osso, ou mesmo de pessoas a tentar serem personagens e de personagens a tentar ser pessoas. É um conflito que me agrada."

Mais do que a serra, dos incêndios e da produção do medronho como pano de fundo para encaminhar a narrativa, em A Sangrada Família nunca deixa de estar presente a questão que o tem interessado, a da família: "Ela é ao mesmo tempo um porto de abrigo e um lugar de habitação difícil e propício à discórdia, bem como feroz no defraudar de expectativas. Estas são questões antigas e que se encontram já na Bíblia ou em Homero." No caso da Bíblia, dá como exemplo "imediatamente reconhecível" dos dois irmãos protagonistas, Ezequiel e Teodoro: "São uma espécie de Esaú e de Jacó adaptados ao lugar onde a ação do livro se passa, fazendo perguntas como a da razão de serem "reféns de uma ligação" e também estar-se "obrigado a ser o que não é apenas pela situação familiar"".

O percurso do autor não é alheio ao que tem escrito: "Vivia no Algarve e um dia decidi começar a escrever". Então, enviou para várias editoras um primeiro livro, ou uma "tentativa de livro" como prefere considerar, e após várias recusas recebe um email da Editorial Caminho a dizer que queriam publicá-lo: "Fui conversar com o editor Zeferino Coelho", e este disse-lhe: "Vai escrever mais coisas? Sim, então vou apostar em si." Nunca se esqueceu desse dia, até porque houve um facto histórico em simultâneo: "Foi o dia em que Barack Obama foi empossado no primeiro mandato."

Desse primeiro livro diz: "É muito duro, quase um buraco, ou melhor dizendo, a fundação onde vou construir o edifício todo que vem a seguir. Segui o meu instinto e aqui estamos. Talvez A Sangrada Família seja um ponto de viragem na maneiro como olho para a ficção, porque nunca foi uma coisa calculada o que escrevi, no entanto o que tem acontecido durante este processo mudou a minha visão da literatura e da ficção. O que me interessa cada vez mais é fazer uma literatura por dentro da vida, sem fazer cedências, de onde nasça alguma coisa em carne viva desta perfuração. Quero que estas personagens digam uma quase verdade, porque enquanto escrevo estou sempre à procura desse estado e que os leitores o sintam: é verdade? Está mesmo a acontecer?"

Sandro William Junqueira

Editorial Caminho

199 páginas

Outros lançamentos

A primeira linha é curta: "Mrs. Dalloway disse que iria ela mesmo comprar as flores." A partir dessa primeira página seguem-se mais duzentas que sucessivas gerações têm lido e que a própria autora, Virginia Woolf, considerou como sendo a sua mais importante obra. Nem todos os leitores concordarão e preferirão outros livros seus, como Orlando por exemplo, mas essa divergência de gosto não lhe retira um lugar fixo na lista dos melhores da literatura do século XX.

Tem a particularidade de tudo se passar num único dia, moda que pegaria e que uma década e pouco depois o seu conhecido James Joyce repetiria em Ulisses, e no qual são abordados temas pouco habituais para a época: o stress pós-traumático da guerra, a bissexualidade e a homossexualidade e uma afirmação do feminismo. As personagens principais, Clarissa e Septimus - este exibe em muito um caráter autobiográfico de Woolf -, beneficiam-se desse curto intervalo de tempo da ação, mesmo que a autora utilize tempos de antes e de depois para completar a narrativa, usando em muito uma perspetiva interior para espalhar os eventos do romance. Ao mesmo tempo, enquanto prepara a receção que dará nessa noite em casa, Clarissa questiona certas opções da sua vida, situação que se verifica também com Septimus.

Uma leitura própria para o verão que se segue, mas principalmente uma visita às crises pessoais que, marcando a própria autora, reflete um mundo que não está ainda suficientemente distante do leitor e que intriga.

Virginia Woolf

Editora Cavalo de Ferro

208 páginas

Vinte e três "interrogatórios" a Mário Cesariny surgem reunidos num volume bem titulado: Uma Última Pergunta. A organização, introdução e notas são de responsabilidade de Laura Mateus Fonseca. Não falta um prefácio de Bernardo Pinto de Almeida e um posfácio de Perfecto E, Cuadrado, situações que enquadram o surrealista para novas gerações e recordam outras anteriores.

Laura Fonseca garante que "o entrevistado é sempre o mesmo", mas ressalta os seus vários papéis e as formas de abordagem ao "voo do condor". Nota que há uma pergunta constante: O que é o Surrealismo?, que tem como resposta "um movimento que perseguiu uma "liberdade livre", honrando Rimbaud, em detrimento das liberdades artificiais e padronizadas". Acrescenta que o conjunto das entrevistas "dá a conhecer um Cesariny de um torpor interventivo, um prestidigitador dado a caprichos".

Almeida inicia o prefácio com lembranças autobiográficas que lhe são muito gratas, partindo depois, após criticar os "impreparados jornalistas", sem os quais este livro não existiria nem seria resguardada a fala de Cesariny, as várias facetas do "artista".

Cuadrado transforma o "não-posfácio" numa "não-entrevista", inventada a conselho do próprio Cesariny, por ver mais uma vez o seu pedido recusado.

A lista de entrevistadores é grande e valiosa, mesmo que desconsiderados no prefácio: Álvaro Guerra, Ana Marques Gastão, Francisco Belard, Francisco Vale, Torcato Sepúlveda, Maria Teresa Horta, entre outros.

Vários

Editora Documenta / Fundação Cupertino de Miranda

431 páginas

O nome de Carlos Rates pouco diz aos portugueses, nem mesmo aos comunistas, mesmo tendo sido o primeiro secretário-geral do PCP. Pedro Prostes da Fonseca revolveu os baús da história e escreveu em Incorrigível duzentas páginas daquilo que recuperou de uma biografia em muito perdida. Pela capa, o leitor é levado a situá-lo entre os tempos de Lenine e de Salazar, situação explicada pelo subtítulo: A história desconhecida de Carlos Rates - De primeiro secretário-geral do PCP a apoiante de Salazar.

O prefácio cabe ao historiador Fernando Rosas, que define Rates como "uma das mais destacadas figuras da organização sindical e política do operariado entre os alvores do século passado e 1925, quando é expulso (ou se faz expulsar) do PCP."

A epígrafe escolhida para o início do livro - "As liberdades individuais, quando não dimanam do arranjo coletivo, são artifício" - denota o que só podia ser o destino de Carlos Rates: uma luta política que poderia ir das teses soviéticas ao corporativismo do Estado Novo. Rates acabou por escolher a segunda via e, como Incorrigível mostra, entrou rapidamente num longo anonimato, de que agora esta biografia o retira por momentos.

A investigação permite conhecer bem a época em que Rates se movimentava: o fim da monarquia e a instauração da República. Também, através da obra literária de Rates, muito do cenário cultural do país. A ler.

Pedro Prostes da Fonseca

Editora Ponto de Fuga

216 páginas

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