Justin Timberlake e a masculinidade americana

Ator de corpo inteiro, ele é um homem à procura de redenção em Palmer, de Fisher Stevens, a nova entrada no catálogo da plataforma Apple TV+ que está a bater recordes de audiência.

Foi preciso esperar por um pequeno filme rodado numa pequena cidade do Louisiana para ver Justin Timberlake a anos-luz do registo fresco e musical que caracteriza a sua presença no grande ecrã. Em comparação com trabalhos anteriores, Palmer é material novo na premissa e traz notas inesperadas ao semblante deste "ator nas horas vagas" que se reinventa na pele de um taciturno ex-recluso de regresso a casa.

Essa personagem titular, Eddie Palmer, esteve 12 anos na prisão e carrega dentro de si a melancolia do tempo perdido que deve afastar do espírito para se empenhar num projeto pessoal de reintegração na comunidade. Pouco depois de ser recebido de braços abertos pela avó (uma maravilhosa June Squibb), fica avisado: "Eu vou à igreja todos os domingos. Se vais viver aqui, também tens de ir." E o primeiro passo na tentativa de reconquista local está dado, seguindo-se um emprego como zelador numa escola.

Este típico capítulo de uma segunda oportunidade só fica completo, porém, quando Palmer, sem esperar, ganha afeição por Sam (Ryder Allen, debutante), um menino de 8 anos, filho de uma jovem toxicodependente (Juno Temple) que vive numa rulote à sua porta. A velhota, Vivian, cuida do miúdo a maior parte do tempo, e quando a mãe deste desaparece numa das suas temporadas fora, a criança passa a viver lá em casa. Mas os dias desta avó adotiva estão contados e Palmer acaba por ficar involuntariamente responsável por Sam, começando a despontar nele um relutante sentimento paternal. Um vínculo, de resto, que joga com as leis da improbabilidade, já que o protagonista se apresenta como uma leitura imediata do macho americano, e a criança é tudo menos um rapaz com o padrão de gosto masculino...

A luz calorosa do filme de Fisher Stevens (ele próprio ator e documentarista) reside nessa personagem que desorienta a visão fechada de uma América profunda com uma feminilidade "imprópria": vai para a escola vestido com roupas cor-de-rosa, brinca com bonecas e é absolutamente fã de uns desenhos animados com fadas e princesas. Adorável até mais não, Sam representa a grande chance de redenção de Palmer. Uma oportunidade que terá de ser agarrada com convicção, contra toda a maldade provinciana.

No seu melhor, Palmer, o filme, é um conto que põe em xeque a masculinidade tóxica, ao mesmo tempo que desafia a rigidez dos códigos de género (e geracionais). Isto num país, por si só e mais do que nunca, à procura de uma forma de redenção - tal simbolismo não é pronunciado, mas é inevitável.

E Stevens, talvez para suplantar a mera fórmula do drama confortável, não deixa de se focar nas idiossincrasias dessa América descolorada, sentada ao balcão do bar, que resiste à diferença. Algo que passa também pela assinatura de Timberlake no retrato justo do herói magoado, de expressão seca, olhos vazios e parcas palavras, a recuperar um objetivo de vida no contacto com uma criança que transborda a maior lição de amor. Basta a química afinada entre os dois atores, um toque de gentileza e uma modéstia desarmante, para fazer deste Palmer um filme recomendável. A começar pelo facto de ter o coração no sítio certo.

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