Joker, o rebelde com causa (s) e a glória para Judy Garland

Não houve absolutamente nenhuma surpresa na entrega dos Óscares das categorias de interpretação. E não há mal nenhum nisso.

Numa noite que começou com uma performance musical cujo guarda-roupa dos dançarinos serviu para assinalar algumas das ausências nas nomeações (Dolemite is My Name, Midsommar - O Ritual...), as surpresas não fizeram parte das categorias de interpretação. E é caso para dizer: ainda bem. A estatística da temporada de prémios que ditava os atores e atrizes vencedores era bastante sólida e inequívoca. Por isso, se Parasitas deu o verdadeiro bailinho ao favoritismo de 1917, para além de Bong Joon-ho, também se pode dizer que Joaquin Phoenix, Renée Zellweger, Brad Pitt e Laura Dern foram protagonistas da cerimónia.

Phoenix, que subiu ao palco com cara de chateado e a pedir para encurtarem os aplausos, deu continuidade ao discurso torturado que já tinha feito nos BAFTA, com postura de mea culpa e de quem decidiu "ser a voz daqueles que não têm voz", agora centrando-se num tema "geral": a luta contra a injustiça. Trouxe para o palco as suas preocupações e as suas causas, que são coletivas, entre o tom de gravidade e uma certa falta de regozijo que quase nos fazia desejar ver antes Antonio Banderas a subir ao microfone e dar outro tom à humildade... Claro que as causas importam muito e o discurso político (ou politicamente correto?) deve pesar nestes momentos, mas não abafar o sentido da estatueta. E, no entanto, o Joker de Phoenix era o vencedor evidente, justíssimo, mesmo que o próprio pareça não querer olhar para esse facto. À despedida, com um verso do irmão River Phoenix ("Corre para a salvação com amor, que a paz te seguirá"), deixou uma nota bela e sentimental.

Já René Zellweger, genuinamente agradecida e com uma serenidade bonita, recebeu o seu segundo Óscar da carreira - o primeiro foi por Cold Mountain - e focou-se na ideia do resgate da memória de Judy Garland (1922-1969), a lenda de Hollywood a que deu corpo e alma. A estatueta foi importante até como forma de homenagear essa estrela da era clássica que não chegou a ganhar um Óscar e cujo legado, através deste filme biográfico (Judy), foi enaltecido. Zellweger sublinhou o valor da celebração dos heróis, e em particular, da heroína Judy Garland. Ora num ano em que a competição continha a mais fabulosa carta de amor a Hollywood - Era Uma Vez em... Hollywood, de Tarantino - este discurso acabou por ser dos poucos que remeteram para os valores do passado.

E por falar em passado e heróis, Laura Dern (à terceira nomeação foi de vez), vencedora na categoria de atriz secundária pelo papel de advogada implacável em Marriage Story, não se esqueceu de agradecer ao legado da sua própria família. Para os que não se recordam, Dern é filha do grande Bruce Dern (que surge numa das melancólicas cenas de Era Uma Vez em... Hollywood) e de Diane Ladd, que estava com ela na cerimónia. Nas suas palavras emocionadas: "Alguns dizem para nunca conheceres os teus heróis. Eu digo que se fores realmente abençoado tem-los como pais. Partilho [esta estatueta] com os meus heróis da representação, as lendas Diane Ladd e Bruce Dern."

Por sua vez, Brad Pitt, que fez igualmente uma fantástica temporada à custa do duplo de DiCaprio no filme de Tarantino, sendo o primeiro a subir ao palco, fez questão de começar por sublinhar a "tragédia" atual na Casa Branca, referindo-se ao antigo conselheiro de Segurança Nacional que não foi ouvido no processo de destituição de Donald Trump. Uma nota rápida - "Disseram-me que só tenho 45 segundos para falar, mas 45 segundos é mais do que o Senado deu a John Bolton esta semana..." - e depois um grande sorriso de satisfação pelo seu primeiro Óscar como ator.

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