James Bond: A morte fica-lhe tão bem

Adiado várias vezes devido à pandemia, o 25.º oficial de James Bond já está nas salas escuras: Daniel Craig despede-se da personagem em tom de requiem.

Neste nosso pobre mundo narrativo, a própria noção de mito foi instrumentalizada, não poucas vezes reduzindo o espectáculo a uma pornografia de excessos visuais. Em cinema, as novas gerações estão mesmo a ser ensinadas (não pela crítica de cinema, já agora) a conceber o mito como banal acumulação de efeitos especiais: quanto mais cidades destruídas, mais "mitológicos" são os super-heróis... Uma tristeza, enfim. Em qualquer caso, ainda nos resta James Bond. Com filmes melhores ou piores, o agente secreto ao serviço de Sua Majestade persiste como personagem visceral do nosso imaginário da aventura. Por isso mesmo, aguardámos com expectativa a estreia do 25.º título oficial da saga. Inicialmente agendado para abril de 2020, várias vezes adiado devido à pandemia, aí está 007: Sem Tempo para Morrer.

O mito, convém lembrar, não nasce necessariamente de factos artificiosos que se "sobrepõem" aos cenários da nossa realidade. Não é um efeito especial, mas sim uma narrativa. O seu poder é tanto mais envolvente quanto, quase sempre, o mito lida com os limites da própria vida, quer dizer, a permanente e enigmática possibilidade da morte.

Assim é o novo Bond, quinto e último protagonizado por Daniel Craig. O título português nasce, aliás, de um equívoco de interpretação da própria lógica da ação: não se trata de sugerir que o herói vive "sem tempo para morrer", mas sim de sublinhar que "este não é o tempo de morrer".

Requiem por 007

Digamos que o tempo da ironia já passou. Lembremos, a esse propósito, um momento exemplar de Dr. No/Agente Secreto 007 (1962), primeiro filme da série, obviamente com Sean Connery. Nele encontramos uma linha de diálogo que define todo um entendimento frívolo da morte, a ponto de atrair um perverso gosto caricatural; assim, a certa altura, os maus da fita perseguem Bond num carro funerário, conseguindo ele que se despistem e caiam num precipício; quando alguém lhe pergunta como é que tudo aquilo acontecera, Bond esclarece, com desconcertante objetividade: "Creio que iam a caminho de um funeral."

Desta vez, não se trata exatamente de um funeral, mas de um requiem. Porquê? Porque Bond reaparece a viver uma frágil utopia romântica, a ponto de a sigla 007 pertencer agora à agente Nomi (Lashana Lynch). No esplendoroso cenário de Matera, no sul de Itália, a sua relação com Madeleine (Léa Seydoux), vinda do anterior Spectre (2015), parece já não pertencer ao universo Bond. É certo que, tal como Madeleine observa, ele mantém o tique de olhar constantemente por cima do ombro à procura de algo ou alguém ameaçador... Mas o tom é, por assim dizer, pós-Bond: como se fôssemos assistir à crónica íntima de uma serena reforma.

Não será assim, claro. Até porque, desde muito cedo, o filme nos recorda que há labirintos por conhecer e percorrer. "Porque é que eu haveria de te trair?", pergunta Madeleine, ao que Bond responde com a secura que, nele, é uma espécie de assinatura emocional: "Todos temos segredos. Só que ainda não chegámos aos teus."

Na prática, 007: Sem Tempo para Morrer vai contrariando a placidez dos primeiros momentos, fazendo regressar o arqui-inimigo Blofeld (Christoph Waltz), também presente em Spectre, complementando-o com Lyustsifer Safin (Rami Malek), cérebro purista que, à maneira dos "pequenos homens" que Bond identifica na história da humanidade, tenta impor o paraíso através do triunfo do inferno. Convenhamos que, no plano narrativo, a tragédia que se pressente teria ganho se o filme realizado por Cary Joji Fukunaga tivesse arriscado mais na tensão psicológica, mostrando alguma contenção no habitual "caderno de encargos" do fogo de artifício da ação física.

Bond e as crianças

Dito isto, importa reconhecer que o confronto inicial, em Matera, entra para a galeria das melhores cenas de perseguição do universo Bond, ao mesmo tempo que, infelizmente, o essencial protagonismo de Safin se apresenta claramente prejudicado pelo desaparecimento da personagem durante todo o bloco central do filme (além de que a interpretação "robotizada" de Malek não parece ser a solução mais interessante para a personagem).

Fica esse magma simbólico da morte que o filme vai preservando como potencial narrativa trágica. Não faltará, por certo, quem detete nos "nano-robots" do programa genético de Safin - suscetíveis de contaminar os corpos humanos, demonizando todos os contactos de uma pele com outra pele - uma bizarra premonição da covid-19... Sem qualquer fundamento, como é óbvio.

Seja como for, o que realmente nunca tínhamos visto no universo Bond são as personagens infantis. Sem qualquer decorativismo, entenda-se: Madeleine na excelente cena inicial, defendendo-se do ataque de Safin e tentando proteger a mãe alcoólica; mais tarde, a filha da própria Madeleine, agarrada à sua boneca de malha, tal como a mãe ameaçada por Safin. Uma e outra são personagens estranhas ao imaginário das histórias de espionagem protagonizadas por qualquer encarnação de 007, em qualquer época. Definem um horizonte afetivo capaz de justificar o enfrentamento da morte. Estranhos tempos, Mr. Bond - seja bem-vindo.

dnot@dn.pt

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