Isto não são os Óscares…

Mesmo quando há coincidências, os Globos de Ouro surgem de um universo totalmente diferente daquele que atribui os Óscares.

Há pouco mais de um ano, a 5 de janeiro de 2020, os prémios da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood consagraram 1917, de Sam Mendes, e Era Uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino, eleitos como melhores filmes nas categorias de drama e musical/comédia, respectivamente. Cerca de um mês mais tarde, a 9 de fevereiro, os Óscares atribuíam a sua distinção máxima, melhor filme do ano, ao coreano Parasitas, de Bong Joon-ho.

Pela primeira vez, um filme não falado em inglês arrebatava o Óscar principal. O certo é que, para lá desse acontecimento excecional, o triunfo de Parasitas voltava a desmentir um cliché tantas vezes propalado como certeza científica. A saber: não é verdade que os Globos funcionem como "antecipação" dos Óscares. Não é verdade em termos estatísticos (neste século haverá coincidências em cerca de 50% dos casos) e, acima de tudo, não é verdade no plano institucional.

Mesmo quando Globos e Óscares distinguem os mesmos filmes ou personalidades, não faz sentido estabelecer qualquer equivalência entre os universos dos respetivos votantes. Para os Globos votam nove dezenas de jornalistas, correspondentes em Los Angeles de publicações de 55 países; a decidir os Óscares estão vários milhares de membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (segundo o Variety, o universo de eleitores será, este ano, de 8469 pessoas de todas as áreas profissionais do cinema).

Não se trata de discutir quem dá os prémios mais "justos". Escusado será dizer que universos distintos geram diferentes votações - e são todas legítimas. Trata-se apenas de lembrar que, nas opções dos Globos, há uma lógica (jornalística, por certo) que não é, de modo algum, "duplicada" por aquilo que acontece ou vai acontecer nas cerimónias dos Óscares.

Nos prémios honorários, em particular, a Associação de Imprensa Estrangeira tem procurado preservar e enaltecer muitas referências simbólicas de cinema e televisão, este ano homenageando Jane Fonda (Prémio Cecil B. DeMille) e Norman Lear (Prémio Carol Burnett). O caso de Lear envolve uma nostalgia muito especial, já que, como criador e argumentista, ele tem uma trajetória ligada a modelos de comédia especialmente subtis na observação de muitas transformações sociais - recorde-se o exemplo modelar da série All in the Family (1971-1979), atualmente a passar na RTP Memória com o título Uma Família às Direitas.

Embora numa escala necessariamente mais reduzida do que a Academia, a Associação tem desenvolvido também importantes atividades de apoio ao estudo, investigação e divulgação do património cinematográfico. A estatística revela que, ao longo dos últimos 28 anos, prestou apoio a "organizações não lucrativas relacionadas com o espectáculo, programas académicos e organizações humanitárias", tendo também atribuído bolsas a mais de dois mil estudantes e apoiado o restauro de 138 filmes (incluindo, por exemplo, o clássico King Kong, de 1933). Contas redondas, tudo isso corresponde a doações no valor global de 45 milhões de dólares.

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