Isabel Lindim: "A pandemia fez esquecer as alterações climáticas"

Qual será o estado de Portugal daqui a cinquenta anos? Essa é a pergunta que Isabel Lindim quis responder no livro Portugal, ano 2071. Uma radiografia de como o presente irá influenciar as próximas décadas. Outras novidades literárias: Joaquim Fernandes e Byung-Chul Han.

Entre as novidades que chegam às livrarias está uma que pretende antecipar os efeitos das alterações climáticas nas próximas décadas. O título é bastante claro: Portugal, Ano 2071. Com ele, a autora, Isabel Lindim, quer "entender a crise ambiental em que vivemos" através de uma investigação que escuta os cientistas e partilhar com os portugueses os resultados desse trabalho.

Quando se lhe pergunta se é descabido acreditar que a própria natureza irá reverter as alterações climáticas com uma resposta catastrófica, Isabel Lindim responde: "A natureza já está a manifestar-se, são vários os sinais, mas consegue reerguer-se, nem que passem milhares de anos. Tivemos cinco extinções em massa neste planeta, quatro delas provocadas por alterações climáticas, só que em vez de ser à velocidade da atual extinção antropogénica, foram muito lentas. Numa delas, morreram 96% das espécies. A natureza regenera-se sempre, de deserto pode passar a floresta, mas a vida para a humanidade vai ser muito difícil se atingirmos o aumento de temperatura e os fenómenos extremos que se preveem."

Num tempo em que a pandemia pôs em pausa muitos dos esforços para salvar o planeta de uma subida da temperatura e da destruição de espécies e de ecossistemas, bem como uma erosão galopante das costas que afeta Portugal entre muitos outros países, é tempo de ler uma investigação que avança como poderá ser o nosso país dentro de cinquenta anos.

Começa o livro com o alerta feito por onze mil cientistas de que estamos a viver uma emergência climática. Desde 2019 o que mudou?

Aconteceu uma pandemia, que pôs tudo em causa. A nossa relação com o meio ambiente e com a natureza, com o sistema financeiro em que vivemos e com as prioridades do nosso dia-a-dia. Fomos confrontados com muitas questões e sem dúvida que o impacto das alterações climáticas foi uma delas. Como vamos lidar com crises no futuro, originadas por outros fatores, como o clima? Apesar do tema se manter na agenda internacional, os avanços são poucos e até houve alguns recuos, em nome de um crescimento económico urgente, mas a convenção criada recentemente pelo presidente Biden pode ser um grande passo. Ele tem vontade política.

E no caso de Portugal?

Não se compreende como é que por um lado há medidas de mitigação e por outro há exceções às diretrizes da União Europeia, acentuadas pelo Green New Deal, como é o caso da autorização para mais áreas de cultivo intensivo destinado a exportação, com produtos que necessitam de muita água. Economicamente, está provado ser contraproducente estar a destruir regiões que já de si são secas, e que vão ter problemas de recursos hídricos e aumento de temperatura. Estamos a criar desertos que vão ser abandonados, e estamos a ignorar que não há garantias de água disponível para a população no futuro. Fala-se de agro-floresta, o modelo mais sustentável para manter um território saudável, mas os incentivos vão numa direção contrária. Não se entende, por exemplo, que haja um financiamento de 10 milhões de euros para o setor da caça em reservas naturais.

O Protocolo de Quioto (1997) e o Acordo de Paris (2015) foram grandes esperanças, mas praticamente abandonados. Existe uma banalização destas preocupações climáticas com tantas iniciativas oficiais?

Não sei se essa banalização é boa ou má. Na verdade, coloca na agenda política as questões ambientais. Os governantes não têm como fugir a elas. Faz-nos pensar que, apesar do avanço ser lento, se estas metas não existissem a situação seria ainda pior. Mesmo que não se cumpram, estão delineadas, com uma série de planos em cima da mesa.

"Trump era indiferente a estas questões, mas pode ser que agora haja um grande avanço, sendo este país um dos mais poluidores e também um dos que tem mais poder."

Porque não têm os avisos de António Guterres enquanto secretário-geral da ONU resultados políticos?

Porque a ONU não é um órgão soberano, e por isso grande parte destes avisos são ignorados. Os encontros entre esses países são muitas vezes espaço de negociações, de reclamar o direito a poluir e a emitir gases com efeito de estufa. António Guterres tem sido incansável nos seus alertas, porque tem perfeita noção da dimensão do impacto deste problema, incluindo na economia e numa futura crise de refugiados climáticos. As alterações climáticas vão também acentuar as desigualdades sociais.

Sendo Portugal um dos países do continente europeu que primeiro vai sofrer, qual é a perceção dos portugueses sobre as alterações climáticas?

Antes da pandemia, as notícias nos jornais portugueses sobre este tema sucediam-se, e isso trouxe obviamente uma nova consciência, ou pelo menos uma maior atenção. Agora, a pandemia fez esquecer as alterações climáticas, é um assunto que está um pouco esquecido. No entanto, penso que muitas pessoas sabem que vivemos num país vulnerável ao calor, às secas e à erosão costeira. É importante que esta informação esteja presente nas escolas, porque é aí que se estão a formar os futuros decisores políticos.

Dá como exemplo as inundações periódicas em parte da costa do Algarve e erosão em praias do norte. Portugal poderá vir a ser a primeira de novas Veneza?

Muitas zonas do país, incluindo cidades, vão ter as chamadas inundações de marés vivas. As águas avançam de forma inicialmente impercetível, que pode até acontecer num dia de verão tranquilo, e inundam uma vila, uma cidade ou um conjunto de casas. Além, disso, o Oceano Atlântico vai criando erosão e avançando. O êxodo para a costa, onde se encontra 75% da população, traz agora um preço a pagar. Antes de mais, há que evitar novas construções perto do mar ou zonas ribeirinhas.

Se estas situações atrás referidas acontecessem nos EUA a sensibilidade do maior poluidor seria maior?

Estas situações já acontecem nos Estados Unidos! O mar a entrar pela Flórida, a inundar zonas de habitação, os fogos e o aumento de temperatura, os fenómenos extremos que são cada vez mais frequentes... Trump era indiferente a estas questões, mas pode ser que agora haja um grande avanço, sendo este país um dos mais poluidores e também um dos que tem mais poder. É sem dúvida um enorme desafio para o novo presidente, porque vai encontrar muita resistência por parte dos responsáveis pelo aumento de temperatura no mundo. Vai ter que começar, por exemplo, por ter de pagar ao Bolsonaro para não destruir mais floresta amazónica. É uma das soluções apontadas na última convenção. Parece uma piada...

Considera que "este livro aponta cenários, não faz prognósticos nem previsões". É assim tão incerta a evolução da situação?

Naquilo que me foi transmitido pelos investigadores que entrevistei, e também pelos relatórios que li, a minha perceção é de que os efeitos nos oceanos são o fator mais difícil de prever, porque o aumento da subida do nível do mar e a alteração das correntes estão a ser mais rápidos do que o previsto. Em relação ao que já foi emitido para a atmosfera, é possível projetar com precisão o que vai acontecer nos próximos anos. Num futuro mais longínquo, estes tais cinquenta anos do livro, a avaliação internacional aponta dois cenários de aumento de temperatura, que variam consoante a emissão de gases com efeito de estufa a partir de agora. O aumento de temperatura depende disso. Pode ser de 4.5 ou de 8.5ºC.

Quando chegarmos ao ano do título desta investigação, o aumento do calor e a diminuição da chuva serão duas das grandes preocupações no território nacional segundo as projeções. Há hipótese de se impedir esse futuro?

Há hipóteses de nos adaptarmos a esse futuro, e de evitar o pior. Podemos começar por proteger os ecossistemas mais importantes para a captação de dióxido de carbono. São eles que também nos vão proteger do calor, e que vão manter os solos férteis e menos vulneráveis aos fogos. As árvores, as florestas, os estuários dos rios... Os recursos hídricos são uma das questões mais importantes de consertar em Portugal. Por enquanto, pensa-se que a água estará para sempre disponível no setor da agricultura, mas não será assim, e a solução não passa apenas por melhorar infraestruturas e tecnologias. Por outro lado, devemos evitar construir junto à costa, porque o mar vai avançar e vai criar erosão. Devemos antes recuar, e olhar para o interior do país, não só para habitá-lo, mas também para preservá-lo.

Este "impacto no país que os nossos filhos vão herdar" está a ser levado em conta pelos governos portugueses?

Acredito que por alguns sim, até porque faz parte da agenda europeia. No entanto, parece-me que falta um maior entendimento entre ministérios, principalmente entre a agricultura e o ambiente, ambos relacionados com as questões das alterações climáticas. Não vale a pena criar tecnologia para captar carbono quando temos um país tão rico em biodiversidade, com naturais captores de carbono. Basta preservá-los. Por outro lado, caminhamos para a diminuição de emissões de gases com efeito de estufa e felizmente não se avançou com a exploração de petróleo no mar. Foi uma luta difícil, bem se pode agradecer aos ambientalistas. No entanto, não podemos deslocar a produção e exploração para a China ou outros países. É por isso muito importante as medidas serem globais e cortar o financiamento europeu aos combustíveis fósseis, que ainda é gigante. A transição energética está a ser muito lenta.

Isabel Lindim

Editora Oficina do Livro

181 páginas

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Relato minucioso dos fins do mundo - e não só -na história de Portugal

O autor de Apocalipses - Os vários fins do mundo na história de Portugal, tem uma vasta coleção de livros, artigos e argumentos, sobre factos quem têm acontecido no país, muitos dos quais não têm explicação. No entanto, Joaquim Fernandes não os deixa esquecidos e a sua biografia mostra que o seu esforço investigatório tem sido compensado nessa busca de respostas para questões consideradas por muitos como esotéricas. Neste volume agora publicado existem dezenas de histórias que recupera e deixa no leitor uma impressão de que a História oficial passa ao lado de certos acontecimentos.

É o caso do capítulo 7, onde refaz a réplica que o radialista Matos Maia executou da invasão marciana inventada por Orson Wells, só que aos microfones da Rádio Renascença em 1958, e com os habitantes do planeta vermelho a aterrarem em Braga. O episódio interessou à polícia política de Salazar e a PIDE acabou por o prender e interrogar. Os ecos, diz, deste programa não se ficaram pelas centenas de portugueses assustados com os relatos que ouviam a chegada dos marcianos, alguns receosos de estar a acontecer um entre os vários fim do mundo incluídos neste livro, mas também a vários jornais estrangeiros.

No prefácio a Apocalipses, Miguel Real justifica a importância deste trabalho: "É um pensador das fronteiras, dos limites mentais, onde a epistemologia formal tomba, não dando conta de fenómenos que a racionalidade ocidental repudia e oculta". Para o provar, estão os outros capítulos escritos por Joaquim Fernandes, intrigantes como o das profecias, o dos castigos dos céus, o das calamidades ou o da aurora boreal de Fátima, entre muitos outros.

Joaquim Fernandes

Editora Contraponto

263 páginas

As linguagens da morte explicada pelo coreano Byung-Chul Han

A editora Relógio D"Água tem vindo a publicar os vários ensaios do autor sul-coreano Byung-Chul Han. Rostos da Morte é o seu décimo sexto livro traduzido para português, após temas tão diversos como a Transparência, Psicopolítica, o Poder, a Violência ou, entre outros, a Paixão na História do Ocidente. Desta vez o subtítulo é suficiente para se perceber ao que se vai: Investigações Filosóficas sobre a Morte. Han relê os textos de Adorno, Heidegger, Derrida, Levinas, Kafka e Handke. Ou Hegel, cujo nome e teses aparecem abundantemente referidas.

Como o autor começa por definir, "neste livro descrevem-se alguns tipos de morte, mas não quaisquer tipos, antes precisamente aqueles que parecem mais próximo da morte e mais semelhantes a ela". É, decididamente, um ensaio para o leitor que tenha apetência filosófica, pois Byung-Chul Han nem sempre é de leitura fácil e este é um bom exemplo de uma complexidade que, no entanto, merece atenção.

Algumas frases de Rostos da Morte: "Aprender a viver não significa aprender a morrer. Uma vida conseguida consiste antes em esquecer a morte"; "É ameaçadora a "solidão dos simples factos"; "O "elevado" é atribuído ao "ser humano" na proximidade da morte".

Byung-Chul Han

Editora Relógio D"Água

238 páginas

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