"Hoje vivemos no momentâneo. E, por isso, é preciso uma certa atitude para ler um livro"

São quase quarenta anos a escrever em parceria. Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada continuam envolvidas em inúmeros projetos literários, tudo isso enquanto lidam com alunos e assumem com gosto o papel de avós. Ao DN explicam como puxar as crianças para a leitura.

Exatamente na mesma mesa onde foram escritos a maioria dos livros da coleção Uma Aventura e tantos outros, rodeados de fotografias de família, conversámos com as autoras Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães. À distância de segurança anticovid, as autoras, que já escrevem juntas há quase 40 anos, falam dos seu novos livros e como se puxa os mais novos para a leitura.

Já escrevem juntas e publicam livros há 38 anos. A vossa relação é mais duradoura do que muitos casamentos. Qual é o vosso segredo?
Isabel Alçada (I.A.) - Gostamos de trabalhar juntas e as nossas ideias conjugam-se muito bem. Juntas fazemos muito melhor do que sozinhas. E também ajuda termos uma amizade muito longa e com muito respeito e admiração.
Ana Maria Magalhães (A.M.M.) - E também ajuda que, à parte da escrita, cada uma de nós tem uma vida muito intensa. Sou casada, tenho filhos, netos, tenho amigos...é outro mundo. A Isabel tem dez netos em conjunto com o marido e tem uma casa sempre cheia. Não sei se seria possível se fôssemos duas solteironas sem nada para fazer. Acho que acabaríamos por nos chatear [risos]. Hoje em dia todos acham estranho que as coisas durem... para além disso há um pormenor importante : não rivalizamos.

Aquela ideia, talvez estereotipada, do escritor solitário, resguardado na sua criação parece não ter nada que ver convosco... como é o vosso processo criativo?
A.M.M. - Dou um exemplo: se a Isabel tiver uma ideia e eu gostar começo imediatamente a tentar desenvolvê-la. E vice-versa. Apesar de nunca destruirmos a ideia uma da outra, se uma de nós não gostar concluímos que metade dos leitores também não vai gostar e por isso abandonamos.
I.A. - ... mas às vezes argumentamos para explicar melhor. Nunca nos aconteceu não termos ideias.
Mas se uma de vós tem uma ideia começa logo a escrever ou fazem-no ao mesmo tempo?
A.M.M. - Primeiro temos de fazer pesquisa que depende do género e do tipo do livro. Neste último livro Talvez Uma App tivemos de pesquisar sobre apps e também sobre surf. Já na coleção Uma Aventura, por exemplo, visitamos os locais com olhos de aventura para ver o que podemos incluir nos livros.
I.A. - Fazemos um plano muito detalhado, que às vezes a meio pode ser alterado. Mas só trabalhamos quando estamos livres para tal. Quando não estamos juntas apontamos as ideias ou telefonamos uma à outra.

"Eu sou mais emotiva do que a Isabel. Sou muito cuidadosa naturalmente, mas estou farta disto [covid-19], completamente", Ana Maria Magalhães.


E como é que se têm organizado em tempos de pandemia?
A.M.M. - Falamos muito pelo telefone. Às vezes estamos a escrever enquanto estamos ao telefone ou então utilizamos as plataformas digitais. Mas nada substitui o contacto pessoal, por isso preferimos fazê-lo pessoalmente, aqui em casa com todo o cuidado, de máscara e à distância de segurança.

E como estão a viver a pandemia? Assusta-vos?
I.A. - Estou com muito cuidado mas sou de racionalizar os problemas. Se temos informação suficiente para nos proteger da covid-19 é uma estupidez não a usar. Ando com máscara, distanciamento, tenho sempre desinfetantes pessoais comigo e tento dizer aos outros quando não estão com esse cuidado. Não sou de pânico, sou avó, mãe e irmã mais velha e sempre tive o papel de acalmar os outros (risos).Aceito a vida como ela é. Resigno-me, mas atuo. Por exemplo, tivemos convites para ir a várias escolas, como não podemos com a covid-19 então estamos a fazer online, e temos cerca de cem sessões já marcadas.
A.M.M. - Eu sou mais emotiva do que a Isabel. Sou muito cuidadosa naturalmente, mas estou farta disto, completamente.

A pandemia poderá aparecer em algum dos vossos livros no futuro?
A.M.M. - Quando a pandemia passar só vou querer esquecer. Vivo aqui neste bairro desde os 12 anos e vejo a desolação que vai nas lojas e nos restaurantes. É muito triste.
I.A. - Logo no início da pandemia fizemos um livro O Nuno Escapa ao Vírus para chamar a atenção às crianças sobre as medidas a tomar, mas também quisemos dar um lado positivo e dar esperança.

E como acham que as crianças vão assimilar esta fase que vivemos?
I.A. - A minha esperança é que elas depois contem isto como quem conta uma história estranha, que passou e acabou e não existiram vagas repetitivas.
A.M.M. - É muito complicado. É muito pesado para as crianças, filhos únicos que estão confinados sem verem os colegas, mesmo que tenham tablets... E isso reflete-se na aprendizagem e na concentração. Tem sido muito importante as escolas estarem abertas e a funcionar.
I.A. - Aliás, deu para perceber a importância do sistema educativo para a economia não só para a formação das pessoas mas também para manter as crianças na escola e os pais conseguirem trabalhar.


E como surgiu a ideia deste livro Talvez Uma App para a Associação Portuguesa de Seguros [APS]?
A.M.M. - A ideia foi centrar numa personagem criativa, muito impulsiva, que se atira de cabeça para projetos que correm mal, desaproveitando aquilo que tem de melhor. Entretanto cria uma app que é muito bem recebida e tem muito êxito. E quando tudo lhe corre mal os amigos aconselham-lhe que o seu caminho pode ser criar apps.
I.A. - O livro faz parte de uma série que temos feito para a APS, uns sobre acidentes de automóveis, outro sobre roubo de obras de arte. Além da informação que damos sobre os seguros, através das histórias questionamos a forma como as pessoas se relacionam e os seus valores.
A.M.M. - No fundo, trabalhamos as emoções e as relações entre as pessoas. Costumamos trabalhar com um arqueólogo, o João Zilhão, que diz que o ser humano está igual ao Homo sapiens, nada mudou. O amor, o ciúme, a raiva, a solidariedade, o ciúme, etc., está tudo igual.
I.A. - ...mas há uma coisa que mudou, e muito, que é a expressão das emoções. E a literatura ajudou imenso nisso....

Os jovens de hoje são muito diferentes dos jovens da altura em que lançaram os primeiros livros Uma Aventura, na década de 1980. Hoje têm uma série de distrações constantes, como se puxa para a leitura as crianças e os jovens?
I.A. - O livro só se revela quando é lido. Ler livros que lhes interessem e em voz alta aos mais pequenos ajuda a perceber o que está no livro e talvez os ajude a ficar seduzidos e despertar o interesse para a leitura.
A.M.M. - Se na escola trabalharem livros que os miúdos achem uma chatice estão a prestar um péssimo serviço. Colocam a leitura ao nível do que é estudar gramática, que tem de ser estudada mas é uma maçada. Muitas escolas fazem isso porque acham que estão a fazer bem, mas a leitura fica um aborrecimento horroroso...
I.A. - ...muitos fazem-no porque acham que é literário. E o literário pode matar a literatura. Se as crianças não fizerem um percurso em patamares sucessivos de complexidade e profundidade nunca vão ler Eça de Queiroz, podem quando muito ler o resumo e fingir que leram.
A.M.M. - Atenção que não há um livro que sirva para todos. Há livros que funcionam bem com um tipo de turma e outros com outra. É preciso saber com quem se está a trabalhar.

E em casa qual a melhor forma de os pais incentivarem as crianças a ganharem o gosto pela leitura?
A.M.M. - Dou o meu exemplo, cá em casa inventei uma espécie de plano familiar de leitura. Todos os meses enviava às minhas netas, que estão nos Açores, um livro. Um para cada uma delas, porque gostavam de ler coisas diferentes. Com o trabalho da mãe e o meu tornaram-se grandes leitores e grandes alunas, porque os grandes leitores são por norma excelentes alunos. Todo esse trabalho foi muito interessante de fazer.

Há quem defenda que o livro deva evoluir e estar noutras plataformas como os audiobooks, apps, isso pode ajudar?
I.A. - Não me parece que seja essa a solução para promover o amor pela leitura. Mais do que o suporte é o tempo de concentração que o livro exige. Vivemos num mundo em que a atenção é muito dispersa. Hoje vivemos no momentâneo. E, por isso, é preciso uma certa atitude para ler um livro.
A.M.M. - Para se escrever para o digital tem de ser escrever de uma forma mais curta. Não sei se algum dia o suporte digital chegará a todos.

"Continuo a interessar-me pela política e sobretudo pela educação. E quando vejo que a pandemia está a afetar a educação, ou que as escolas não estão a ter os recursos todos de que necessitam para trabalhar de certa forma, fico muito preocupada", Isabel Alçada.


E agora uma pergunta dirigida à ex-ministra da Educação Isabel Alçada. Tem saudades dos tempos de governo?
I.A. - Não. Continuo a interessar-me pela política e sobretudo pela educação. E quando vejo que a pandemia está a afetar a educação, ou que as escolas não estão a ter os recursos todos de que necessitam para trabalhar de certa forma, fico muito preocupada. Aliás, como sabe continuo envolvida em certa medida como consultora do Presidente da República. Mas não tenho saudades de estar à frente de um ministério, aliás até tenho pena das pessoas que lá estão. É tão duro que nem se imagina. A maior parte dos ministros estão a dar tudo para o país melhorar, e a escolher as melhores soluções e as mais viáveis no momento. Mas há muita discussão e contestação de quem não tem todos os elementos para poder opinar. E isso causa muita mágoa a quem está verdadeiramente empenhado a que o país progrida.


E como foi a vossa relação e produção literária no tempo?
A.M.M. - Tinha de me sujeitar aos tempos livres da Isabel. Às vezes quando era possível reunimos ao fim de semana e às vezes vinha almoçar comigo.

Acabaram de lançar Talvez Uma App e o último da coleção Uma Aventura Voadora, em junho passado. Que mais planos para o futuro?
I.A. - Já escrevemos outro, Uma Aventura em Noite de Tempestade que irá ser publicado em março. E estamos sempre a trabalhar nos livros das nossas coleções, seja Uma Aventura seja a Bruxa Cartuxa para os mais novos. E também com as organizações que nos pedem livros, como a APS ou o Museu Nacional de Arte Antiga ou a Imprensa Nacional Casa da Moeda.
A.M.M. - Agora estamos fazer um livro para a Fundação Jorge Álvares, sobre a nau que fazia o comércio entre Macau e o Japão. Estamos a ler e a reler o que os historiadores escreveram sobre o assunto, e depois inventamos uma história à volta de personagens.

Uma última questão: o que andam a ler agora?
I.A. - Estou quase a terminar o livro Americanah da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que conta a história de quando ela foi viver para o Estados Unidos e percebeu como era o racismo.
A.M.M. - Estou a ler o Diário de Uma Viagem a Portugal e Sul de Espanha de Dorothy Wordsworth. Passa-se no século XIX e é a viagem pelos dois países pela filha do poeta William Wordsworth. É delirante. E, ao contrário de muitos relatos que existiam na altura e que diziam mal de Portugal, ela acha graça a quase tudo.

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