Hip-hop salva o Super Rock

Ao segundo dia do festival, o talento do Português Slow J e do americano Anderson .Paak tornou memorável uma noite que já se adivinhava vir a ser a mais concorrida e animada da edição deste ano

"É um pouco estranho, isso dos rótulos. Gosto de fazer o que me apetece, não há outra forma de explicar a minha música", dizia Slow J há pouco mais de um ano, ao DN, quando o seu nome foi anunciado no Super Bock Super Rock de 2017, para atuar num dos palcos secundários, tornando-se, mesmo assim, num dos protagonistas dessa edição. Tais palavras fazem ainda mais sentido, depois deste regresso ao festival, mas agora ao palco principal, onde mostrou o quanto cresceu em apenas um ano.

Continuar a chamar-lhe apenas rapper, como muitos ainda insistem em fazer, é no mínimo redutor. Sim, o hip-hop continua a ser o ponto de partida, mas os seus horizontes são cada vez mais alargados, como se comprovou no Altice Arena, num palco aparentemente demasiado amplo para a indisfarçável timidez do músico - "bué de pessoas", murmurou a dada altura, ao olhar para a plateia -, mas que o seu imenso talento tratou de encher.

Amigos em palco

Com um espetáculo baseado no álbum de estreia, The Art of Slowing Down, lançado o ano passado, Slow J continua a soar a novo, mesmo quando se atira, sempre coadjuvado por Francis Dale nas teclas e Fred Ferreira na bateria, aos temas mais conhecidos, como Comida, Biza, Sado ou a inevitável Vida Boa, entoado por todos a uma só voz.

A rimar, a cantar, a tocar guitarra, Slow J tem o público na mão, mas ainda parece admirar-se com isso. "Acendam a luz, quero ver tudo até lá ao fundo", pediu já perto do fim, para ter a certeza que toda aquela gente ali está por ele. Sim, é verdade, tal como Nerve, Richie Campbell, Papillon e Plutonio, velhos amigos que também passaram pelo palco, onde se juntou mais tarde, em dia de aniversário, o ídolo Carlão, a quem é tantas vezes comparado. Mas Slow J dispensa-o, quer apenas ser ele próprio, já o é, como o provou, novamente, no Super Rock.

Quando há um ano, na tal entrevista ao DN, foi desafiado a definir-se enquanto artista (músico, cantor, produtor, rapper?), respondeu que apenas quer "ser apresentado como João, um ser humano que faz música". E que bem que a faz, pode-se acrescentar.

O regresso de Anderson Paak a Lisboa

Também de regresso esteve o americano Anderson Paak, não ao Super Rock, mas ao palco da Altice Arena, onde no ano passado atuou na primeira parte de Bruno Mars, com quem partilha bastantes referências musicais, como aliás ficou bem patente neste concerto. Mas se o ponto de partida é o mesmo, as direções por onde seguiram não podiam ser mais distintas. Acompanhado por uma sublime banda que dá pelo nome de Free Nationals, o baterista (sim, isso mesmo), cantor, rapper (que também o é) e já agora dançarino, ora vagueia por uma erudição jazz como por uma desbunda quase psicadélica, na qual funk, hip-hop, soul, R&B e rock se fundem num caldo primordial que não deixa ninguém indiferente - e muito menos quieto.

Quando terminou, depois de ter interpretado o êxito Am I Wrong, ficou a sensação de ter sabido a pouco. Volta em breve, Brandon Paak Anderson, que a festa tem de continuar. E de certa forma continuou, mas de uma forma muito mais direta e visceral, com a portentosa atuação do rapper americano Travis Scott. Apetecia até escrever por aqui, nalgum lado, a palavra rock. Afinal é só nos concertos de rock que se faz mosh e headbanging, não é? Desde ontem parece que já não...

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