Hannibal Lecter. O vilão n.º1

O Silêncio dos Inocentes, um marco do cinema pela lente de Jonathan Demme, faz 30 anos. E com ele a figura icónica, única e irrepetível, interpretada por Anthony Hopkins. Hannibal, the cannibal continua a assombrar-nos.

Estava naturalmente nervoso. Um inglês - um limey como eu, um galês - a interpretar um serial killer americano. Quando a câmara me apanhou, lembro-me da expressão do Jonathan [Demme]: "Oh meu Deus, é isso. Hopkins, estás tão estranho!"" Assim recorda o maior intérprete de Hannibal Lecter o momento em que a personagem ganhou pose no ecrã. Aquele instante em que a Clarice Starling de Jodie Foster, após atravessar o corredor inóspito da masmorra, se depara com uma figura hirta e sinistra do outro lado do vidro da cela. Na verdade, o realizador tinha deixado ao critério de Anthony Hopkins a posição em que ele deveria apresentar-se à sua frágil interlocutora; se queria estar a ler, a pintar ou deitado. A resposta foi: "Gostava de estar de pé. Consigo sentir o cheiro dela vindo do corredor."

Quando a câmara me apanhou, lembro-me da expressão do Jonathan [Demme]: "Oh meu Deus, é isso. Hopkins, estás tão estranho!"" Assim recorda o maior intérprete de Hannibal Lecter o momento em que a personagem ganhou pose no ecrã.


Este relato preciso - do qual emana a arte do medo - é parte de uma conversa recente do ator com Jodie Foster para a revista Variety, que, a propósito dos 30 anos de O Silêncio dos Inocentes (assinala-se a 14 de fevereiro), juntou virtualmente os dois protagonistas no âmbito da série anual Actors on Actors. O resultado é um tu cá, tu lá amistoso entre quem experimentou, através desse filme, um dos pontos mais altos das respetivas carreiras - no caso de Hopkins, tornou-se mesmo o papel da sua vida. Algo que ele diz ter pressentido depois de ler as primeiras dez páginas do guião, quando, pelo título, achava que era uma história infantil... Saiu-lhe a sorte grande. Hannibal Lecter, o lobo mau, psiquiatra canibal e culto que gosta de um bom vinho italiano (Chianti) a acompanhar o fígado de um técnico de recenseamento, é o monstro de postura aristocrática que diante de Clarice Starling, a agente novata do FBI, em jeito de Capuchinho Vermelho, se revela um exímio cirurgião da mente, usando o bisturi nos diálogos até perceber que há qualquer coisa mais profunda nos olhos dela. Enviada para o interrogar, no sentido de fazer que ele identifique um outro assassino em série que tem por prática tirar a pele às suas vítimas, Starling acaba por ser a única pessoa a quem ele ganha respeito. Isto sem perder, na abordagem, o estilo de perversidade minimalista.


De facto, para descrever Hannibal, o mais famoso dos psicopatas, vilão n.º 1 da história do cinema (segundo a lista do American Film Institut), é preciso ter em conta que Hopkins moldou a personagem com rigor. "Decidi interpretar o lado não psicopata dele, o lado calmo, charmoso, sem pingar sangue. Quis deixar o público fazer o resto. Toda a gente sabe o que ele é, porque é dito no filme. Tu não tens de representar tudo o que é referido. Como ator, o teu trabalho é selecionar e editar. O público faz o resto", disse, em 2001, em declarações à Hollywood Foreign Press Association. Palavras de quem nomeou como fonte de inspiração para o temperamento e voz neutra de Hannibal o computador HAL 9000, de 2001: Odisseia no Espaço (Goodnight, Dave). Faz sentido.

Pedra-de-toque do género thriller envolvendo serial killers, O Silêncio dos Inocentes concebeu o vilão de Hopkins a partir de uma essência verídica. O autor dos livros, Thomas Harris, retirou elementos de um assassino que conhecera na altura em que trabalhou como repórter policial: o cirurgião Alfredo Balli Treviño, dono de uma "certa inteligência e elegância". Além disso, e corrigindo-se um erro frequente à volta da mitologia deste refinado canibal, o ator britânico não foi a primeira encarnação de Hannibal no cinema. Antes dele, Brian Cox (Succession) vestiu a pele da personagem em Caçada ao Amanhecer (1986), de Michael Mann, baseado, justamente, no primeiro romance de saga, Red Dragon. O filme de Jonathan Demme, que fez história em tudo o que era possível fazer história, seria a segunda exploração desse universo, adaptando o livro homónimo que se seguiu. Hopkins ainda voltou ao papel mais duas vezes, em Hannibal (2001), de Ridley Scott - com Jodie Foster substituída por Julianne Moore -, e numa nova versão de Dragão Vermelho (2002), de Brett Ratner. Na televisão, os seus apetites ficaram ao cuidado de Mads Mikkelsen. Mas, por mais voltas que se dê, o arquétipo será sempre O Silêncio dos Inocentes, filme em que o intérprete-mor esculpiu os gestos e forjou uma inapelável expressão assustadora.

Enquanto referência cinematográfica que trouxe conquistas inesperadas ao cinema de género, a narrativa de Silence of the Lambs ficou inequivocamente ligada ao histórico dos Óscares. Vale a pena lembrar que, em 1992, depois de Uma Noite Aconteceu (1934), de Frank Capra, e Voando sobre Um Ninho de Cucos (1975), de Milos Forman, foi apenas a terceira obra a arrecadar as cinco estatuetas nas muito desejadas categorias principais (melhor filme, realizador, argumento, ator e atriz), e, a somar a essa proeza, havia uma repetente nos prémios da Academia. Com efeito, Jodie Foster já tinha vencido um Óscar em 1989, na mesma categoria, com Os Acusados, de Jonathan Kaplan. Um pormenor de talento validado que na rodagem intimidou Anthony Hopkins, por detrás de toda a segurança performativa do seu Hannibal, e que se pode associar ao próprio poder crescente da personagem dela.

Por outras palavras: a presença e a ação de Clarice Starling faz de O Silêncio dos Inocentes um slasher movie verdadeiramente feminista. Aquela lógica que diz que a mulher é a vítima e a perseguida inverte-se aqui a favor de uma heroína que persegue um serial killer, Buffalo Bill, recorrendo ao jogo mental de outro, Lecter. E isto com um medo muito humano pregado no rosto que cria calo à medida que se aproxima da vertigem do mal.


Essa preponderância subtil da personagem feminina - que não teve o peso mediático de Hannibal, mas que Foster fez questão de sublinhar ao receber o Óscar - nota-se sobretudo num desdém discreto que Starling reserva às atitudes paternalistas do chefe e na sua linguagem corporal num meio governado pelos homens. Por sua conta e risco, ela consegue atingir os objetivos e fixar a retina do monstro que todos receiam. Nas situações de diálogo entre os dois, de onde saltam as citações que se colaram ao imaginário popular ("I ate his liver with some fava beans and a nice chianti"), Demme mede a voltagem através do confronto dos rostos, em close-up apertado, e deixa-nos entregues à empatia com o nervosismo dela. Não um nervosismo petrificante, mas aquele que nasce de um espírito de competição face à inteligência ferina de Dr. Lecter.
E voltamos a Hannibal, the cannibal. Quão provável seria ver Anthony Hopkins, que interpretara um assassino em série, receber o Óscar de melhor ator das mãos de Kathy Bates, ela própria agraciada no ano anterior pelo papel de uma enfermeira psicopata na adaptação de Misery, de Stephen King, assinada por Rob Rainer? Há uma poesia negra neste retrato de passagem de testemunho. Como se os vilões tivessem tomado de assalto Hollywood, da mesma maneira que o azul cortante dos olhos bem abertos de Hopkins/Lecter, de repente, passaram a dominar as publicações nas bancas, roubando por algum tempo as atenções que estavam voltadas para o cyborg de Arnold Schwarzenegger em Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento, de James Cameron.

Reencontrar hoje O Silêncio dos Inocentes (por sinal, disponível no catálogo da HBO), atravessar a escuridão dos lugares que testemunham o legado de uma violência muito americana, ouvir o mau augúrio dos pássaros, o chiar do portão perro que dá para o calabouço onde está Hannibal, e a banda sonora de Howard Shore, que guarda os despojos românticos de um policial, é perceber que a obra consagrada de Jonathan Demme cristaliza o medo de uma forma tão simples quanto complexa, com a fibra ténue do terror a funcionar como sugestão hitchcockiana. Hopkins, já vimos, também se prestou à velha máxima do "menos é mais" e alcançou a eternidade com uns tiques de psicanálise e sedução gótica. Não deve faltar muito (se a pandemia deixar) para o voltarmos a ver no grande ecrã, no drama O Pai, de Florian Zeller, na pele de um patriarca a lutar contra a demência. Com ele, todos os caminhos vão dar aos mistérios da mioleira.

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