Hamilton. Aqui não há filme, só souvenir

Thomas Kail foi à Broadway com um aparato de câmaras filmar com público Hamilton, o musical de Lin-Manuel Miranda que tinha encenado. Resultado: está nomeado para melhor filme e melhor ator (Miranda) nos Golden Globes. São 140 minutos de palco puro e duro, um registo sem cinema, apenas "souvenir" visual.

Mete dó que o mais revolucionário musical da Broadway veja a sua transposição para o cinema da forma mais preguiçosa possível. Hamilton, o filme, não é um filme, são filmagens de teatro. Muito do que se diz de positivo na imprensa anglo-saxónica cai no equívoco patológico de confundir os méritos (quais?) do filme com os da encenação do musical. Um equívoco que se espalhou pela Hollywood Foreign Press Association que o nomeou para melhor filme de comédia ou musical nos Golden Globes cuja cerimónia é já na madrugada deste domingo.

A explicação para esta espécie de delírio coletivo é simples: o exemplo desta biografia de Alexander Hamilton serve como espelho de uma génese da ambição e sonho americano e isso cega as pessoas, já para não falar que quem gosta do filme não deve ter visto o que Spike Lee fez recentemente com David Byrne"s American Utopia, no qual a câmara não se limitava a registar. No caso de Lee, havia uma comunhão da força coreográfica do musical (sim, David Byrne mais do que criar um concerto, criou um musical) e mil e uma ideias de cinema, já para não falar que superava a evidência da limitação de um teatro clássico da Broadway, coisa que a realização de Thomas Kail não é capaz, por muitos planos aéreos e todo trabalho de multicâmaras espalhadas em redor do palco à disposição.

O desconcertante nestas "filmagens" é não haver um ponto de vista de inclusão do espectador no seio do palco. Ora, por vezes, sente-se essa desestabilização das fronteiras da proximidade, noutras já se sente o público e as frestas dessa orla entre os atores. É como se fosse aleatório, por muito que haja uma destreza técnica no registo das representações do espetáculo, ao qual não será alheio o facto de terem sido precisos dois dias, dois espetáculos diferentes, para se fazer uma montagem final. Afinal, perde-se também uma possibilidade de se lidar com as capacidades inventivas de exploração de um conceito de cinema direto. Afinal, Hamilton foi feito com estratégia de contingência e, pasme-se, está feito deste 2016, tendo apenas chegado à Disney + em 2020 para não amachucar as possibilidades comerciais do musical ainda nos palcos de Nova Iorque e do West End de Londres.

Na verdade, o que Thomas Kail nos oferece é uma versão "televisiva" do musical, no qual se conta o arco trágico da vida de Hamilton, um dos pais fundadores dos EUA, alguém que chegou à América sem nada vindo das Caraíbas e que se tornou protegido de George Washington na campanha da Independência. Mais tarde, foi figura-chave na discussão do sistema bancário americano, tendo jogado a sua influência nos processos eleitorais do século XVIII, acabando por morrer num duelo com o seu amigo Aaron Burr, outro dos founding fathers da América. E tudo isto é recriado ao som da música hip-hop de Lin-Manuel Miranda, o protagonista e criador do musical, visto hoje como a estrela maior da Broadway.

Mesmo que dê a sensação de que a criação artística de Miranda é algo fulminante, Hamilton nunca nos dá cinema - a energia não passa. Imagina-se apenas que ao vivo isto deveria ser "topo de gama".

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