"Há coisas que José Cardoso Pires fez que são condenáveis mas não sou juiz"

A biografia de um escritor esquecido dificilmente seria um sucesso editorial, mas Integrado Marginal prova que o homem e a obra de José Cardoso Pires interessam aos portugueses. Lançada há poucos dias, está a caminho da segunda edição e faz um retrato daquele que era o grande nome antes de José Saramago se impor na literatura nacional.

Aquilino Ribeiro agradeceu o exemplar de Caminheiros que José Cardoso Pires lhe ofereceu no princípio da sua carreira literária com as seguintes palavras: "um bom escritor o que precisa é de orelhinha". Ou seja, a grande qualidade era aliar a escrita à música que deve acompanhar a frase. Foi essa uma das grandes procuras do autor que agora tem uma biografia de 600 páginas de autoria de Bruno Vieira Amaral, intitulada Integrado Marginal - Biografia de José Cardoso Pires, um volume onde está tudo o que não se conhecia, fruto de uma investigação de três anos que permitiu fixar o percurso de um dos grandes nomes da literatura nacional do século XX. A narrativa transmitida pelo biógrafo é formada a partir de uma extensa contextualização do escritor, de análise literária, de múltiplos depoimentos. Garante que tudo o que apurou está no livro: "Não condeno José Cardoso Pires na biografia porque não é esse o papel do biógrafo".

"Ressuscitar" o escritor José Cardoso Pires foi a razão desta biografia?

É uma das consequências de se fazer uma biografia trazer alguém um pouco de volta depois da sua morte, criar interesse em redor da sua obra e dar a conhecê-lo a novas gerações, que no caso específico de Cardoso Pires é mais um nome de rua ou escola. As razões foram várias: o meu interesse em fazer uma biografia, em mostrar alguém pela sua vida além dos livros, da atividade jornalística e do envolvimento político. Eram dimensões que me permitiriam fazer não só um retrato da pessoa e do escritor, mas também da época em que viveu.

Cardoso Pires confessou a João Gaspar Simões que lhe faltava a "largueza de fôlego para escrever algum dia um romance". Como é que se justifica uma biografia de 600 páginas?

Quando disse isso, o que punha em causa era o facto de gostar de escrever mas desconhecer se teria unhas para um género mais longo, porque é inicialmente um contista. Escreve essa carta após uma novela relativamente curta, O Anjo Ancorado, e não sabe se tem dentro dele essa vocação e capacidade para uma obra de um outro fôlego narrativo que depois vem a tentar. Continuo a achar que era essencialmente um escritor de fôlego curto, ou seja, de um estilo que funcionava muito bem em narrativas mais curtas. O que não significa que não tenha tido bons resultados em romances como O Delfim e A Balada da Praia dos Cães, no entanto creio que Alexandra Alpha já é uma tentativa mais falhada desse outro fôlego. Será a prova de que esse romance enquanto o grande fresco social não era a praia de Cardoso pires.

"Ansiedade" é a palavra que usa para definir o estado de espírito do escritor até encontrar o registo que pretende para a sua literatura. Era difícil fugir ao que se publicava em Portugal?

Ele tem uma luta dentro do neo-realismo que tento desmontar. Discutiu-se ao longo da sua obra se quando começou a publicar era um neo-realista puro e duro ou se já estava a fazer uma coisa diferente; o que eu creio é que sempre procurou um caminho muito singular dentro de um campo muito alargado que se pode classificar assim ou ainda mais vasto, o do realismo. Procurou novas vias numa primeira fase até ao O Hóspede de Job, mas a partir de O Delfim há um claro afastamento e uma evolução enquanto escritor. Não que quisesse fugir do que os outros faziam, mas conseguir o que só ele podia fazer. A biografia procura explicar como entendia o seu trabalho e como os contemporâneos olhavam para a obra e onde é que o colocavam no ecossistema da literatura portuguesa da época.

Há também no autor a influência dos escritores americanos nessa tentativa de fugir aos neo-realistas...

No primeiro livro, Caminheiros, isso é mais nítido, mas a partir do segundo, Histórias de Amor, já existe um afastamento em relação a essa influência. Mesmo que presente de vez em quando, vai-se diluindo e envereda por outros caminhos. O Delfim já não tem vestígios da influência norte-americana.

Só a páginas 80 se chega ao primeiro livro que ele publicou. A circunstância era fundamental para compreender a obra?

Acho que sim. Podemos ler os livros sem ter o conhecimento sobre o momento e a época, mas numa biografia é importante contextualizar ou não conterá a história da formação de uma personalidade, as suas origens familiares e sociais, a forma como se revoltou contra a sua própria educação, como se rebelou contra política e se envolveu a partir de certa altura com os meios oposicionistas, além das circunstâncias em que o escritor produziu a sua obra. É essencial que este contexto esteja lá, pois não concebo uma biografia que incida só na obra e não tente explicar o que a rodeia.

Pelo que se lê, José Saramago é a grande sombra na vida literária de Cardoso Pires?

Não é possível entender uma parte muito importante da literatura no último quartel do século XX sem passarmos por estas duas figuras. A verdade é que os primeiros contactos entre os dois remontam a uma época em que José Saramago não era quem veio a ser e achei interessante pegar nessa relação de algum respeito distante e cerimoniosa - não foram amigos íntimos -, em que há vários momentos em que os seus caminhos se cruzam. Um primeiro, o da crítica literária que Saramago faz a O Delfim e da qual se veio a penitenciar, um segundo aquando da atribuição do primeiro Prémio da APE, em que os dois livros favoritos era A Balada da Praia dos Cães e o Memorial do Convento, e veio pôr algum álcool na ferida da relação entre ambos. No entanto, sempre se respeitaram e em público foram sempre cordiais, mas alguma rivalidade é inescapável pois como se escreveu num jornal brasileiro "em Portugal toda a gente ou é pelo Cardoso Pires ou pelo Saramago". Podem ser narrativas mediáticas, mas a relação não sendo de animosidade teve momentos de uma certa tensão e ao mesmo tempo que momentos felizes como quando o segundo sugeriu o primeiro para o Prémio da União Latina. Salta aos olhos que o estatuto que Cardoso Pires tem na altura passará a ser ocupado a partir de meados da década de 1980 por Saramago e também, em menor medida, por António Lobo Antunes. É inegável, mas foi minha intenção estruturar a narrativa num caminho paralelo e dos pontos de contacto entre os dois escritores.

Vista à distância, a entrega do Prémio da APE a Cardoso Pires pelo A Balada da Praia dos Cães em detrimento de Memorial do Convento foi uma boa decisão?

Creio que o Memorial do Convento é um livro superior e acho que os membros do júri o negaram na altura porque optaram por dar um prémio de carreira devido a ser a primeira edição. Então, também o estatuto mediático e literário do Cardoso Pires era superior ao de Saramago, aliás A Balada da Praia dos Cães teve um destaque incomparavelmente superior na altura. Esse facto terá pesado na análise do júri porque, sendo um bom livro é apenas mais um livro de Cardoso Pires enquanto o Memorial do Convento abala os alicerces da literatura portuguesa. Hoje, temos a vantagem da distância para avaliar o que se passou naquele momento.

Há pouco referiu estas duas figuras, Pires e Saramago. Não encontrou também uma rivalidade para com António Lobo Antunes ou a amizade estava primeiro?

Essa rivalidade pode ter existido em alguma medida, e percebe-se através de uma frase do Gore Vidal: "Sempre que um amigo meu tem sucesso eu morro um bocado". Não vi em nenhum momento essa rivalidade, e eles até mencionaram que a princípio não eram grandes admiradores da obra um do outro, só depois vêm os elogios mútuos. Era normal que não apreciassem, basta olhar para o estilo de cada um, que não poderia ser mais diferente. Lobo Antunes dizia no início que era um escritor muito americano a nível da história e do enredo dos seus livros, mas não acho que alguma vez o tenha sido. O seu estilo torrencial e metafórico é muito diferente do estilo conciso e no osso de Cardoso Pires, o que não impediu que tivessem desenvolvido uma amizade forte e que se prolonga até à morte. Especulo na biografia que houvesse uma relação fraternal de um a ver o outro como um irmão mais novo, mas não tenho dados que permitam afirmar inequivocamente que era assim.

Óscar Lopes considerou-o, à época, "o maior prosador vivo da língua portuguesa". Concorda?

Esse tipo de rótulos vale o que vale, porque a literatura não é um campeonato de futebol com pontos. É sim um grande prosador e muitos dos seus livros provam-no, contudo a obra não é toda igual e nem todos os livros têm a mesma qualidade.

A biografia vai criar novos leitores para a obra ou os seus livros continuarão a ganhar pó?

Não sei, o que espero é que contribua para criar interesse na releitura ou na descoberta da obra à luz da informação que está na biografia.

Creio que o trabalho de Cardoso Pires que prefere é O Ritual dos Pequenos Vampiros e de Caminheiros?

A segunda versão deste último é fantástica e inultrapassável, sendo que a primeira já era muito boa, principalmente se tivermos em conta que foi escrita com vinte e poucos anos. Revela o muito bom que era o trabalho oficinal, de revisão e de reescrita e a sua evolução. Esses dois contos são do melhor dele e se alguma coisa posso lamentar a esta distância é que não tenha investido mais nessa sua vocação de contista e que essa faceta seja hoje menos conhecida. Ele era na essência um contista que, depois, tentou com sucesso variável géneros mais longos.

Critica o escritor por causa do prefácio que faz para o segundo livro e a palavra que escolhe é "medonho" para o caracterizar. A que se devia essa insegurança perante um regresso às livrarias?

Ele sentiu necessidade de fazer uma defesa preventiva do que tinha escrito, explicar o livro e o que era diferente nos contos em relação aos primeiros. Sem aquela carapaça teórica, sentia que os contos ficariam desprotegidos. Com o que não concordo, tanto que depois renegou em parte o prefácio. O livro nem precisava dessa defesa, e quando foi reeditado depois da sua morte esse texto foi eliminado.

Refere primeiro a sua necessidade em encontrar uma "sintaxe citadina" e 121 páginas à frente já é outra, a "sintaxe da classe social". Era uma busca por um registo próprio?

Cardoso Pires considerava que os autores, como Fernando Namora sobre Lisboa, escreviam com uma sintaxe rural e não uma linguagem que captasse o espírito urbano. Era preciso desruralizar essa forma de dizer e leva isso mais longe em livros como Alexandra Alpha e até com Lisboa, Livro de Bordo, mas já há nos primeiros contos a procura por esse registo não sentimentalão ou com tiques que ele dizia "das beiras". Essa linguagem menos solene é uma das suas procuras, evitando uma escrita barroca e excessivamente retórica que, ao mesmo tempo, descreva a sua classe social e não os camponeses do neo-realismo, por exemplo.

O Anjo Ancorado é a encarnação de um registo que o tornava único ou foi um acaso ao desejar fazer uma feroz crítica à burguesia intelectual que tanto chocou. Era uma forma de Cardoso Pires se distanciar?

Há um pouco das duas coisas e se se fizer uma comparação com o cinema pode-se dar o exemplo do realizador Roberto Rossellini, que depois do Roma, Cidade Aberta faz Viagem a Itália, que já está distante dos ditames do neo-realismo anterior. O Anjo Ancorado é o Viajem a Itália do Cardoso Pires, preocupado mais com a questão da relação íntima e ao mesmo tempo com um conteúdo político que não seja ostensivo.

Há um crítico, Álvaro Cabral, que considera este livro inspirado no Bom Dia, Tristeza de Françoise Sagan. Hoje, pode-se repudiar essa alegada inspiração?

Eu não encontrei nada que leve a pensar isso, eventualmente poderia ter servido de referência, mas ele nunca o mencionou. Não me parece que fosse o seu modelo, antes nas influências maiores de Elio Vittorini ou Roger Vailland.

"Lamento a esta distância que não tenha investido mais na sua vocação de contista e que essa faceta seja hoje menos conhecida. Era na essência um contista que, depois, tentou com sucesso variável géneros mais longos."

As traduções estrangeiras eram uma ambição nunca realizada por completo?

Havia alguma frustração e um certo desencanto por não ter obtido um grande reconhecimento lá fora, não duvido. Ele é traduzido uma primeira vez em Itália, depois em França, Alemanha, países do Leste ou Espanha, sempre com editoras prestigiadas. Apesar de O Delfim constar em algumas listas dos melhores livros do ano em França, nunca alcança o sucesso popular, nem sequer no Brasil. Tem também a ver por ter ficado catorze anos sem publicar e isso reflete-se. Com A Balada é traduzido pela primeira vez para inglês.

A nível político define-o como "muito cauteloso nas suas movimentações". Receava que lhe boicotassem a carreira?

As movimentações que ele receava eram as reuniões clandestinas políticas e tomava muitas cautelas para não ser apanhado pela PIDE, que estava bem informada sobre ele e tinha um extenso arquivo das suas atividades.

Era um escritor de esquerda. Hoje é difícil caracterizar assim qualquer autor português das novas gerações. O que se passa?

Não vivemos em ditadura e as posições políticas têm menos relevância, o que não significa que inexistam escritores que manifestem as suas opiniões políticas. Deixou foi de ser tão importante como naquela altura, onde até uma suposta neutralidade tinha um valor político.

Qual foi o momento em que se "desentendeu" com Cardoso Pires ao longo da biografia?

Na verdade, nunca me desentendi com o meu biografado porque nunca me armei em juiz. Há coisas que Cardoso Pires fez que são condenáveis mas eu não sou um juiz. Todas as situações que pude apurar estão no livro, quer em termos políticos ou pessoais. Repito, são condenáveis mas eu não sou um juiz, nem um juiz moral das suas ações, e enquanto biógrafo o que quis foi mostrar o comportamento, as ações que teve ou não teve, e acho que o essencial está no livro. Poderão escapar alguns pormenores, mas a biografia também é um trabalho em aberto. Ou seja, não me desentendi mesmo com muitas coisas que politicamente afastem dele.

O que considera "coisas condenáveis" em Cardoso Pires?

A atitude que teve com Mário Dionísio e que é relatada pela primeira vez nos seus Diários Inéditos, a que tive acesso, onde é contada a atitude que o Cardoso Pires tem de o ir confrontar a mando de outros intelectuais comunistas acerca das suas orientações, das posições e da intervenção na revista Vértice. Esse papel a que se prestou desempenhar é censurável. Não condeno Cardoso Pires na biografia porque não é esse o papel do biógrafo, aliás todo o episódio está relatado com extremo detalhe e com o enquadramento e as várias polémicas da época. O leitor tirará as suas conclusões, pois o sentimento de traição que o Mário Dionísio teve está presente na biografia.

Qual o livro que escolhe como preferido?

O Delfim, que é o mais conseguido e no qual opera uma mudança estilística, a que junta um tema muito português e consegue uma síntese tão original como feliz. Não era o meu anterior livro preferido, antes o Alexandra Alpha, mas agora até acho este um romance falhado e não a sua grande obra.

O género da biografia fica por aqui ou pensa regressar a ele?

Depende, porque este género de trabalho em Portugal quando é feito fora da academia, mesmo que apoiado por uma editora, é um grande investimento de tempo e dinheiro. Portanto, só pondero fazer uma nova incursão se se repetirem as condições para o fazer bem.

Esta biografia levou três anos a ser concretizada. Houve muitos percalços ou foi preciso tempo para digerir a documentação?

Não estive a trabalhar exclusivamente na biografia, mas é o tempo necessário para se fazer este tipo de trabalho. A meio pensei que poderia terminar antes, mas surgiram outros projetos que me interessaram e retardaram um pouco a conclusão. Além de que quando se faz isto sozinho, sem apoio de uma equipa para fazer investigação, entrevistas ou transcrições, é mais demorado.

O título revela uma dúvida do biógrafo sobre José Cardoso Pires, se é um "integrado" ou um "marginal", ou não passa de um nome?

Ele era as duas coisas. Sempre esteve integrado no meio intelectual, literário e político, da sua época e nunca se encontrou à margem nesse sentido. A biografia está cheia de exemplos de como esteve sempre no centro dos acontecimentos, desde a relação com os vários editores, com os jornais, as intervenções políticas; nisso foi um Integrado. Onde acho que foi um Marginal, está no facto de não ser de grupos e de prezar muito a independência estética e literária; queria ir à procura do seu próprio caminho e não embarcar em modas. Não é um marginal por estar fora do mundo. Eu gostava de ter outro título porque não me soa muito bem, mas era o que melhor casava o que ele foi e que o resumia de uma forma feliz.

Bruno Vieira Amaral

Editora Contraponto

600 páginas

Os Caminheiros e Outros Contos (Contos), 1949

Histórias de Amor (Contos), 1952

O Anjo Ancorado (Novela), 1958, com prefácio de Mário Dionísio

Cartilha do Marialva (Ensaio), 1960

O Render dos Heróis (Teatro), 1960

Jogos de Azar (Contos), 1963 ; 1993

O Hóspede de Job (Romance), 1963

O Delfim (Romance), 1968

Dinossauro Excelentíssimo (Sátira), 1972

E agora, José? (Ensaio), 1977

O Burro em Pé (Contos), 1979

João Janito, o burro em pé, 1979

Corpo-Delito na Sala de Espelhos, 1980

Balada da Praia dos Cães (Romance), 1982

Alexandra Alpha (Romance), 1987

A República dos Corvos (Contos), 1988

Cardoso Pires por Cardoso Pires (Crónicas), 1991

A Cavalo no Diabo (Crónicas), 1994

De Profundis, Valsa Lenta (Crónicas), 1997

Lisboa, Livro de Bordo (Crónicas), 1997

Lavagante, editado em 2008

Celeste & Làlinha - Por Cima de Toda a Folha (Ilustrações de Rita Cardoso Pires), 2015

A Rapariga dos Fósforos, realização de Luís Galvão Teles (1978)

Casino Oceano, realização de Lauro António (1983)

Ritual dos Pequenos Vampiros, realização de Eduardo Geada (1984)

Balada da Praia dos Cães, realização de José Fonseca e Costa (1987)[10]

O Delfim, realização de Fernando Lopes (2001)

O Render dos Heróis (1960)

Corpo Delito na Sala de Espelhos

Uma simples flor nos teus cabelos claros

Balada da Praia dos Cães

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