Guerra dos mundos para totós

Com coração mole e animais mutantes, Love and Monsters, de Michael Matthews, é a atração do momento na Netflix. Cenário de apocalipse ligeiro em que os efeitos visuais competem com a simpatia de Dylan O´Brien.

Que tal uma abordagem fofinha do fim do mundo? Terá sido mais ou menos esta pergunta que se formulou na cabeça de Brian Duffield, o argumentista que assina a história de Love and Monsters, uma nova aventura pós-apocalíptica (de momento, a liderar o top 10 da Netflix em Portugal) que troca a pura sensação de perigo pela aprendizagem prática de como lidar com ele. Tudo é muito superficial, muito cultura de videojogo disfarçada de narrativa coming-of-age, com monstros, ora ameaçadores ora simpáticos, a povoar a terra. Que é como quem diz: um imaginário adolescente vertido no ecrã, com uma narração do mesmo estilo assegurada pelo protagonista Dylan O'Brien, o rapaz que conhecemos da saga Maze Runner. Basicamente, a enésima versão de uma paisagem desolada, mas onde a extensa vegetação ainda garante a perspetiva de sobrevivência dos poucos humanos que conseguiram escapar a este apocalipse com ares de guerra dos mundos - embora as criaturas aqui, mais modestas, sejam consequência de erro humano e não extraterrestres.

O dito cataclismo foi provocado por uns mísseis lançados para destruir um asteroide gigante, que ao caírem de volta na terra espalharam compostos químicos e transformaram insetos e outros animais em mutantes assassinos. Sete anos mais tarde, os sobreviventes mantêm-se em bunkers, organizados por colónias, e um deles decide sair e lançar-se numa jornada a céu aberto até outra colónia. Joel (O´Brien), o herói atípico desta segunda longa-metragem de Michael Matthews, vai então ver a luz do dia em nome do... amor. Apenas isto: o rapaz mais medroso e anti-Tomb Raider que se possa imaginar vai fazer-se ao cenário selvagem, expor-se ao perigo, movido por um romantismo algo pateta que lhe dita o desejo de reencontro com a namorada que não vê desde o fatídico dia. Pelo caminho, arranja um cão, cruza-se com uma dupla de especialistas em monstros - uma menina calejada e pespineta e um veterano que dá bons conselhos - e, depois de alguma ação no terreno, é reconfortado por um robô com 50 minutos de bateria restante que lhe dá a ouvir Stand by Me, de Ben E. King, numa noite tranquila.

Esta espécie de Zombieland com sapos e lacraias gigantes tem o seu quê de charme teen e uma dose de imaginação suficiente para sustentar o conceito. O problema é que ao fim de meia hora já percebemos que aquela voz off do rapaz adorável que relata a experiência vai acabar por se tornar irritante, não permitindo que o filme saia da sua zona de conforto e dê momentos de pura adrenalina. A ameaça circundante não parece real, as peripécias estão longe de arrepiar e falta emoções à Spielberg, mesmo que os monstros sejam dignos do Óscar de melhores efeitos visuais para o qual está nomeado.

O dado curioso de Love and Monsters é que, na sua lógica de manual de sobrevivência para totós, funciona como uma mensagem feliz em pleno contexto de desconfinamento. A saber: a ideia elementar desta história é que não nos podemos "acomodar", ainda que seja o fim do mundo. A aventura de sair de casa tem os seus perigos, claro, mas nada como cumprir as regras de segurança e fazer a nossa vidinha.

dnot@dn.pt

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