Fernando Bento: "A fotografia é uma caça constante pelo retrato perfeito"

O fotógrafo Fernando Bento tem uma exposição no Centro de Artes e espetáculos da Figueira da Foz com 25 retratos de grandes escritores portugueses.

25 imagens de escritores estão nas paredes do Centro de Artes e espetáculos da Figueira da Foz, fotografias inéditas do fotógrafo Fernando Bento, capturadas nas últimas três décadas. A exposição conta com textos dos autores retratados e com assinatura dos próprios.

A exposição tem por título Escritores - Memórias e Olhares e nasceu da persistência do fotógrafo em captar imagens muito pessoais de escritores como Agustina Bessa-Luís a Urbano Tavares Rodrigues, passando por José Saramago, Lídia Jorge e Manuel Alegre, entre outros.

As fotografias resultam de um percurso de Fernando Bento a fotografar os autores agora escolhidos desde que um dia o decidiu começar a fazer com a escritora Matilde Rosa Araújo, A partir desse momento em que foi apresentado à autora, Fernando Bento não mais parou de fotografar outros nomes da nossa literatura e de os querer conhecer melhor como pessoas e a obra literária.

Pela sala da exposição já passaram alguns dos fotografados, como Mário Cláudio e Teolinda Gersão, e no próximo domingo serão lidos trechos das obras dos autores expostos num evento em que o curador da exposição, Luís Machado, será acompanhado ao piano por Rui de Matos.

Esta exposição é, segundo Fernando Bento, o resultado de 35 anos dedicados à fotografia: "É a minha profissão." E nessa vida foi encontrado poetas como Mário Cesariny ou Eugénio de Andrade, ambos difíceis de fotografar como conseguiu: da forma o mais natural possível. Recorda que o encontro com o primeiro aconteceu nas tertúlias do restaurante Martinho da Arcada, onde fez muitos destes retratos, e que o poeta chegou inesperadamente com João Soares: "Ninguém contava com Cesariny num encontro em homenagem a Graça Morais. A dado momento entra João Soares com ele. João Soares vai cumprimentar algumas pessoas e o Cesariny fica só e perto da porta. Eu não o conhecia mas tiro-lhe uma fotografia. Ele diz logo para eu parar. Foi uma única fotografia, mas tem a expressão certa, a olhar para o fundo. A foto saiu porque tinha de sair." Quanto a Eugénio de Andrade, o processo também não foi fácil: "Ele era completamente avesso a deixar-se fotografar."

Nenhuma das 25 imagens que estão expostas na Figueira da Foz é a cores, mostrando que a maioria ainda são do tempo do negativo a preto e branco e das máquinas de focagem não automática. Pormenores profissionais que passam ao lado da maioria dos retratados mas que Augusto Abelaira questionou, querendo saber que tipo de máquina usava na vez em que o estava a fotografar. Mas a maioria dos escritores era rebelde quando Fernando Bento lhes apontava a lente: "Havia os que se sentiam incomodados mas deixavam fotografar-se, os que até às participavam e outros que desviavam a cabeça e olhava para o lado."

A quantidade de fotografias que foi reunindo ao longo dos anos dificultou-lhe a escolha na exposição: "O Luís Machado e o António Valdemar viram as imagens e gostaram. Eram fotos e também documentos, disseram. A Câmara da Figueira da Foz teve interesse em fazer a exposição e avançou-se."

A lista é grande e teve de ser reduzida a 25 imagens, Fernando Bento lamenta já não ter apanhado escritores como Miguel Torga, Vitorino Nemésio ou Natália Correia: "Mas tenho fotografias de outros muito novos, como David Mourão-Ferreira de 1992, ou de José Cardoso Pires e de António Lobo Antunes em 1994."

Há outras imagens que são também documentos, como os das Três Marias, em que Maria Velho da Costa demonstrou ser a mais difícil de fotografar e Isabel Barreno tem uma das suas melhores imagens.

Nas palavras de Fernando Bento, esta exposição mostra como "a fotografia é uma caça constante pelo retrato perfeito". Acrescenta: "O fotógrafo não tem muito tempo nestas situações e muitas vezes falta intimidade de uma conversa inicial. No fim do evento, é sempre mais fácil."

Escritores - Memórias e Olhares

Fernando Bento

Até domingo no Centro de Artes e Espetáculos

Figueira da Foz

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