Fartar vilanagem!

Matthieu Amalric, Javier Bardem, Christoph Waltz e Madds Mikkelsen foram os vilões da era Craig. Provavelmente, vilões que podem rivalizar com Christopher Walken ou Sophie Marceau...

Desde 007-Casino Royale, em 2006, na nova ordem James Bond com Daniel Craig que o espaço do vilão sobressaiu. Como se a partir daqui o mau-da-fita fosse um aspeto essencial para dar aos filmes uma sofisticação diferente. Dito de outro modo, para um Bond dos nossos dias era preciso um outro tipo de vilão, um desenho de personagem capaz de não se desfazer perante a inevitabilidade do final feliz.
Ao longo destes anos, tudo mudou e nesta nova vida do agente secreto tivemos direito a conviver com os pulhas mais fascinantes do franchise. Ainda que todos eles homens e com a invariável mania das grandezas, sentia-se neles uma especificidade própria. Torna-se justo mencionar que estes adversários de Bond não se copiavam uns aos outros, foram sempre personagens com a sua verdade. Uma variedade que espantou e que foi essencial para que o acting de Daniel Craig subisse a um patamar de excelência.

De todos estes vilões torna-se complicado eleger o principal ou o mais marcante, mas talvez seja automático pensar em Silva, a invenção de Javier Bardem em Skyfall, de Sam Mendes. Invenção na medida que o ator espanhol muda o jogo na forma como torna francamente repugnante este magnata que se alimenta do ódio (e da atração) por 007. É uma interpretação cheia de camadas, ora muito corporal, ora muito interior. Bardem habita a personagem de uma forma recreativa. Cria um olhar próprio, enrola as palavras e sorri de forma mórbida. É também o primeiro vilão com tendências gay, coisa que esteve para ser censurada pelos estúdios. Também aí essa provocação jogou a favor do vilão.
Mas o que dizer da fascinante morbidez de Blofeld, criação de Chrisptoph Waltz em Spectre? Um vilão com um lado sombrio que tanto pode ser elegante como vicioso. Nada a ver com aquilo que Donald Pleasence fazia com o mesmo nome nos anos 1960 em 007-Só se Vive Duas Vezes, de Lewis Gilbert. Em vez do folclore do vilão evidente, o austríaco vai antes por uma contenção que é toda ela sedução. Um charme que atrai e que de forma invisível torna a personagem fascinante.

O luxo também já vinha de 007-Casino Royale, onde tínhamos um Madds Mikkelsen antes de ser o Hannibal Lecter da ficção televisiva a encarnar Le Chiffre, oposição feroz a Bond. Uma performance de um realismo que casava bem com o tom do filme. O duelo à mesa de jogo com Bond é um momento de cinema arriscado - a sua duração poderia ser excessiva mas a "química" com Craig é perfeita. Um enorme vilão que abriu alas para uma carreira internacional deste ator dinamarquês.

Paradigma de uma mudança de tiques de vilanagem é a personagem Dominic Green, interpretação de arrepiante requinte de Matthieu Amalric em Quantum of Solace, de Marc Forster, um dos filmes mais adultos da série. Um vilão sem gatinhos ou tiques, presente para um ator que soube jogar com a sua fragilidade. Amalric cria um vilão inesquecível, alguém capaz de ameaçar o poderio Bond com um realismo desconcertante...

Da Áustria, França, Dinamarca e Espanha chegaram os vilões de Bond. A América não é ameaça...


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