"Estamos a criar o mecanismo para os artistas serem pagos e terem trabalho e futuro"

A diretora do Arte Institute lança a plataforma RHI Stage para permitir aos artistas apresentar os seus trabalhos online e serem pagos. Com concertos cancelados, o mundo das artes maioritariamente parado e os artistas a debaterem-se com os problemas que decorrem da pandemia de coronavírus, Ana Ventura Miranda volta a pôr o engenho a trabalhar em prol da cultura.

Nos últimos nove anos, Ana Miranda tornou-se, graças ao seu Arte Institute, um nome incontornável na divulgação da cultura portuguesa nos Estados Unidos e no mundo. Nascida em Torres Vedras em 1977, cedo trocou a sua cidade por Lisboa em busca do sonho de ser bailarina. Acabou por ser atriz. Fez teatro e novelas, como Ana e os Sete na TVI. Pressionada pelos amigos, sufocada por um meio onde não se cansavam de lhe dizer que ter mais dez centímetros faria toda a diferença, Ana mudou-se para Nova Iorque em 2006. Formada em Línguas e Comunicação, foi a castings, trabalhou na ONU, para a RTP, na galeria de arte Sonnabend, mas um dia decidiu dar a conhecer a cultura contemporânea portuguesa à América. Nascia o Arte Institute. Agora, e depois do RHI festival, "uma iniciativa. Porque continua", Ana lança o RHI Stage. Uma forma de ajudar os artistas, duramente atingidos pela pandemia de covid-19.

Como surgiu esta ideia do RHI Stage?
A ideia surgiu por causa dos lives que muitos artistas estavam a fazer, sem terem forma de serem remunerados. O ano passado quando lançámos o RHI, lançámos também uma aplicação em parceria com a tecnológica portuguesa Polarising com o objetivo de lançar o tema da importância e do valor do trabalho dos artistas. Nesse sentido, a app gratuita RHI Think incentivava o público a pagar o que quisesse pelo espetáculo gratuito que tinha acabado de ver. Nós tínhamos já pago o fee dos artistas mas esta era uma forma de criar uma relação de valor no público. A maior dificuldade que tivemos foi o nome para dar ao botão do pagamento, uma vez que de todo podia ser donativo. O trabalho dos artistas é um trabalho e não um donativo. O botão ficou com o nome de "Value $". Foi o Nuno Vilar da Polarising que me contactou a dizer "lembras-te que já tinhas pensado num mecanismo para o público pagar aos artistas o ano passado, quando criamos a app?". E daí pensei, vamos pôr os vídeos na plataforma do RHI-Think.com que já estava também preparada para isso e assim, todos os artistas profissionais de todas as áreas podem participar. O live, para além de ser limitado em termos de levar a audiência a ir à app pagar, fora do tempo do live, também seria mais difícil a participação de artistas da dança, cinema ou artes plásticas. Assim, todos podem participar enviando um vídeo feito agora na quarentena ou de um trabalho anterior. O vídeo fica alojado na plataforma RHI-Think. com por 3 meses, os artistas podem sempre ir lembrando que podem lá ir ver o vídeo e app está sempre disponível para receber o pagamento do publico. Todos os dias, a partir de 15 abril, será lançado às 21.30 horas na plataforma do RHI-think.com, do site do Arte Institute e suas redes sociais, o vídeo de um dos artistas. A ordem das apresentações será a da inscrição. O valor recebido é na totalidade para os artistas, pagando o Arte Institute e o RHI, os custos da plataforma e a Polarising oferecendo a app gratuita RHI Think. Estamos no criar o mecanismo para os artistas serem pagos e a dar-lhes uma ferramenta de trabalho e de futuro. Cabe aos mesmos decidirem aproveitar ou não, e o retorno do valor pago pelo publico também muito dependerá dos mesmos e da promoção que farão ao longo dos três meses.


Os artistas são classe muito afetada pela pandemia de coronavírus. Com concertos cancelados, espetáculos adiados, as finanças ressentem-se. O público está disposto a pagar pela cultura? Mesmo online?
Essa é uma resposta que daqui a três meses já saberemos com alguma certeza - uma vez que também vai depender muito do envolvimento dos próprios artistas em puxarem pelo seu trabalho nas redes sociais e chamar a atenção para poderem pagar na app RHI Think. De qualquer forma, o que me parece mais pertinente é que assim estamos a criar a possibilidade de o poderem fazer, que ate agora não estava disponível. Ou, nos casos em que estava, chamava-se donativo. E pagar o trabalho dos artistas não é um donativo. E a própria classe artística tem que mudar a sua atitude, também na terminologia das palavras. Assim, se o publico quiser pagar o trabalho do artista, já tem como o fazer através da app RHI Think. Pode ver na plataforma RHI Think.com ou no Arte Institute, ou nas redes sociais de ambos e paga na app gratuita RHI Think.


Tem recebido muitas queixas, pedidos de ajuda, etc, de artistas?
Por acaso muitas pessoas me têm dito que estão a adiar espetáculos, que estão a ser remarcados para outra altura. E devemos elogiar e dar os parabéns às autarquias e teatros que o estão a fazer. Acredito que temos neste caos muito infeliz, um momento único e extraordinário para ficar claro o papel das artes no mundo. O que seria desta quarentena sem um livro, os concertos, a música, os filmes (o Nextflix é cultura paga online), etc? É muito importante que a classe artística tenha presente relembrar e passar essa mensagem.

Os governos estão a fazer tudo o que podem para ajudar a cultura nessa altura ou sente que, mais uma vez, esta não é vista como prioritária?
Acho que estamos todos no mesmo barco e que todos os governos vão ter de ter uma visão inovadora, global e integrada dos países. Tenho pena de no ano passado quando no RHI falámos de estarmos mais agarrados ao turismo, não ter sido ainda claro para muita gente como o fazer. Agora seria fundamental e levantar-nos-íamos com o turismo, que será das áreas onde mais esforço se vai fazer. Fico contente por ver que agora já se fala mais do que estamos a falar há nove anos, Arte e Business e maior proximidade às empresas (embora seja uma altura complicada para as empresas também), Mas falar já é bom. Acho que espetáculos de menor audiência, com 50 - 100 pessoas, vão ser o caminho até termos uma vacina para este vírus. Acredito que as pessoas vão querer ir ver espetáculos, com mais ganas e vontade, porque é sempre assim quando se perde alguma coisa que acarinhamos. Há caminho à nossa frente e insisto muito, como tenho feito nos últimos anos, que é mais uma oportunidade para a classe artística se posicionar de uma forma diferente e se reerguer coesa, mais forte e com uma estratégia. Como sempre dizemos no Arte Institute - que comemora 9 anos este sábado: "O país é do tamanho dos que têm coragem para o imaginar", tenhamos essa coragem e INICIATIVA agora.

Mais Notícias