Esta Rainha de Inglaterra descende de uma moura portuguesa?

Mais do que uma simples história de amor, Bridgerton, a primeira série de Shonda Rhimes para a netflix, revisita a alta sociedade inglesa do início do século XIX - com diversidade racial, jovens ingénuas, homossexuais reprimidos e muito sexo.

Cabelo armadíssimo a servir de suporte à coroa, pose de enfado, recostada na cadeira, rodeada por damas de companhia. É esta a primeira imagem que temos da rainha Carlota em Bridgerton. Mas porque é que estamos a falar da mulher de Jorge III se ela não é a personagem principal da série criada por Chris Van Dusen e produzida pela maga da televisão Shonda Rhimes, e nem sequer aparece nos romances que a inspiraram? Porque a monarca que na série tenta esquecer a loucura do marido louco com os mexericos da corte pode ter sangue português. O que explicaria a escolha de uma atriz negra para a interpretar.

A teoria não é nova. Quando em 2018 Meghan Markle se casou com o príncipe Harry de Inglaterra, muitos apontaram a atriz americana como o primeiro membro mestiço da realeza britânica. Mas esse título pode pertencer a Carlota. A teoria não é nova e tem dividido os historiadores. Na verdade, foi popularizada pelo historiador Mario de Valdes y Cocom, segundo o qual a rainha Carlota descende de D. Afonso III de Portugal e da sua concubina Madragana. Ao The Washington Post, Valdes explicou que, quando Afonso III conquistou Faro aos mouros, "exigiu a filha do governador como amante. E teve três filhos com ela".

Ora se nada garante que Madragana fosse negra - as mouras portuguesas são muitas vezes descritas nas lendas como tendo pele dourada, cabelos negros e olhos escuros - será de um desses filhos que descende Margarita de Castro e Sousa, antepassada direta de Carlota de Mecklemburgo-Strelitz. A veracidade desta linhagem é tudo menos incontestada. Mas Valdes usa-a para alimentar a sua teoria e aponta para alguns retratos da monarca para garantir ainda serem visíveis alguns traços africanos.

Certas são as críticas à sua aparência naquela Londres do início da segunda metade do século XVIII, início do século XIX - o casamento de Carlota e Jorge III durou quase 40 anos. O poeta e dramaturgo Walter Scott descreveu-a e aos seus irmãos como figuras "de cores adoentadas, aparência de orangotango, olhos negros e narizes achatados". Comentários racistas, diríamos hoje.

Os críticos da teoria de Valdes garantem que estas características dificilmente poderiam ser tão acentuadas passado tanto tempo. Mais, o British Museum tem vários retratos de Carlota em que a monarca surge com traços indubitavelmente caucasianos. Fica a dúvida, talvez para sempre.

Para Golda Rosheuvel, a atriz por detrás da rainha Carlota, "ter alguém de cor no topo da cadeia alimentar dá-nos poder enquanto artistas e enquanto comunidade negra". Em entrevista à revista Essence, a britânica de 49 anos desvalorizou a polémica, saudando até o debate em torno da sua presença na série como algo importante para "a inclusão e a diversidade".

A ideia de uma rainha negra na Inglaterra do século XIX deixou muitos espectadores surpreendidos. Mas se alguém ia arriscar tão arrojada jogada era Shonda Rhimes. Na sua estreia na Netflix, a afro-americana, criadora de séries de sucesso como Anatomia de Grey ou Scandal, não se limitou à rainha, optando por encher de diversidade a alta sociedade inglesa do período da regência. A começar pelo protagonista desta primeira temporada: o duque de Hastings, interpretado pelo britânico-zimbabueano Regé-Jean Page.

A fórmula não é nova. Lyn-Manuel Miranda já escolhera um elenco racialmente diversificado para o musical Hamilton e Noma Dumezweni, uma atriz negra, foi a escolhida para interpretar Hermione Granger no filme Harry Potter e a Criança Amaldiçoada. Em Bridgerton, o que surpreende é a naturalidade com que essas personagens surgem na corte, quando na literatura da época eram geralmente apagadas ou surgiam nas camadas pobres da sociedade. Aqui aparecem sem explicações - há uma única referência à raça no episódio 4. E não precisamos delas.

Muito sexo e uma história de amor

Mas quem está à espera de encontrar em Bridgerton uma Jane Austen do século XXI desengane-se. O primeiro sinal de que estamos perante uma série de época um pouco diferente surge logo nos primeiros minutos do primeiro episódio. Enquanto Daphne Bridgerton (Phoebe Dynevor) se prepara para a sua apresentação na corte, com a excitação familiar que o momento envolve, vemos Anthony (Jonathan Bailey), o seu irmão mais velho e visconde Bridgerton, de calças em baixo, num encontro amoroso furtivo com uma soprano capaz de fazer corar a autora de Orgulho e Preconceito.

As cenas de sexo vão pontuando a série, enquanto o olhar se delicia com um guarda-roupa extravagante que obrigou a cinco meses de preparação. Pressionada para arranjar marido à altura, Daphne faz um pacto com Simon, o misterioso duque de Hastings, para fingirem uma ligação - ela atrai as atenções dos pretendentes certos (e afasta os errados), ele livra-se das mães mais apressadas em caçar um bom partido para as filhas.

O que não estava nos planos era apaixonarem-se. Até porque Simon jurou nunca se casar e ter filhos violaria a promessa que fez ao pai: a linhagem acabaria com ele porque nunca faria a uma criança o que este lhe fez a ele. Como é que a história termina, isso, deixo-vos descobrir sozinhos quando devorarem os oito episódios num frenesim de binge watch em que é quase impossível resistir ao botão "Próximo episódio"..

O que posso dizer é que Bridgerton é muito mais do que uma bela história da amor. Da ignorância sobre as relações conjugais em que as mães mandavam as filhas para o casamento à hipocrisia perante a homossexualidade, passando pela incapacidade de um chefe de família assumir o amor por uma mulher de condição social inferior, até ao drama de engravidar fora do casamento, não faltam assuntos mais profundos na série. Tudo relatado nos panfletos de Lady Whistledown - uma espécie de coluna cor-de-rosa na qual não escapa à língua afiada da autora nenhum escândalo ou mexerico da alta sociedade. Trazidos até nós pela voz da mítica Julie Andrews.

Quanto à identidade de Lady Whistledown, descobri-la tornou-se uma missão tanto da rainha como de Eloise (Claudia Jessie), a irmã mais nova de Daphne e a rebelde da família - decidida a ser uma mulher independente quando todos à sua volta só pensam em arranjar-lhe um bom marido.

Os livros

A série inspira-se nos livros de Julia Quinn. Ao todo são oito volumes que contam os amores e desamores dos oito filhos da família Bridgerton. A começar por O Duque e Eu, no qual a autora nos prende na história de Daphne e Simon.

Nascida Julie Cotler e criada em Nova Iorque, a autora cedo começou a ler edulcorados romances adolescentes. Uma escolha que o pai não apreciou, ameaçando proibi-la de ler tal coisa a não ser que ela provasse que estes livros eram bons para ela. Um desafio que Julie aceitou, garantindo estar a estudar o estilo para escrever um ela própria.

Foi o que fez. Mas quando três anos depois terminou o seu primeiro romance, enfrentou também a primeira rejeição da editora. Formada em História de Arte em Harvard, a americana não estava muito convencida com o caminho que escolhera e decidiu tentar Medicina. Foi durante os dois anos extra de preparação científica para entrar na faculdade que se estreou no romance histórico. E quando chegou a hora de entrar em Yale descobriu que as suas duas primeiras obras tinham sido aceites pela editora. Os estudos tiveram de esperar mais dois anos e outros dois romances. Até que Julie decidiu mesmo entrar em Yale, apenas para rapidamente perceber que a escrita, e não a medicina, eram a sua vida.

Autoproclamada feminista, a autora gosta de dar às suas personagens femininas características pouco comuns na época que retrata.

Uma das grandes dúvidas, agora que Bridgerton chegou ao final da primeira temporada, é saber se a - mais do que provável apesar de ainda não oficialmente confirmada - segunda temporada irá seguir o enredo do segundo romance de Quinn. Se for o caso, Daphne e Simon podem passar para um plano secundário para dar lugar à busca pelo amor de Anthony, o mais velho dos Bridgerton e protagonista de O Visconde Que Me Amava.

Mas Shonda Rhimes e a sua equipa já provaram que não temem alguma liberdade criativa - seja ao introduzir a personagem da rainha Carlota, ao antecipar a revelação da identidade de Lady Whistledown (nos livros, é preciso esperar pelo quarto volume) ou ao dar destaque a Marina Thompson, a infeliz prima dos Featherington que nos livros não chegamos a conhecer com vida...e é uma prima afastada dos Bridgerton.

Com maior ou menor fidelidade em relação aos seus livros, Quinn, que trabalhou como consultora da série, parece feliz com o resultado. "Sou consultora, o que significa que fiz algumas sugestões, mas com argumentos tão bons o meu trabalho foi fácil", confessou ao The Guardian. E se admite que alguns fãs incondicionais podem estar frustrados por a série não ser "uma adaptação palavra a palavra", ela sente que "as personagens e o enredo permaneceram absolutamente fiéis aos livros".

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