Exclusivo Duna: o colosso não respira

Era uma das estreias mais aguardadas do ano e aí está, no grande ecrã. Dune, de Denis Villeneuve, tem o visual certo da ficção científica, mas aqui a aventura é apenas uma miragem. Um filme imponente, em modo de peso morto.

Há uma anedota com Sherlock Holmes e o Dr. Watson a fazerem campismo. A meio da noite, Holmes desafia o seu fiel assistente a olhar para o céu e a dizer-lhe o que vê. "Vejo milhões e milhões de estrelas." O detetive pede-lhe para ser mais específico, e ele continua: "Astronomicamente, isso diz-me que há milhões de galáxias e milhares de milhões de planetas. Astrologicamente, observo que Saturno está em Leão. Horologicamente, deduzo que sejam 03h15. Teologicamente, posso ver que Deus é todo-poderoso e que somos pequenos e insignificantes. Meteorologicamente, suspeito de que teremos um belo dia amanhã." Depois de ouvir a escrupulosa observação, Sherlock Holmes faz um minuto de silêncio e diz: "Watson, seu idiota... Roubaram-nos a tenda!"

Esta chalaça sherlockiana ilustra bem o sentimento em relação ao novo Duna. À semelhança da elaboração de Dr. Watson, o filme do canadiano Denis Villeneuve impõe-se aos olhos do espectador como um objeto de grandeza irrefutável, uma vastidão carregada de significados ocultos - e, já agora, com uma banda sonora (de Hans Zimmer) que embrulha toda a experiência sensorial numa nota de gravidade. Mas o ponto é este: Villeneuve não tem um Holmes para chamar o filme ao plano do concreto, àquela linha básica de perceção do que se "está a passar", e por isso fica-se por uma embalagem aparatosa sem a substância e o pulso narrativos que são apanágio das ditas aventuras de ficção científica, sejam elas mais ou menos romanescas.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG