Diogo Vasconcelos, o homem que tocou o futuro

O Diário de Notícias convida as autoras do livro que assinala a vida e os dez anos da perda de Diogo Vasconcelos para a pré-publicação de uma parte da obra que recorda o "inquieto" que deixou marca na inovação social, na tecnologia e no empreendedorismo.

Nesse tempo a Cisco Internacional organizava anualmente um evento em Estocolmo que coincidia com a cerimónia de entrega dos prémios Nobel. Para esse encontro convidava grandes vultos da economia, da política e da investigação. Era um autêntico happening ao nível da exposição de ideias e projetos de ponta. Conhecendo o potencial da UMIC, Carlos Brazão achou interessante propor a Diogo que a apresentasse naquele palco, desafio que foi logo aceite. Viajaram juntos para Estocolmo. Desse voo guarda a imagem do seu companheiro, munido de dois telemóveis, a mandar sms num e noutro, a um ritmo frenético, até o avião tirar as rodas da pista. Uma imagem risível, uma das muitas que denunciavam a sua permanente inquietude.

No palco do evento da Cisco, o que se passou no momento em que Diogo apresenta a UMIC ao mundo foi, segundo Carlos Brazão, espantoso: "Ele entra, com um ar muito humilde, começa a falar, pausadamente, sobre o que está a fazer e deixa toda a gente siderada. Estava muito calmo, não fez uma daquelas apresentações à americana a passear pelo palco." Optando pela simplicidade na apresentação, Diogo soube dar protagonismo ao que interessava e o que interessava era que Portugal, país de poucos recursos, estava a liderar uma pequena revolução.

Em média, cada um destes eventos, que se realizaram durante muitos anos, contavam com dez a 15 intervenientes de topo, gente com a craveira de Christine Lagarde e Al Gore. Mesmo assim a discreta intervenção de Diogo foi considerada uma das três melhores de sempre. Foi nessa ocasião que Simon Willis, que viria a ser seu chefe na Cisco Internacional, o conheceu e sinalizou. Ele e outros quadros da tecnológica que estiveram entre a audiência perceberam o impacto que aquele português desconhecido tivera na sala e não esconderam a surpresa e o interesse em saber mais acerca dele.

Ao testemunhar a atmosfera que se formou em torno do seu convidado, Carlos Brazão consolidou uma ideia: a de levar Diogo Vasconcelos para a Cisco. Diz que o "namorou" durante dois anos, mas em rigor o que esteve em causa foi a dificuldade em encontrar um cargo que se adequasse ao seu perfil. Em 2007, fruto de negociação com as hierarquias da multinacional, finalmente foi possível cortar um fato à medida, um cargo a que chamaram distinguished fellow, e que lhe garantia total liberdade para fazer o que melhor sabia: criar.

Vanda de Jesus, que o conhecia bem, percebeu a dificuldade que a Cisco Internacional teve de contornar para poder incluí-lo no seu staff: "Nas multinacionais é muito difícil ter funções de relevo sem uma componente de vendas, mas o Diogo não era pessoa que se mobilizasse por temas financeiros. Ele não quereria ser remunerado por vendas." João Vasconcelos confirma esta tese: "O meu irmão nunca tinha pensado trabalhar numa empresa privada, onde em geral se é pressionado para obter resultados, mas este lugar encaixava nele. Sendo grande e com capacidade para pensar tão à frente, a Cisco fazia match com o seu mindset."

Logo que Diogo anuncia na presidência a sua saída, Carlos Brazão recebe um telefonema. Era Zinha Pinto Bull. A secretária da Casa Civil da Presidência da República queria organizar um jantar de despedida que servisse também de homenagem ao homem que tanta admiração granjeara, nos mais diversos setores da sociedade portuguesa. Carlos foi confrontado com uma proposta insólita, mas que não foi capaz de recusar: "Pediu-me: "Como o Diogo vai para a Cisco, será que a Cisco não patrocina o jantar?"." Da lista de convidados constavam cerca de cem pessoas, entre banqueiros, artistas, jornalistas, políticos, gente da área tecnológica, ex-colegas e amigos. Na véspera do evento Carlos recebe outro telefonema, desta feita do CFO da Cisco Europa, que lhe pergunta: "Explica-me lá: estás a querer patrocinar um jantar de despedida de um empregado que vai entrar para a Cisco? [risos]." A sua capacidade de argumentação levou a melhor e o jantar fez-se. Deixou Diogo comovido, Carlos aliviado, Zinha feliz e a comunidade que se juntou naquele serão esclarecida quanto à dimensão da esfera de influência do novo homem da Cisco em Londres.

A decisão de fazer as malas e rumar a Inglaterra foi interpretada de modo diverso pelos amigos mais chegados. Ângelo Ramalho sentiu que fazia sentido pois, apesar de ter evoluído num meio de acesso facilitado à cintura do poder, aquele seu velho companheiro sempre revelara "uma visão para fora". Não admirava, pois, que a determinado momento fosse assimilado por uma organização transnacional na área da sociedade de informação. Uma oportunidade que lhe permitia "exponenciar alguns dos seus melhores atributos de base, como o pensar estratégico". Com uma perspetiva mais pragmática, Carlos Magno considerou que esta fora a opção certa no momento certo: "Havia uma série de pessoas que andavam à volta dele e de quem estava farto. Eram carreiristas, gente que se mantinha próxima só por interesse. A UMIC também o tinha posto em contacto com uma série de burocratas para os quais não tinha paciência." Rui Marques associou esta mudança a algo mais profundo: "Diogo ficou muito desapontado com a política portuguesa. Creio que parte da decisão de ir viver para fora teve a ver com isso." Próximo desta perspetiva, Jaime Quesado sugere que, "por mais mobilizador que tentasse ser, o espaço de afirmação do Diogo em Portugal era muito limitado. Ele dava o seu contributo, ia até onde fosse possível. Nunca se sentiu sozinho, mas podia sentir-se incapaz de promover uma mudança profunda das coisas". Esta análise encaixa no comentário de Carlos Liz, que por tê-lo acompanhado em vários projetos profissionais, e observado em diferentes papéis, conhecia bem o seu perfil profissional e desígnio: "O sistema defende-se. E o Diogo era um inquieto, um iniciador de coisas. Sentia que por vezes não era levado a sério pelos decisores, não tanto como gostaria, por estar em diversas coisas ao mesmo tempo. Havia, de facto, uma velocidade incompatível entre ele e o sistema, o receio de que ele pudesse perturbar a ordem estabelecida. Isso desiludiu-o. Fê-lo desiludir-se com o país."

Não por acaso, anos depois, na entrevista que dá a Catarina Carvalho para o Diário de Notícias, Diogo deixa escapar o desabafo: "Portugal tem um défice enorme de capital social, fraca mobilidade social e uma enorme incapacidade de gerar consensos sobre o futuro. Não tem uma elite comprometida com o seu país, com coragem de intervir na política. Os partidos deviam assumir-se como plataformas abertas de construção do futuro e não como grupos fechados."

Com um leve sorriso, Carlos Liz, a quem Diogo por brincadeira chamava "Carlos links", traça como num gráfico a trajetória do amigo para concluir que, para todos os efeitos, antes de sair do país, ele esteve perto de fazer o pleno: "Trabalhou em dois dos grandes centros do poder - a Assembleia da República e a Presidência. Só lhe faltou ser secretário de Estado para também ter estado no governo. Foi habitante durante algum tempo dos dois palácios principais da vida portuguesa. Depois mudou de plateau e foi para o mundo."

No centro de tudo

Entrou na Cisco, em Londres, com a frescura própria das pessoas que confiam na vida. Foi investido de funções tão difusas quanto inauditas. O fato que lhe fizeram à medida tinha corte arrojado. Uma das atribuições do seu departamento na Cisco era captar tendências ou, por outras palavras, antecipar o futuro, o que colocava Diogo no seu elemento. E o entusiasmo era tal que, conta Carlos Brazão, não o deixava trabalhar: "Estava constantemente a dar-me ideias, até que um dia lhe disse: "Já não consigo aproveitar mais a tua ajuda! Não tenho tempo para mais!"." A sua capacidade de imaginar e projetar acontecimentos ultrapassava a própria máquina da Cisco: "Não era a empresa que o questionava. Ele é que perguntava à Cisco o que andava a fazer! [risos]."

Uma semana depois de ter chegado, já estava em Beirute para ajudar a construir um plano nacional de banda larga com o objetivo de posicionar aquela cidade como capital criativa no Médio Oriente. Depois de Beirute seguiram-se muitas outras paragens. O seu departamento procurava ter uma visão de helicóptero, com radares espalhados pelo mundo, para se posicionar uns anos à frente da própria companhia. Com este desígnio, Diogo torna-se um globetrotter. Numa semana podia estar em três continentes diferentes. Nada que o afligisse.

Carlos Liz conta que a partir dessa altura passa a receber telefonemas do seu amigo dos sítios mais variados, às horas mais improváveis. Por ser colecionador de imagens de arte urbana, Carlos Magno foi presenteado com fotos sobre o tema, das mais diversas origens, incluindo uma com um graffito no muro da Faixa de Gaza, que ele guarda com especial desvelo. Anabela Pedroso partilha que, na época, os "ex-umics" passaram a meter-se com ele, dizendo-lhe coisas como: "Então, o que vais agora vender para o Líbano?" A partir desta fase diz que também passou a ter acesso facilitado às mais diversas figuras internacionais: "Sempre que precisávamos de convidar alguém para um evento, ligávamos-lhe a perguntar: "Por acaso conheces esta pessoa? Invariavelmente respondia: "Então não conheço?!"."

Simon Willis, seu chefe em Londres, rapidamente se rendeu aos encantos daquele português que andava pelo mundo como um miúdo numa loja de chocolates. Conta que não era raro receber um sms às duas da manhã, a dizer: "Boas notícias! Acabei de ter uma reunião incrível! Telefona-me assim que puderes!"

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