Descobrir o invisível em Manoel de Oliveira

Com Non ou Vã Glória de Mandar, a Cinemateca inicia hoje uma retrospectiva integral da obra de Manoel de Oliveira - o evento prolonga-se durante o mês de Janeiro.

Como ver e pensar a obra de Manoel de Oliveira? Eis uma pergunta a que, no contexto português, nunca foi fácil responder. Do desconhecimento da pluralidade do seu trabalho aos mais militantes preconceitos, vários fatores contribuíram para que os filmes do cineasta falecido em 2015 (contava 106 anos) continuem, para muitos, por descobrir. É o que será possível fazer, ao longo das próximas semanas, graças a uma iniciativa da Cinemateca Portuguesa: o evento a que foi dado o nome O Visível e o Invisível integra, a partir de hoje, data do aniversário de nascimento de Oliveira, todos os títulos da sua filmografia.

De facto, outras retrospetivas de Oliveira já tinham tido lugar na Cinemateca (em 1981, 1988 e 2008). O certo é que, tendo em conta que ele nunca deixou de filmar (a curta-metragem Um Século de Energia é de 2015), esta é a primeira retrospetiva integral do criador de títulos tão lendários como Aniki-Bóbó (1942), Francisca (1981) ou O Quinto Império (2004).

A sessão de abertura (hoje, 21h30) é dedicada, precisamente, a um dos seus filmes mais enredados com a mitologia nacional: Non ou a Vã Glória de Mandar (1990). Pode dizer-se, aliás, que este é um filme sobre a própria coexistência da história e do mito no interior da identidade portuguesa. Isto porque Oliveira ousou fazer um filme "histórico" cujo tema aglutinador é definido pela sucessão de derrotas militares de Portugal (com destaque para Alcácer-Quibir), narradas pela personagem de um alferes em plena Guerra Colonial.

Na sua abrangência temática, Non ou Vã Glória de Mandar condensa uma questão - que é também uma obsessão - que foi pontuando todo o trajeto criativo de Oliveira. A saber: a necessidade de entender como e porquê a história de Portugal se apresenta como um novelo de ideais e desencantos. Dir-se-ia que, através dos filmes de Oliveira, nos redescobrimos órfãos das nossas ilusões utópicas. Certamente não por acaso, vários textos de Camilo Castelo Branco (e a própria personagem de Camilo) estão na base de alguns dos trabalhos mais arriscados e desafiantes de Oliveira, com inevitável destaque para o polémico e, afinal, tão mal conhecido Amor de Perdição (1978).

Na sessão de Non ou a Vã Glória de Mandar estarão presentes alguns dos atores principais do filme: Diogo Dória, Luís Lucas, Luís Miguel Cintra, Miguel Guilherme, Ricardo Trêpa e Ruy de Carvalho. A anteceder a projeção do filme, serão mostradas algumas imagens da rodagem.

A partir de quarta-feira, dia 12, com a passagem de Douro, Faina Fluvial (1931-1934), inicia-se a apresentação dos filmes por ordem cronológica, prosseguindo esta primeira parte do ciclo até ao dia 29, com a exibição de Os Canibais (1988). A retrospetiva irá concluir-se ao longo do mês de Janeiro. No decurso do próximo ano, está previsto lançamento de uma edição alusiva.

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