Deejay Kamala: "Só tomei drogas uma vez. Tinha 26 anos e disse aos meus pais que ia a Amesterdão"

Em 1998, João Fernandes trocava a praia por tardes numa cave a experimentar com discos. Os 20 anos celebram-se no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. É a primeira vez que um DJ o faz em nome próprio.

No minuto antes desta entrevista começar, nos escritórios da Ruela Music, Deejay Kamala grava um vídeo no smartphone que acabará nas redes sociais, antecipando o espetáculo desta quarta-feira, dia 19, no Coliseu dos Recreios. Anunciou-o em janeiro e trabalha para esta noite deste então. É o primeiro disc-jockey a apresentar-se nesta sala em nome próprio. Com ele, a partir das 20:00, e durante duas horas, vão estar 20 convidados. É a sua forma de celebrar 20 anos na música.

Deejay Kamala é João Fernandes, 38 anos, quatro irmãos, casado com a apresentadora Vanessa Oliveira (com quem tem um filho). Um rapaz da Parede que começou a pôr música na cave do bar de um amigo, que se interessou pelo hip-hop e R&B, o que "mexia" com ele e ainda o faz. A caminho da entrevista ouvia Jay Z e Kanye West.

Porque lhe diziam que era um ótimo comunicador e "aos 17 anos pedem que escolhamos o que vamos fazer", decidiu estudar Ciências da Comunicação, sem querer ser "coisa nenhuma". O pai fez uma exigência. "Tens de ser bom naquilo que fazes".

Passou pela maioria das casas noturnas de Lisboa, já tocou em Espanha, Holanda e Angola, fundou os clubes Rádio-Hotel e Bosq, em Lisboa. É um empresário da noite que desfaz os clichés do disc-jockey que acompanha os gigs com garrafas de vodka e cocaína. Fala com entusiasmo. "Acredito que sou bom naquilo que faço, mas também só sou bom porque encontrei o que me faz feliz".

É-lhe indiferente que o tratem por João ou por Kamala e começamos a conversa por aí - o nome. "Kamala vem de uma alcunha que tinha quando era miúdo. Estava muito em voga o wrestling e havia um lutador que era o Kamala. Tinha uns 10 anos, era mais gordinho e os meus amigos para gozarem comigo chamavam-me Kamala. Quando comecei a pôr música, em vez de adotar um daqueles nomes pomposos, achei que já tinha um alter-ego com que me identificava e com que as pessoas me identificavam, então adotei o nome Kamala. Dá a sensação de ser algo africano e eu não tenho raízes africanas embora me sinta altamente movido pela música negra".

Quem é o João Fernandes?

Eu venho da Parede... Nunca fui muito dado à cena do surf, ia para a praia jogar vólei de praia. Sempre fui muito ligado ao desporto: joguei vólei federado muitos anos, basquete federado muitos anos, fiz artes marciais. O meu caminho não tem muito a ver com o dos meninos da Linha. Não sei se é por ter estado ligado ao basquete, por exemplo, sempre fui mais ligado ao hip-hop. A cena do hip-hop e do r&b comunicavam muito comigo - sendo que na altura era muito difícil ouvir estes estilos musicais num clube ou numa festa.

A primeira vez que pôs música foi em...

1998.

A primeira vez que pagaram ou a primeira vez que pôs música?

Se for minucioso, a primeira vez foi 1997. 1998 foi quando comecei a levar mais a sério - e não é só ser pago, é começar a tocar com discos de vinil, ter material a sério... Os meus amigos iam todos para a praia e eu ia enfiar-me numa cave que era um bar de um amigo do meu irmão mais velho que me deixava ir para lá fazer barulho durante o dia. Chamava-se Deep Club, era em Cascais, um bar que já foi do Miguel Ângelo dos Delfins mas na altura era um bar de música eletrónica. Ele [o amigo do meu irmão] emprestava-me os discos e o material e eu ia para lá treinar.

Tocava para si ou já para outras pessoas?

Para mim...Ia para lá treinar sozinho.

Estamos a falar de 1998, tudo era diferente. Era fixe ser DJ mas não era tão fácil...

Ser DJ não era a profissão da moda. Hoje em dia estar ligado à noite até pode ser cool, na altura era ires para a má vida. Eu sou empresário, tenho dois clubes meus, tenho equipas de RP [relações públicas], pessoas com cargos importantíssimos durante o dia e que trabalham os meus projetos e isso é visto com uma cena cool, mas na altura trabalhar à noite era álcool e drogas e maus caminhos... Eu estudava, fui para a universidade, embora esta fosse a minha paixão... Fui tirar um curso de Ciências de Comunicação, especializada em Marketing e Relações Públicas, mas o meu chamamento era a música. Hoje em dia há um acesso muito fácil a todo o tipo de soluções que permitem pôr música, desde downloads até softwares que quase te ensinam a pôr música. Na altura não...

Se calhar 80% dos Dj em Portugal não conseguem tocar dois discos de vinil originais, acertar batidas, misturar, etc., não o sabem fazer porque nunca estiveram com dois gira-discos. Na altura, não havia outra forma. Havia quem tocasse com CD mas o vinil era quase um culto. Não era só a possibilidade de pôr música, era tocar nos discos, olhar para os discos... Nós conseguíamos ver no desenho do disco onde é que eram as quebras da música e estava tudo estudado, eu tinha um disco e sabia as versões todas da música, eu bebia aquilo como se fosse a coisa mais sagrada do mundo. Era o que eu gostava. Para mim foi fácil porque eu senti aquele chamamento. Se calhar é uma coisa muito ligada com a fé mas eu sentia um ligação muito grande com a música, com a função de DJ, de poder comunicar com as pessoas através da música, poder ler uma pista, perceber o que é que as pessoas gostavam ou não...

Quem é que conhecia que fazia este trabalho que o impressionava?

Na altura, qualquer DJ me impressionava. Eu não sabia fazer, não sabia distinguir um bom DJ, de um mau DJ. Eu tinha 16 anos, qualquer um que estivesse atrás de uma cabine me fascinava. "Fogo, como é que aquele gajo consegue fazer aquilo?".

As pessoas não iam muito aos sítios pelo DJ. Se calhar, pessoas que são perfeitamente anónimas podem ter sido muito marcantes no seu percurso e se calhar nem sabe o nome delas...

Ah, disso não há dúvida. Se calhar admiro dez DJ entre Cascais e Lisboa que punham música no Coconuts, Alcântara Mar, Bauhaus... Um deles, falámos ao telefone. Disse-lhe: "nunca nos conhecemos mas eu admiro muito o trabalho. Quando ia para o Algarve ia de propósito ao IRS para te ir ouvir tocar". Eu era um miúdo deslumbrado. Estamos a falar de uma discoteca em que cheguei a ser eu e mais 3 pessoas lá dentro mas a música era exatamente aquela que eu gostava, o gajo era muita bom, um DJ algarvio que se chama Zé Black e, na altura, uma pessoa muito respeitada no meio. Nunca teve o estatuto de ser uma referência nacional, eras conhecido por ser o DJ residente da "casa tal". O Luís Leite, o Geninho eram os residentes do Alcântara Mar. Havia uma referência que era o Vibe...

Foi nessa época que os DJ se começaram a destacar.,,

Antigamente as pessoas iam às discotecas porque gostavam da casa em si, gostavam a estrutura, do ambiente, do serviço, da música. Então os donos das casas investiam maioritariamente no serviço, nas infraestruturas etc. depois isso começou a não chegar e começou a haver a necessidade de fazer as festas. Só se faziam as temáticas - de Carnaval, Passagem de Ano - mas depois isso não era suficiente. Então começa-se a contratar artistas e é aí que se começa a contratar DJ. Os Dj conhecidos vinham, traziam gente atrás...

Tipo Kadoc?

Exatamente. Depois começaram a vir também os internacionais e não só os nacionais. Ou seja, os donos da casa tinham de gastar dinheiro também nos conteúdos, não só nos residentes. Hoje em dia têm de apostar nisso tudo, mais a comunicação, mais RP, ou seja, a noite acabou por se massificar e as pessoas são como carneirinhos: Muitas vezes não vão onde lhes apetece, vão onde todos vão.

Está a falar como dono do Radio-Hotel?

Não, estou a falar como a evolução da noite. Essa necessidade da própria indústria de criar artistas, DJ que movessem pessoas. Foi aí que esses nomes começaram a crescer. Também começou a haver alguns festivais de música eletrónica e a noite a começou a crescer. Eu na altura era só DJ residente.

Onde?

No Coconuts, em Cascais. Foi a minha primeira grande residência. Era uma referência e para um miúdo de 19 anos ser convidado para assumir a residência de um clube desta dimensão foi uma responsabilidade muito grande. Se estava preparado? Nem de perto nem de longe, mas a coisa acabou por correr bem. Ex-DJ do Coconuts e do Bauhaus eram referências para mim. Hoje em dia vai-se a festivais ouvir, eu na altura ia a discotecas perto de casa, onde os meus pais me deixavam ir. O DJ era um entertainer, que é uma coisa que acho que se perdeu um bocadinho...

A sério?

Convenhamos, a profissão de DJ banalizou-se brutalmente. Qualquer pessoa, se quiser, consegue ser DJ. Tivemos aí uma leva de figuras públicas que quiseram sê-lo, sabe-se lá porquê. Ouviam música desde pequeninos e depois era só Marvin Gaye e Stevie Wonder. Também foi uma forma fácil de ganhar algum dinheiro porque as discotecas mais comerciais não hesitavam em pagar-lhes como figuras públicas para irem pôr música. Acabou por haver um descrédito grande da nossa profissão. Na realidade, também veio fazer com que conseguíssemos separar trigo do joio.

A profissão de DJ banalizou-se brutalmente. Qualquer pessoa, se quiser, consegue ser

Agora temos muitos DJ...

E temos vários circuitos. Um mais alternativo, malta que toca a cena deles, temos o circuito mais comercial dos DJ que fazem o que têm de fazer e já está; o circuito de malta que investe mais na carreira, já lançou algumas coisas, já fez festivais e toca em palcos grandes...

Quem são esses 20 convidados que vão estar no Coliseu?

Não vou dizer mas não é por falta de vontade. Não é justo nem é legítimo que eu utilize nomes de convidados para promover o meu trabalho. Na realidade, uma coisa é eu fazer uma curadoria, como fiz no NOS Alive ou no Rock in Rio, em que sou eu que faço a programação de um palco num dia e anuncia-se um cartaz. Aqui é um espetáculo em nome próprio... Se és minha amiga, és uma artista que eu respeito e que gostava de te ter comigo neste dia, quero que o convite seja saudável. O que está a vender bilhetes é o meu nome, não é o teu e eu não vou querer utilizar o teu nome para que isso aconteça porque caso contrário dou a ideia de que há uma vertente comercial por trás disto - que não há. Daí fazer questão de não anunciar nenhum artista. Além de ganhar ênfase a surpresa...

Vai ter Filipe Gonçalves...

Como é que sabe?

Vi-o duas vezes e ele estava lá. Acho difícil que não esteja. Se não estiver temos uma notícia.

Vou responder de outra forma: nomes óbvios que poderiam e deveriam estar comigo no Coliseu não vão estar. É muito pela iniciativa em si e vou ser sincero: é assustador para um DJ e para alguém que está num circuito onde nunca ninguém tentou algo do género ir de peito feito e dizer "Coliseu, 20 anos, vamos fazer um espetáculo".

Quem é que se lembrou do espetáculo, o Deejay Kamala ou a promotora Everything is New?

Fui eu.

Eles aceitaram, o que também diz alguma coisa... É o primeiro DJ no Coliseu, mas na verdade já foi tentado nos festivais de verão, não é propriamente um risco do género "vamos abrir isto e não sabemos quantas pessoas lá vão estar".

É exatamente esse o risco.

Achava que podia não correr bem?

Sempre achei que pudesse correr muito bem, por isso é que me lancei neste desafio. Mas não é comparável com um festival onde há um cartaz com não sei quantos nomes em que 70% é movido por um cabeça de cartaz. O risco é completamente diferente, estás a juntar um ponta de lança com o resto da equipa. Aqui não, só tens o ponta de lança e não vais anunciar o resto da equipa. É bastante diferente e tens outra nuance: Esse ponta de lança tem 100 datas por ano. O que é que vai mover as pessoas? O que é que me vai fazer comprar um bilhete para ir a este espetáculo? Quando o Richie Cambell esteve no Altice Arena praticamente não tocou porque o foco dele foi esse. Os HMB foi a mesma coisa quando fizeram o Campo Pequeno. É uma estratégia de artistas com peso que querem concentrar tudo num dia.

Mas o Deejay Kamala não podia fazer isso.

Nem queria. O desafio aqui foi conseguir conceber uma estratégia em que as pessoas tivessem interesse de marcar presença no dia 19 de setembro.

Um espetáculo que não se repete

Isso significa que vais terminar o 360º e a partir de agora há um espetáculo novo do DJ Kamala?

Não é um espetáculo novo, é um espetáculo único. O Kamala em modo clube é uma coisa, em festival é outra coisa, em modo palco grande é outra e no Coliseu é único. É um espetáculo que não se voltará a repetir. É once in a lifetime [uma vez na vida], uma celebração de 20 anos. Daí, para mim, a importância desta data. Ainda há bocado dizia, com um súbito encolher de ombros: "ah ok, chegou à Everything Is New e eles já sabiam que isto eram favas contadas". Pelo contrário! Aqui tiro o chapéu e tenho uma gratidão brutal para com a Everything Is New, Rádio Comercial, FOX, Central de Cervejas porque todos os parceiros com que falei. Disseram-me que sim à primeira. Não tive de sequer desvendar a estratégia que tinha montado para isto. Disse só: gostava de fazer isto, nunca aconteceu, primeiro espetáculo.

Há um risco da parte da Everything Is New mas é calculado.

Se fosse calculado já outros teriam feito. Habitualmente tenho uma capacidade grande de dedicação aos meus projetos e quero acreditar que os meus parceiros sabem. Não reconheço no mercado muita gente com a mesma capacidade, porque estamos a falar de DJ não estamos a falar de bandas. Mesmo bandas há um 'x' número de bandas brutais que não é fácil atirarem-se para uma sala de 4 mil pessoas. Eu gostava de fazer com isto era algo marcante na data dos 20 anos. O marcante é atingir uma consagração de um meio que acho que merece essa atenção - os DJ não deixam de ser artistas e de ser muito importantes para a indústria musical porque tocamos a música dos outros. Os 20 ou mais de 20 artistas que vou ter comigo todos eles foram muito importantes para a minha carreira. E posso dizer o contrário, que acredito que o meu trabalho também possa ter sido importante para eles. Um respect aos DJ em geral pelo trabalho que fazem de formiguinha. Dou um exemplo: Eles não precisa de mim para nada mas a música de fecho do 360º é o Amor é Assim, dos HBM com a Carminho. Se calhar não seria sequer a 10ª escolha para acabar uma festa, mas vendo nas minhas redes sociais os vídeos de celebração das pessoas com esta música... O que me move é poder promover música que me diz tanto, a música nacional. Durante muito tempo fomos altamente ignorados, nós portugueses enquanto artistas. E não era fixe tocar música portuguesa...

Era aquele momento em que toda a gente ia ao bar...

Hoje é diferente. HBM, Carminho, Boss AC, Diogo Piçarra, Agir... Posso dizer não sei quantos nomes que são cabeças de cartaz em vários festivais em Portugal e que não dá para os próprios promotores virarem a cara. Para o público mais novo a cena do hip-hop explodiu. Eu tive a felicidade de fechar o primeiro dia do Sol da Caparica no palco principal e percebi que no segundo dia o hip-hop estava todo no palco secundário e pensei: esta gente não sabe onde é que se está meter. Eram os nomes todos que os miúdos queriam ver no palco principal... o que significa que no dia seguinte o palco estava irrespirável. É fixe a nova geração dar atenção e valor aquilo que é nosso. Pensar há 20 anos que ia estar em cima de um palco com artistas deste tipo já era espetacular, ser eu a convidá-los é uma honra muito grande.

Como se interessou pelo hip-hop?

Não há uma resposta contundente. É a música que mais comunica contigo. Eu aprendi a tocar com discos de house e techno, as pistas eram feitas de house e techno, ou no limite a música revivalista, os Plateaus da vida, aquele rock-pop, mas ias a um clube grande e estava a tocar house, aquele 4x4 encorpado em que fazia a viagem das pessoas durante a noite. Eu ouvia soul, funk, r&b, hip-hop e para mim era fresco, soava-me muita bem, mexia comigo e eu tentava sempre nos meus sets incluir...

Sempre fui aquele gajo do "se ninguém faz faço eu".

Mas não havia r&b nem hip-hop...

Não havia nenhum. Eu comecei com umas festas em 2009, que ainda hoje tenho o conceito, que é o Sweet, que foi altamente pioneiro, levar para pistas de dança grandes músicas a ver com r&b e hip-hop- havia festas mais pequenas, havia as quintas-feiras no Garage que eram as r&b sessions que já mexiam com alguma gente. Eu arranquei no BBC, que era considerada a melhor casa de Lisboa em termos comerciais - a melhor casa a nível musical era o Lux - e numa das principais casas de Lisboa teres uma vertente de hip-hop era uma coisa altamente estranha.

O David Guetta lança um álbum com participações de não sei quantos gajos ligados ao hip-hop. O hip-hop percebeu que tinha de fazer cenas mais clubby que pudessem tocar nas pistas de dança, os DJ também abraçaram o movimento, as rádios a mesma coisa e a partir do momento em que as rádios são conquistadas facilitou o nosso trabalho para as pistas.

Este desbravar de caminho destes 20 anos teve muito disso: conseguir chegar às cabines, depois de impor a vertente musical que mais movia - e o Coliseu foi um bocadinho por aí. Sempre fui aquele gajo do "se ninguém faz faço eu". Se há uma coisa que eu acho que deve acontecer e que o mercado não assimila ou não aceita, 'bora fazer. Sou altamente proativo e se eu acreditar num projeto não nos serve de muito a postura do tuga do "eh pá, ninguém faz isso" ou quando alguém faz "ah também, isso também eu fazia". Eu sou contra isso. Daí nasce a minha vertente enquanto empresário, não só enquanto conceitos de festa como, mais tarde, quando me fartei de fazer festas na casa dos outros (até porque muitas vezes saía de lá enganado).

Despedi o meu melhor amigo

Saía enganado financeiramente?

Sim. Fartei-me. Não só financeiramente. Quando trabalhas com estruturas que não são tuas tens de aceitar várias coisas com que não concordas. Há casos que para mim resultam muito bem. Sou parceiro do Bliss no Algarve. Eles têm a estrutura, eu tenho as minhas segundas-feiras dedicadas ao r&b e hip-hop há 5 anos, resultam na perfeição. Enquanto DJ vou tocar a qualquer lado, enquanto empresário tenho uma forma de trabalhar muito... vou chamar-lhe profissional por não ter um termo melhor. Não toco numa gota de álcool, por exemplo, e digo sempre ao meu staff que estamos ali para trabalhar. Ninguém me convence que nós conseguimos fazer o nosso trabalho melhor alcoolizado do que sem estar alcoolizado.

Tocando à noite propicia-se. Não bebe nada, nunca?

A trabalhar não. Se estou a tocar num clube no Porto e a minha cena é tocar, se me apetecer posso beber uns copos. Primeiro sou pouco ligado a álcool e zero ligado a drogas. Tenho uma responsabilidade profissional muito grande, sou muito focado no meu trabalho. Enquanto empresário não consigo estar num negócio meu a pensar "estou com os meus amigos, o que acontecer, aconteceu". Não consigo ter esta postura. Estou com os meus amigos e a receber pessoas, se acontecer alguma coisa não me sinto bem em estar alterado de alguma forma - com 3 ou 4 copos não vais estar igual a sóbrio...

A pôr música...

Este é o contrasenso. A maior parte dos artistas gosta de estar mais desinibido e a ideia de beber alguma coisa pode ajudar. E sim, às vezes acontece. Mas é como digo: sou muito dado ao desporto, não sou dado a álcool. Se formos jantar habitualmente bebo coca-cola. Como trabalho à noite não tenho muito a cena de "bora sair!". A noite tem de ser levada tão a sério como o dia porque se é fundamental haver um supermercado aberto para irmos fazer compras também é fundamental ter um restaurante para jantar, um bar para beber um copo ou uma discoteca para nos divertimos. As pessoas ligadas à noite têm de ter o mesmo tipo de profissionalismo e exigência que qualquer outra pessoa tem. Na realidade, há uma coisa que abomino: chegar a um clube qualquer e perceber que a malta que está atrás do bar está a beber com os clientes. Não faz sentido e profissionalmente devemos separar as águas. Se a pessoa atrás do bar estiver alcoolizada qual é a credibilidade que tem perante mim? Bola! E isto é também para com a equipa de segurança, equipa de limpeza... Tudo isto tem de ser levado a sério.

Já despediu pessoas por causa disso?

[De imediato] Já despedi o meu melhor amigo.

E deixou de ser melhor amigo?

Não, é o meu melhor amigo. Sou amigo das pessoas com quem colaboro e gosto muito, interesso-me pelas famílias e pelos problemas. "Vamos todos beber copos? Vamos sim senhor!". Nos dias em que as casas estão fechadas, vamos todos a algum sítio beber copos. Não temos essa preocupação, perfeito. Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque. Transportando isto para o Coliseu, espero que corra tudo bem. Não seria possível nem seria viável assumir um barco destes se não tivesse comigo equipas altamente focadas neste objetivo... se as mesmas pessoas com quem trabalho que metem de pé um projeto como o 360 ou o Coliseu, se levassem isto como festa, as coisas iam correr muito mal.

Quantas vezes é que já lhe faltou o ar desde janeiro, quando anunciou que ia ao Coliseu? Quantas vezes pensou: "Se calhar dei um passo maior que a perna"?

Nunca.

Mas quantas vezes stressou?

Todos os dias. Posso dizer, sem problema nenhum, com responsabilidade grande vem um nível grande ansiedade, stress e preocupação. Obviamente que quando dizes "bora Coliseu e vamos conseguir"... E lamento desconstruir a ideia mas é mesmo muito difícil aquilo que estamos a construir. Basta fazer uma pesquisa rápida de projetos nacionais e internacionais com uma validade brutal e uma awareness muito grande do mercado: não ousavam mandar-se para uma sala em nome próprio para 4 mil pessoas.

Qual é a margem para mudar alguma coisa no alinhamento para que as pessoas se entusiasmem mais?

Não vou ter muita margem. É um espetáculo montado com luz, vídeo, com momentos, cadências próprias, não dá para dizer "vocês os dois que tinha convidado, não vai dar...". Enquanto numa pista de dança, eu vou formatado, mas posso mudar.

Pode acontecer mudar e não pegar na mesma.

Aconteceu uma vez na minha vida toda, em Paços de Ferreira. Aquilo correu sinceramente mal. Experimentei tudo o que estava ao alcance do meu espetro musical - e não tenho qualquer problema em reconhecer que tenho um público mais comercial à frente e que tenho de ser mais comercial - o que tinha não era o suficiente para aquele público, habituado a música latina. Tirando isso, não me lembro de nenhum gig a que não tenha conseguido dar a volta.

E como é a rivalidade entre DJ?

Da minha parte, zero.

Rivalidade como competição por estar nos melhores festivais. Haverá DJ que dizem "ah, já não vou poder ser o primeiro a ir ao Coliseu".

É bom que digam todos, mas todos eles podem dizer coisas que eu nunca fiz. É por isso que eu faço questão de dizer que fazer o Coliseu não me faz nem melhor nem pior do que ninguém. Honestamente, há DJ que estão a festejar 20 anos este ano e que decidiram que o caminho da celebração é uma iniciativa diferente. Rivalidades, não. Se me perguntares se vou ter inveja do DJ Zé Manel que foi convidado para tocar no palco principal do Sudoeste, claro que sim, gostava imenso, se puder tocar em todos era ótimo, mas aí era o monopólio.

Estar aqui às 15.00 é madrugada?

Não! Se fosse 08.00... Os meus horários são um bocadinho diferentes e as pessoas podem não acreditar, mas eu tenho um escritório próprio e equipas a trabalhar comigo. Para ser empresário não dá para deitar todos os dias às 06.00, ir para os copos, acordar com ressaca. Se funciono bem de manhã? Não! [risos]

Quantas vezes toca por semana?

Depende. Pode ser uma. Duas. Três. Cinco. Cheguei a ter em nove gigs em cinco dias.

Viu o documentário sobre Avicci [DJ sueco que morreu este ano].

Não vi o documentário, não sei o que ele passou. Posso dizer que me ajuda bastante ter um equilíbrio grande entre o trabalho, a família, mas também a minha parte da saúde. Vou ao ginásio quatro, cinco vezes por semana, sempre. A minha alimentação não é desregrada. Eu bebo álcool, em média, uma vez de três em três semanas.

Este parágrafo vai ser o menos lido.

Este gajo é ganda seca! Eu compreendo.

Talvez as pessoas nem acreditem.

Posso dizer que tenho 38 anos, tenho 20 anos de carreira ligado à noite, bebo álcool seguramente de três em três semanas e para as pessoas não pensarem 'este gajo está a fazer-se de santinho', eu posso dizer que experimentei drogas uma vez na minha vida. Tinha 26 anos e disse aos meus pais antes que ia propositadamente a Amesterdão experimentar qualquer coisa que não sabia o que era, porque estava farto de ver comportamentos à minha frente quando tocava que não percebia.

Que experimentou?

Já não me lembro. Space cake? Não foi nada muito lesivo. Apenas qualquer coisa que me permitisse entender o comportamento das pessoas à minha volta e que não entendia.

Estar em festas e haver drogas é uma coisa típica.

Atenção, eu não aponto o dedo a ninguém. Experimenta, toma, cada um sabe de si. Não é melhor nem pior. É a minha cena. Quer a ideia do álcool, as bezanas, quer as drogas, conferem-me a possibilidade de descontrolo, que vai contra a minha essência. Não o faço por escolha. Não me chama, não mexe comigo. A música mexe comigo.

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