De Portugal ao Médio Oriente, em livros

Com objetivo de promover o conhecimento mútuo e servir o número crescente de imigrantes com origem no Norte de África e Médio Oriente, está a ser formado, em Lisboa, um núcleo bibliográfico com livros de e sobre a região.

Se um bom livro é um veículo de transporte para outras paisagens físicas e humanas, o que dizer de uma biblioteca inteira, sobretudo em época de movimentos condicionados como a que vivemos? Aberta ao público em 1883, a Biblioteca de São Lázaro, em Lisboa, sublinha, na sua página de internet, o facto de partilhar a data de nascimento com o famoso Expresso do Oriente, o luxuoso comboio da Wagons Lits, que ainda hoje circula em versão mais reduzida do que o original trajeto Paris-Constantinopla. Por isso, se a vemos acolher agora um importante núcleo bibliográfico de e sobre os países do Norte de África e Médio Oriente, é como se o comboio chegasse ao seu destino. Sem os dramas imaginados por Agatha Christie ou Graham Greene.

"Esta é a primeira biblioteca pública portuguesa a integrar um importante conjunto de livros em árabe, farsi, urdu ou turco", sublinha Maria João Tomás, professora da Universidade Autónoma de Lisboa, especialista em História e Cultura do Médio Oriente Antigo e a principal dinamizadora desta ideia. "Até aqui os livros nestas línguas só estavam disponíveis em bibliotecas universitárias, o que obviamente limitava o seu acesso", explica. "Já fazia falta a Portugal uma biblioteca pública com este tipo de espólio, não apenas para consulta das comunidades destes países, que são cada vez mais numerosas entre nós, mas também para os portugueses tomarem consciência da importância destas culturas e dos estreitos laços históricos e culturais que com elas temos."

O passo que se seguiu a esta intenção foi estabelecer cumplicidades, antes de mais com a Junta de Freguesia de Arroios, território em que se situa a Biblioteca: "A presidente da junta, Margarida Martins, compreendeu imediatamente que não podia ser noutro sítio. A interculturalidade é uma marca quotidiana desta zona e a percentagem de imigrantes provenientes do Médio Oriente é também muito significativa", salienta Maria João Tomás. Por outro lado, esta biblioteca, com as suas estantes e mezanino em madeiras nobres, o enorme lustre da sala de leitura, evoca na perfeição o gosto orientalista fin-de-siècle, quando, para o bem e para o mal, o Ocidente se tomou de amores pelos mistérios do Médio Oriente...

Mas, se se fala de cumplicidades, há também que referir o Instituto Camões, que está a oferecer livros de autores portugueses traduzidos para estas línguas, com a Secretaria de Estado para a Integração e Migrações, com o Alto Comissariado para as Migrações e com as embaixadas dos vários países da região em causa. Leila Idamr, conselheira cultural de Marrocos, a residir em Portugal há 13 anos, mostra-nos os livros oferecidos pela sua Embaixada à biblioteca, e explica o porquê da adesão de primeira hora ao projeto: "Os nossos dois países têm muito em comum já que a História que partilhamos está longe de se resumir a conflitos e batalhas." E exemplifica: "Quando os judeus portugueses tiveram de fugir à Inquisição, muitos deles foram bem recebidos em Marrocos e por lá ficaram até hoje." Este exemplo de tolerância religiosa repetir-se-ia curiosamente já no século XX, quando Marrocos, apesar da maioria muçulmana, acolheu muitos judeus que tentavam escapar à perseguição nazi. "Essa comunidade criou raízes - afirma a conselheira da Embaixada - e mantém a sua identidade religiosa e cultural, sem que isso belisque a sua cidadania marroquina."

Os livros podem então ser um antídoto contra radicalismos e intolerâncias étnicas e religiosas? António Serzidelo, vogal da junta de freguesia de Arroios com o pelouro da Cultura, acredita que sim: "Não abordaremos duas questões que tendem a dividir, que são a política e a religião, mas procuraremos promover o conhecimento mútuo, que, esse sim, pode estimular a paz e a fraternidade." Para Maria João Tomás, importa "redescobrir o Médio Oriente, para que ele nos conheça a nós, mas também para que os portugueses tenham consciência da importância do seu próprio legado cultural." E fala do brilho do Al-Andaluz hispânico, e do território hoje português que integrava esse conjunto: "Na Idade Média existiam vários pólos de produção de conhecimento científico de origem muçulmana, um dos quais ficava justamente na Península Ibérica. Sem eles, não teriam existido o Renascimento italiano e sequer os Descobrimentos, já que os navegadores portugueses e espanhóis utilizaram muitas técnicas e informação produzidas nesses pólos."

Os laços não se ficam, todavia, pela alta cultura e pela ciência, estão no quotidiano, passados de geração em geração até tempos imemoriais. Com os olhos postos num futuro desconfinado, Maria João Tomás fala já na possibilidade de uma semana gastronómica, em que os portugueses possam descobrir quanto da herança muçulmana subsiste em pratos de borrego, cataplanas ou simplesmente em temperos. Ou das necessidades de proteção mútua que explicam a origem histórica das alheiras: "Se alguém não comesse carne de porco tornava-se suspeito aos olhos da Inquisição, mas se os delatores entrassem numa casa e vissem um fumeiro, a situação estava salva." Se a carne era de caça ou de galinha, só os donos da casa o podiam saber.

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