D. Sancho II, o rei que Portugal não quis

Nestes dias de quarentena a leitura de A Perdição de D. Sancho II /Editora Clube do Autor) de Paulo Pimentel pode esclarecer quem foi um dos monarcas mais incompreendidos da nossa História. Leia outros livros aqui.

Sancho II ( 1209-1248) é um dos reis mais intrigantes da História de Portugal. Protagonista de alguns dos episódios mais decisivos, apaixonantes e conturbados da Idade Média portuguesa, pouco sobre este rei se conserva hoje no nosso imaginário popular. Banido dos manuais de História e (injustamente) pouco conhecido do público em geral, que motivos terão conduzido a esta (aparente) indiferença, como se de uma maldição se tratasse?

O quinto rei de Portugal subiu ao trono, órfão de pai e mãe, com apenas treze anos, carregando sobre os ombros uma pesada herança. Protagonizou um longo reinado - mais de duas décadas -, metade do qual em conflito permanente com a Igreja e com os representantes das linhagens mais tradicionais. Ainda jovem e muito sonhador, venceu batalhas e conquistou territórios, à semelhança dos que o precederam. Foi resistindo às intrigas familiares e políticas, aos interditos e excomunhões; resistiu à traição dos que o rodeavam e ao povo que o humilhou. Enfrentou uma dura e sangrenta guerra civil contra o irmão, legitimado pelo papa para o vir afrontar. Só não resistiu às fraquezas do amor e ao abandono (?) da única mulher que foi capaz de lhe roubar o coração.

Morreu doente e praticamente sozinho, em Toledo, com os olhos postos num Tejo que não era o seu. Afinal, quem foi D. Sancho II? Esta é uma narrativa assumidamente ficcionada sobre o rei que Portugal não quis. Uma vida que se entretece em torno de vários caminhos (afinal, o que é a vida senão uma teia de misteriosos caminhos?) em busca da paz e da redenção. Nela, cruzam-se as possíveis vozes de Sancho II, a de Mécia López de Haro (a formosa e enigmática mulher por quem se terá perdido de amores e com quem se casou, contra todas as vontades, fazendo dela rainha de Portugal), e de alguns dos que com ele puderam privar, mantendo-se leais até ao fim. Aqui se ouvem também as vozes daqueles que, movidos por razões contrárias à sua, o procuraram apagar de um tempo que nem sempre foi justo, generoso e verdadeiro...

Parte I
Quando o fim e o início se procuram

Coimbra, aos 8 dias do mês de setembro, do ano da natividade do Senhor de 1209

Os gentios acudiam às igrejas de Coimbra. Pelo segundo dia consecutivo, a cidade desdobrava-se em martírios e promessas pelo bom sucesso da futura rainha. No paço, afundada nos calores da sua enxerga, D. Urraca padecia, aguardando a chegada de um herdeiro. Aquele não era um bom dia para nascer.

Segundo o sábio mouro da corte, Ibn-Rashid, profundo conhecedor da disposição dos astros, o parto só deveria acontecer no dia seguinte, pois a luz daria, dentro de poucas horas, lugar à treva, por via de um eclipse solar que espalharia o breu sobre a Terra. Sinal evidente de mais desgraças no reino. O povo, habituado à guerra e à míngua, resignava-se, temendo e rezando. «Tolices de um infiel sandeu», alvitravam os dois físicos castelhanos que, no séquito da infanta, haviam chegado no ano anterior à Corte portuguesa.

O confessor de D. Afonso, frei Nicolau, procurava tranquilizar o futuro rei. Se o Altíssimo tinha destinado aquele dia para dar um herdeiro a Portugal, não havia razões para receios. A 8 de setembro celebrava-se a natividade da Santíssima Virgem Maria, mãe de Jesus Cristo, o Salvador. Era dia sagrado, e todo o reino cumpria a sua parte, orando e fazendo os necessários jejuns. Mas nos ouvidos e no coração do rei ressoavam o temor e os ecos da ira divina...

Era sabido que o velho rei Sancho, agora enfermo e tolhido pela demência no Paço Real de Santarém, havia causado no seio da Santa Madre Igreja muitos danos e grandes ofensas, o que lhe valera as sucessivas excomunhões do papa e a interdição do reino. Mas Deus, que é Pai, tudo perdoa aos seus mui amados filhos, quando o pecado dá lugar ao arrependimento e à esperada salvação eterna, por via da justa recompensa aos ofendidos. Se tudo fosse reparado a tempo, como era mister, um novo ciclo começaria, depois da morte do velho rei, com o alçamento de um novo soberano e a garantia da continuidade de uma dinastia ao serviço de Portugal, temente aos desígnios de Deus no Céu e sobretudo às disposições dos ministros da Igreja na Terra.

D. Afonso só tinha de impedir mais atrocidades e injúrias contra os bispos, especialmente no Porto e em Coimbra, repondo de vez a justiça e a paz. Acomodada a custo na enxerga de nogueira, D. Urraca contorcia-se com dores e agonias. Já lhe iam faltando as forças e o alento para suportar aquela espera. Estevainha Soares, a principal aia portuguesa ao seu serviço e futura dama de criação do infante, bem como o vasto rol de açafatas castelhanas, rendiam-se dia e noite à real cabeceira, refrescando-lhe as fontes com paninhos húmidos, embebidos em água de flor de laranja doce, e desdobravam-se em orações fervorosas aos pés da Virgem do Ó. Martinha Charroco e a irmã Inês, duas das parteiras mais conceituadas em todo o reino, observavam vigilantes a evolução daquele corpo franzino, na esperança de que a natureza quisesse finalmente cumprir o seu destino.

Preparava-se a cadeira de espaldas e sucediam-se as escudelas de água morna, os emplastros de agrimónia e as intermináveis ladainhas. As pastas de gordura de ovelha derretida com que se besuntavam as entranhas da parturiente, o cheiro do azeite das lamparinas e o bafio das ervas fervidas e defumadas empestavam os corredores do paço, tornando-os numa verdadeira antecâmara dos infernos. No meio do asco e dos delírios, D. Urraca recordou - secretamente com alguma raiva e inveja - a sorte da irmã Branca, a preferida da avó Leonor, que a escolheu para reinar em terras de França. Embora procurasse afastar as tentações demoníacas do pensamento, benzendo-se e entregando-se com fervor a um pater noster, elas insistiam e faziam-se presentes, à medida que as horas iam passando e a angústia se avolumava, a ponto de não caber dentro das quatro paredes da câmara. Fora desterrada um ano antes para Portugal, a fim de ser entregue a um futuro rei desajeitado, gordo e disforme, constantemente indisposto, e ainda por cima doente.

Com o tempo, tinha aprendido a tolerar D. Afonso e os seus caprichos. Afeiçoou-se à luz amendoada dos céus portugueses, abraçando de corpo e alma o nobre destino de garantir a sucessão da Coroa. Mas esse desígnio tardava hoje a cumprir-se. Não aguentava mais tamanha aflição! Não suportava mais a ladainha enfadonha e interminável das três monjas de São João aos pés da enxerga: Salve Regina, Mater misericordiae, vita, dulcedo et spes nostra, salve. Ad te suspiramus exsules filii Hevae, ad te suspiramus, gementes et flentes in hac lacrimarum valle...

- Chega, criaturas imundas! Já basta de zumbidos e lamúrias ocas! Calai-vos de uma vez e ide-vos daqui. Sois um bando de moscas inúteis! - gritou, erguendo-se de supetão, enquanto se dirigia à saída da câmara.

Estevainha Soares assustou-se. Levantou-se e acorreu a aconchegar a camisa sobre os ombros da parturiente, procurando serenar o assombroso ataque de mau génio.

- Então, Senhora, tendes de ser paciente e evitar as correntes de ar. As irmãs só estão a rezar pelo vosso bom sucesso. Vamos, acalmai-vos e cobri-vos com esta capa. Ainda não chegou a hora. Eu pari um rancho de criaturas e garanto-vos que todas as vezes foram diferentes. É da nossa natural condição de fêmeas o padecimento para botar filhos no mundo. Tendes de manter a serenidade, para bem do reino e do infante que vai sair do vosso ventre: um varão são e forte, com a graça de Deus. Vamos, descansai agora um pouco, enquanto as dores...

- Não saís vós, saio eu. Nem que tenha de parir sozinha este filho aos pés do Salvador. E se tiver de me finar, que seja em paz, longe de vós todas. Achai-me rapidamente uma dessas mulheres do povo, para que me venha assistir na capela. Quero-vos longe de mim!

- Mas, Senhora?! Na capela? Esperai...

- abismou-se, escancarando a boca e benzendo-se logo a seguir.

- Valha-me São Frutuoso! - sussurrou ainda entre dentes. Enquanto Estevainha prestava assistência a uma das monjas que desfalecera no meio do desvario, D. Urraca desceu a escadaria a correr, num único fôlego. Dobrou-se por momentos. Depois, atravessou o pátio, atabalhoada com a luz do dia, e amparou o ventre com a mão direita. Parou. Gemeu. Mais uma guinada. Dobrou-se de novo e afogou a dor, cerrando os dentes. Enfiou-se por fim na capela do paço, deslocando a aldraba de pinho atrás da travessa da grande porta. Fechou os olhos e suspirou fundo, deixando-se envolver pela tranquilidade do interior do templo. À saída da alcova, já estando recomposta a monja, Estevainha Soares esbracejava, berrando aos ouvidos de uma jovem camareira, especada no corredor, branca e hirta como uma estátua.

- Mexe-te, manceba dum raio! Pareces um fantasma. É urgente ir ao salão avisar Dom Afonso para que venha tomar providências. A Senhora Dona Urraca ensandeceu de vez. Valha-nos Deus Nosso Senhor! E vós, desembaraçai-vos e mandai achar Branca Parda, a aparadeira que vive na Rua da Figueira Velha - vociferou na direção de dois serviçais do rei que acabavam de cruzar a galeria inferior. Estava visivelmente transtornada com o sucedido.

- Tragam-me essa mulher de imediato ao paço.

- Mas... Branca Parda? A feiticeira?

- Sim, suas alimárias! Essa mesma! Não tendes ouvido? É uma ordem da rainha. As horas foram passando e a agonia aumentou. Encerrada na pequena capela, diante do altar, D. Urraca socorreu-se da capa que trazia pelos ombros, estendeu-a e deitou-se sobre a friagem das lajes, indiferente às determinações do marido. O rei exasperava da banda de fora da capela. Urraca era mais teimosa do que uma mula! Antes de se resignar, ainda insistiu uma última vez:

- Deixai ao menos entrar Dona Estevainha Soares.

- Deixai-me também vós em paz, Afonso! Eu serei paciente como me foi aconselhado. Quando me trouxerem a parteira que pedi, a porta será aberta.

- O futuro do reino está perdido. Esta castelhana perdeu de vez o siso - desabafou o rei, dirigindo-se ao interior do paço, seguido pelo alferes-mor Martim Anes de Riba de Vizela e os demais cavaleiros ao seu serviço, que com ele discutiam, na pequena sala contígua ao salão do trono, uma missiva para enviar com urgência a Roma, procurando assim serenar uma vez mais a ira do papa contra Sancho, ainda rei de Portugal, o seu velho e insano pai.

Pouco passava da hora sexta. Como fora previsto pelo mouro, o imenso disco solar foi-se deixando cobrir lentamente por uma sombra negra, até restar um anel de luz à sua volta, ténue e quase impreciso. A cidade ficou deserta e arrefeceu, como se o tempo se suspendesse, envolto pela penumbra ameaçadora. O silêncio apoderou-se do casario. Os pequenos pássaros que soíam alegrar e colorir os telhados de Coimbra evaporavam-se pelos labirintos da escuridão, rumando às brenhas circundantes.

Nessa hora de espanto e medo, nas ruas e no negrume, extinguiu-se qualquer sinal de vivalma. Pouco depois de um quartel, quando o punho e a voz de Branca Parda se fizeram sentir com veemência à porta da capela, ressoando asperamente pelo interior abobadado do pequeno templo, D. Urraca atendeu. Para maravilha e assombro da mulher, a madeira rangeu e entreabriu-se uma frincha. O rosto lívido da infanta assomou-se como uma aparição. A camisa colada ao corpo, ensopada por sangue vivo, fez, por momentos, prever o pior.

- Santo Deus, Senhora! Vamos para dentro! Deixai-me amparar-vos antes que vos desgraceis. A porta chiou atrás do corpo volumoso da mulher e fechou-se de novo. O eco. O silêncio... A sombra negra que cobria os ares foi dando lugar a um cair de tarde dourado de setembro... O nascimento iminente; o queixume abafado de D. Urraca, a princesa castelhana que havia de garantir o futuro de Portugal, enquanto terra independente... O sucesso dava-se por fim. O destino cumpria-se.

Dentro da capela, depois de um grito derradeiro, a impressão de um choro ínfimo. A criatura nascia... Um filho varão acabava de chegar às cruezas do mundo. Um herdeiro. Franzino e enfermiço. Mas vivo. Limpo à pressa e enfaixado aos pés de uma grande cruz, sob o olhar impávido de um Cristo acabado de sucumbir. Branca, a temida aparadeira de tez parda, olhou uma última vez a criatura pálida que quase não havia chorado à nascença e desconfiou. Custara-lhe tanto o açoite com que fizera espevitar o pequeno príncipe! Ainda lhe tremia a mão. Sandices! Fizera o seu trabalho! Agarrou na trouxa encardida e saiu, deixando a porta da capela entreaberta, a pedido de D. Urraca, que lhe agradeceu com um último sorriso sofrido. Foi uma espécie de sol a pousar-lhe no peito velho.

Agora ia encarregar-se pessoalmente de enterrar as secundinas do parto longe das muralhas da cidade, para evitar que maldições ou outros azares se abatessem sobre a ínfima criatura. Afinal, tinha acabado de pôr no mundo aquele que um dia iria reinar sobre todos os portugueses.

Por agora, a sua missão fora cumprida, e aquele não era o seu lugar. Mas enquanto vivesse não esqueceria a determinação da jovem rainha, nem o desatino que armara no paço, exigindo uma mulher simples do povo para lhe dar assistência em hora tão sagrada. Ainda por cima, logo ela, que acusavam de bruxa e má-mulher! Admiraria para sempre a ousadia e a coragem da fidalga, mas também a sua insanidade. Parir dentro de uma capela?! Onde já se vira tamanho desvario? E... porque não? Deu uma gargalhada e passou pelo pardieiro miserável onde vivia. Escondida nas traseiras, uma desgraçada aguardava pelas suas mãos. Mais um desmancho para fazer. Já lhes perdera a conta! A vagabunda que esperasse! Ainda estava ao serviço do futuro Senhor de Portugal e da sua mãe, a rainha D. Urraca. A donzela era brava.

As aias teriam muito que penar com aquela castelhana de pelo na venta. Mal sabia que estava enganada... Assim nascia Sancho, o Capelo, naquela tarde de 8 de setembro, do ano da natividade de Jesus Cristo de 1209. O segundo rei com este nome a governar em Portugal. Chegou ao mundo em dia maldito, à hora do Diabo, na casa de Deus. Nasceu a custo. Só. Hora negra e trágica foi a sua. Negro e trágico seria também o seu destino... Estes são os ecos de um estranho tempo de temor e escuridão... Estes são os ecos das vozes.

Muitas e diferentes vozes que se levantaram de norte a sul, ensombrando todos os recantos do reino. Gritos de um fado que perpassou a longa noite de muitos desencontros. Rumores que perduram ainda hoje nas ladainhas das velhas; no marulhar das fontes e na cantilena dos riachos; no misterioso mirrar dos frutos e em cada novo ciclo do rebentar da folhagem; nos rodopios do vento suão; no breve sussurro dos bichos rente à terra. Estes são os ecos dispersos do homem mais incompreendido e infeliz que reinou em Portugal; as memórias da mulher a quem se rendeu, cedendo-lhe o corpo e a alma. Num fogo de desejo cego e sem limites se consumiram. Uma insólita história de amor e paixão que os homens do seu tempo amaldiçoaram sem lugar a contemplações. Os ecos da ilusão e da fantasia. Da maldição e da intriga; da discórdia; do desejo; da ambição; da conspiração e da penumbra. Os ecos do infortúnio, da desventura e do desterro. Ecos da vida e da morte... Assim perdurou a sua existência: entre o crepúsculo e a escuridão... Esta é a sua história.

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