Crip Camp: o documentário produzido pelos Obama

Com o casal Obama entre os produtores executivos, chega agora à Netflix Crip Camp: Uma Revolução na Inclusão. A história inspiradora de um acampamento de verão para pessoas com deficiência, onde nasceu o espírito de luta pelos seus direitos nos Estados Unidos.

Não é todos os dias que se veem imagens a preto e branco de um grupo de pessoas com diferentes deficiências a divertirem-se a céu aberto, entre jogos, conversas e cantorias ao som da guitarra. Esta é a "utopia" mostrada em Crip Camp: Uma Revolução na Inclusão, documentário que nos apresenta o Camp Jened, um acampamento de verão localizado no estado de Nova Iorque, aberto entre 1951 e 1977, o qual representou a mais inesquecível das experiências para algumas pessoas com deficiência que nele encontraram a liberdade inexistente na vida em sociedade. Um lugar onde essas pessoas eram simplesmente pessoas, e sobretudo os adolescentes eram simplesmente adolescentes, com tudo o que fazia parte dessa fase, como a primeira paixão ou o desejo de uma certa privacidade.

Realizado por Nicole Newnham e Jim LeBrecht (ele próprio um dos protagonistas), e com Barack e Michelle Obama entre os produtores executivos, Crip Camp traz uma carga inesperada de revelação. Não se trata apenas de entrar nas recordações de um lugar especial, com um significado íntimo, mas perceber como ele representou uma inequívoca influência no futuro de quem o frequentou. Por isso é tão relevante o cruzamento das imagens de arquivo - gravações caseiras de 1971, feitas no acampamento, com entrevistas espontâneas entre os campistas e conversas de grupo em que estes falavam à vontade dos constrangimentos sociais e familiares - com o testemunho de alguns desses participantes e orientadores do Camp Jened.

A princípio, este parece ser um documentário exclusivamente dedicado aos dias felizes nesse acampamento que marcou a vida de muitos. Ou o recuperar de uma memória "escondida" que reivindica o seu lugar dentro da grande crónica coletiva americana. Mas Crip Camp revela-se um olhar bem mais abrangente, evoluindo para aquilo que foi o resultado, à escala social, do espírito de união e dinamismo incutido por essa vivência particular. A saber: a ação cívica pelos direitos das pessoas portadoras de deficiência.

O arranque foi dado por Judy Heumann, uma das campistas, que em 1970 fundou a organização "Disabled in Action" e a partir daí trabalhou fervorosamente contra a discriminação dos deficientes, fazendo crescer o número de pessoas que se juntavam em manifestações. Um dos momentos extraordinários da ação deste movimento aconteceu em 1977, quando um grupo de mais de uma centena de pessoas com deficiência, verdadeiros ativistas, se instalaram durante 26 dias no quarto andar de um edifício federal em São Francisco, num protesto que exigia a implementação de uma lei protetora dos seus direitos. Algo que despertou a simpatia dos Panteras Negras, que chegaram a levar refeições aos manifestantes num gesto de pura solidariedade.

Isto numa altura em que a acessibilidade arquitetónica para deficientes motores era zero e a simples entrada e saída de uma estação de metro correspondia a uma missão quase impossível. Foi a enorme força de vontade destas pessoas que superou todas as barreiras. Dizer isto não é pouco. A evidência dos sacrifícios feitos por quem tem limitações físicas (e não só) é do mais comovente e inspirador que se vê em Crip Camp - e nunca tem um sentido gratuito.

Não estamos perante o tipo de documentário desonesto e manipulador que carrega nas notas dramáticas com música de puxar à lágrima, ou que se centra apenas nos aspetos dolorosos, neste caso, da vida das pessoas com deficiência. Eles estão lá, são relatados e têm importância, mas é acima de tudo a celebração do que essas pessoas foram (e são) capazes de realizar que comanda a alma do projeto. Aí reside a nobreza e probidade de um filme necessário para se olhar com atenção o esforço por trás das conquistas sociais numa América cada vez mais ameaçada na sua base moral. No fundo, Crip Camp tem tudo a ver com a beleza de uma luta pela dignidade humana.

*** Bom

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