Close-up. Celebrar o cinema enquanto comunidade

Na sua 6.ª edição, o Close-up - Observatório de Cinema quer tirar o espetador da solidão do pequeno ecrã. De 16 a 23 de outubro, há filmes, concertos, debates e oficinas na Casa das Artes de Famalicão.

Provar que há uma diferença real entre ver-se um filme sentado no sofá de casa e numa sala escura, com outros espetadores e um contexto, é cada vez mais o desafio dos festivais de cinema. Sobretudo depois de um ano em que a obrigação do recolhimento fortaleceu uma rotina caseira e fez crescer as assinaturas das plataformas de streaming. Sensível a esta questão, o 6.º episódio do Close-up - Observatório de Cinema decidiu fazer dela a alavanca para um programa dedicado à comunidade: aquela que nasce do ato de ver em conjunto, esses espetadores que se reúnem à volta da luz do grande ecrã como que à volta de uma fogueira. Pois bem, as propostas são mais do que suficientes para não deixar apagar a chama.

Um dos pontos fortes das edições anteriores deste Observatório - que não se identifica com o termo "festival" por se tratar de uma experiência mais intimista - foram os filmes-concerto. E neste ano a Casa das Artes de Famalicão recebe dois grandes momentos de música e cinema: a noite de abertura, na próxima sexta-feira, faz-se com Douro, Faina Fluvial (1931) e O Pintor e a Cidade (1956), de Manoel de Oliveira, numa sessão musicada pelos Sensible Soccers (projeto nascido da comemoração dos 90 anos do primeiro filme de Oliveira), e o encerramento, no dia 23, traz o clássico Metropolis (1927), emblema do expressionismo alemão de Fritz Lang, acompanhado pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, sob a direção do maestro Cesário Costa, a partir de uma composição original de Filipe Raposo, o pianista residente da Cinemateca.

Sob o signo da comunidade, há para ver, desde logo, uma exposição com excertos de filmes e documentação pertencente ao acervo de Manoel de Oliveira, e sessões comentadas de títulos como 66 Cinemas, de Philipp Hartmann, o redescoberto O Movimento das Coisas, de Manuela Serra, O belo Minari, de Lee Isaac Chung, e Crash, a obra-prima de David Cronenberg aqui colocada em diálogo com diferentes experiências comunitárias. De resto, experiência comunitária é precisamente o que define o cinema do luso-suíço Basil da Cunha, o realizador de O Fim do Mundo cujo trabalho de mais de dez anos no interior do bairro da Reboleira, na Amadora, surge como um dos destaques do programa, incluindo uma masterclass ministrada pelo próprio cineasta.

Na secção Histórias do Cinema, a proposta é revisitar as filmografias do chinês Wong Kar-Wai e do coreano Hang Sang-soo, realizadores com obras que sondam, numa expressão distinta, as subtilezas das relações humanas. Há ainda conversas à volta de livros, como Ozu, o estudo de Donald Richie dedicado ao mestre japonês - que terá como complemento a exibição de Primavera Tardia (1949) -, além do cinema para escolas e das sessões para famílias, com destaque para O Garoto de Charlot (1921), de Charles Chaplin, clássico de infinita ternura que assinalou o seu centenário no início do ano, e está pronto a ser redescoberto numa cópia restaurada. Razões não faltam, em Famalicão, para inverter os hábitos deixados pela pandemia e responder ao apelo do grande ecrã, naquele espírito de comunidade que anima o insubstituível ritual da sala escura.

dnot@dn.pt

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