Cate Blanchett, uma dona de casa desesperada... contra o feminismo

Acaba de chegar à HBO uma série centrada na luta feminista pela aprovação da Emenda dos Direitos Iguais, nos anos 1970, com Cate Blanchett no papel da mulher que se opôs a esse movimento. Mrs. America não é apenas ela.

Com um sorriso aberto e resposta para tudo na ponta da língua, Cate Blanchett, na pele de Phyllis Shlafly, domina o primeiro episódio da série Mrs. America (HBO). Sorrir, mesmo que esteja desagradada, é o conselho que lhe dão numa entrevista televisiva e que lhe vai servir para a grande performance pública da sua vida. A saber, Shlafly (1924-2016), figura verídica, tornou-se uma ativista conservadora contra a Emenda da igualdade de género e liderou o seu próprio movimento contra as feministas nesses anos 1970. Isto, sempre com um sorriso nos lábios, o cabelo arranjado e vestida como a "típica mulher americana".

Sem qualquer embaraço e com inteligência expressiva, Blanchett agarra nesta personagem, que poderia ser reduzida a uma caricatura unidimensional, e dá-lhe não só genica mas um olhar afiado que nos faz prestar melhor atenção naquilo que determina cada um dos seus movimentos. Mrs. America começa por se centrar nela e na definição mais ou menos rápida dos seus ideais de bandeirinha americana. Curiosamente, Shlafly não é uma figura plana. Desde logo, bem casada e mãe de seis filhos, defende que a "libertação" da mulher está em casa, mas mostra uma ambição que extravasa a simples atitude doméstica. Eis aqui a principal e irónica contradição do seu retrato: estamos perante alguém que se sente tão ou mais capaz do que os homens para tomar uma posição de liderança, mas o que escolhe liderar, precisamente na qualidade de mulher, é a luta contra o movimento feminista, com o objetivo de travar a aprovação da Emenda dos Direitos Iguais (ERA).

Ao observar-se de perto a personagem, é possível perceber que Shlafly é impelida por uma certa frustração com a própria vida e está claramente mais interessada no aumento da visibilidade do seu nome do que na natureza da nova causa. Puro jogo de estratégia. E é sobretudo desta ideia de braço de ferro e desejo de palco político que se faz Mrs. America, um retrato feminino alargado, com os episódios a ganharem dinâmica no momento em que o confronto entre as duas partes ganha vigor para além das questões ideológicas. O que importa é a ação das mulheres, quer de um lado quer do outro. A capacidade de "fazer acontecer" existe em doses semelhantes.

Por isso mesmo também se vão destacar na história Shirley Chisholm (Uzo Aduba), a primeira mulher negra a candidatar-se à Presidência dos Estados Unidos, Gloria Steinem (Rose Byrne), como o rosto pop do feminismo, ao lado de Betty Friedan (Tracey Ullman) e Bella Abzug (Margo Martindale). Elas serão inimigas de topo de Phyllis Shlafly e das suas aliadas donas de casa, que as consideram a grande ameaça à "família tradicional americana". Assim, entre o drama e o toque de humor, a série põe na fervura os lugares comuns tanto feministas como antifeministas, seguindo-se a afinação de ambos os discursos e métodos políticos - um deles envolve a confeção de um pão especial, por parte das ativistas conservadoras, para aliciar votos...

Pode dizer-se que não falta cor e energia feminina a Mrs. America, série que monta o cenário histórico de um contexto social, político e cultural para trabalhar a memória coletiva americana, inclusive através de imagens documentais como aquelas que aqui e ali irrompem nos episódios. Uma revisão da matéria em boa altura.

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