Cannes celebra as novas aventuras da cinefilia

O irlandês Mark Cousins continua a viajar pela história dos filmes. O seu trabalho The Story of Film: A New Generation é o primeiro grande acontecimento da 74ª edição de Cannes.

A pose do crítico irlandês Mark Cousins, numa sala de cinema, olhando as estrelas (mas tem os olhos fechados...), não é exactamente uma imagem de esgotamento, muito menos de desespero. Talvez a possamos caracterizar como a mensagem, de uma só vez sonhadora e expectante, de um espectador que não desistiu das maravilhas, perplexidades e infinitas dúvidas ligadas à evolução dos filmes. É essa, afinal, a teia temática em que se move o seu The Story of Film: A New Generation, primeiro grande acontecimento de Cannes 2021 (ainda antes da apresentação oficial de Annette, de Leos Carax, título de abertura da secção competitiva).

Cruzando observação e interrogação, investigação fílmica e filosofia do cinema, Cousins retoma, assim, a sua obra monumental The Story of Film: An Odyssey (editada em DVD pela Midas Filmes, com o título A História do Cinema: Uma Odisseia), acrescentando-lhe o capítulo que se impunha. A saber: uma viagem multifacetada pelos filmes que foram feitos no período 2010-2021, incluindo, portanto, os sinais da pandemia.

Como sempre, o leque de escolhas de Cousins envolve uma esplendorosa diversidade, desse modo celebrando os contrastes, porventura as contradições, dos filmes que se fazem em todos os recantos do planeta, dos estúdios de Hollywood aos objectos mais esotéricos da produção asiática. Viajamos, assim, da aventura perturbante de Joker, do americano Todd Phillips, até aos enigmas metafísicos de Cemitério do Esplendor, do tailandês Apichatpong Weerasethakul, sem que as suas diferenças gerem qualquer qualquer bloqueamento factual ou argumentativo.

Bem pelo contrário, estamos perante um trabalho tanto mais envolvente e fascinante quanto Cousins consegue, de facto, concretizar as suas deambulações como uma variante (audiovisual) do trabalho específico de um crítico e investigador da história do cinema. Os resultados possuem uma pertinência tanto mais actual quanto a pluralidade que Cousins expõe e investiga não se alheia (bem pelo contrário!) da nova conjuntura cinéfila criada pela diversificação dos circuitos de difusão dos filmes.

Assim, The Story of Film: A New Generation prolonga o didactismo (pleno de alegria de descoberta e desejo de partilha) que marcava os trabalhos anteriores de Cousins, incluindo esse tão especial retrato íntimo que é Os Olhos de Orson Welles. Sempre atento às convulsões da produção, Cousins analisa também as novidades de difusão da última década, desde as experiências em VR ("realidade virtual") até, inevitalmente, o desenvolvimento exponencial das plataformas de streaming. Como ele próprio disse numa entrevista dada à Variety (5 julho), a propósito da sua presença em Cannes, trata-se de estar atento ao modo como se move a "roda" do cinema, evitando o vício de celebrar a novidade pela novidade: o que importa são "as novas possibilidades narrativas e emocionais."

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