Brilha Rio. De volta a uma Lisboa luminosa 

A exposição de 70 letreiros comerciais do século XX vai estar no parque de estacionamento do Prata Riverside Village, em Marvila, todos os fins de semana até 5 de março.

Ao descer as escadas para a garagem no estacionamento da Prata Riverside Village, viajamos no tempo para uma Lisboa da década de quarenta e cinquenta. As tabuletas de vidro ou de plástico, neons, portas corta-vento, caixas de luz e letras em metal retiradas das fachadas ganharam uma nova vida e passaram a ser esculturas.

Até dia 5 de março, de sexta a domingo, a exposição Brilha Rio, nome inspirado no letreiro do restaurante da Praça do Chile, está aberta a todos. E a entrada é livre.

É o resultado de uma parceria entre a Plataforma P"la Arte e o Prata Riverside Village, fazendo uma transição para os tempos atuais do que era a história do comércio da cidade de Lisboa. "Esta área da cidade era uma área que não estava aberta e que agora passou a estar e portanto isto são iniciativas que visam dinamizar o espaço e toda a parte cultura," afirmou Luís Gamboa, COO da VIC Properties, promotora responsável pelo Prata Riverside Village.

A exposição Brilha Rio está organizada por áreas comerciais: cabeleireiros, sapatarias, vestuário, restauração, automóveis, oculistas e hotelaria. Existe também uma pequena parte dedicada apenas aos neons com um mostruário e um vídeo de um dos colaboradores do projeto a fazerem vidros.

O neon, as luzes e as cores contam histórias e memórias individuais. Muitos visitantes da exposição voltam a reviver com emoção as suas experiências com os letreiros das lojas e empresas que conheciam. "A mim marcou-me um que está ali da empresa de catering que organizou o meu casamento e que eu não esperava encontrar." afirmou Luís Gamboa.

O neon não é a única pérola da exposição. O painel publicitário dos óleos BP pintado pelo autor de banda desenhada Fernando Bento está exposto numa das paredes da garagem. Tem um efeito de vento e relevo como se as personagens estivessem mesmo a conduzir. No entanto, Paulo Barata e Rita Múrias, fundadores do projeto, afirmam que todos os letreiros guardam um valor especial para eles, "até os apagados" e os que não conseguiram restaurar.

Alguns dos antigos proprietários dos letreiros voltam à exposição para ver o que lhes pertencera. As netas do senhor Machado, oculista, já visitaram várias vezes a exposição para tirar fotografias. "É um orgulho para elas esta memória estar aqui viva, portanto nós preservamos também essa memória", explica Rita.

A história da cidade antiga não está apenas nos letreiros, o casal de designers acredita ser importante contextualizar cada um deles. Ao longo da exposição, são acompanhados de textos explicativos que contextualizam as peças e a época. Toda a pesquisa desempenha uma parte importante em todo procedimento, vindo de arquivos privados e arquivos da câmara de Lisboa. "Acima de tudo, o que importante é que isto não seja só visual como uma casa de antiguidades. Não, isto não é museológico, é muito expositivo e conta uma história." explica Rita, que está atualmente a tirar um doutoramento nesta área na faculdade de Arquitetura.

Por vezes, a informação sobre os letreiros é perdida pelo abandono nas fachadas das lojas ou por estas terem há muito fechado. Nestes casos, os designers vão pela memória do lugar ou então falam com alguém que se recorde da história. Outros não têm a mesma sorte e "nas legendas a acompanhar o letreiro tem só a data porque nem sempre nós conhecemos a fundação da loja".

Projeto Letreiro Galeria

Primeiro foram as letras, depois as palavras e finalmente vieram os letreiros comerciais. Assim, começou o fascínio de Paulo Barata e Rita Múrias pelas tabuletas das praças e ruas de Lisboa do século XX.

Quando a cidade estava a atravessar uma fase de transformação e remodelação urbana, as lojas abriam, fechavam e os letreiros desapareciam. O casal decidiu começar o Projeto Letreiro Galeria em 2014. Paulo estava a trabalhar numa revista e Rita tinha acabado de sair de um atelier e queriam começar algo que envolvesse a comunidade e o design. "Começámos a perceber que alguma coisa se estava a passar e que queríamos então preservar e salvaguardar estes letreiros" explicou Rita. "Voltávamos para fotografar, as obras tinham começado e os letreiros tinham ido para o lixo," acrescenta Paulo.

Da coleção já fazem parte 250 letreiros. Rita e Paulo ambicionam criar um museu e um espaço de oficina para os colaboradores que tratam do restauro das peças. Um espaço onde todos possam usufruir da memória de uma cidade desaparecida.

Texto de Mariana de Melo Gonçalves

Editado por Helena Tecedeiro

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