Exclusivo Benedetta. A legitimação do cinema maldito

Um filme baseado nos milagres de uma freira italiana maldita assolada por assombrações sexuais. Assim é Benedetta, de Paul Verhoeven, um dos filmes mais mediáticos do Festival de Cannes. Ensaio sobre uma câmara chamada desejo.

Numa entrevista em Cannes, Virginie Efira, a protagonista desta história medieval, refletia se um filme como este, com sexo lésbico explícito e violência pretensamente profana, poderia causar celeuma. Será que o escândalo no cinema é um conceito obsoleto? No caso de Benedetta, o novo filme de Paul Verhoeven, a questão levanta outras questões, a começar pela maneira como se dilui nos media a própria noção de "escândalo". Em última instância, a transgressão já não é o que era - goste-se ou não de um objeto destes, o seu conteúdo, por muito que seja "chocante" vermos uma freira masturbar-se com um vibrador esculpido de uma estatueta da Virgem Maria, parece que se dilui nesta atual cultura de ruído. Outra das possíveis polémicas do filme, o seu eventual male gaze em tempos de paisagem de #MeToo, também se arrisca a ser engolido ou obliterado. Nada que minimize o mais importante neste trabalho, a liberdade de um cineasta a filmar sexo sem pruridos. A liberdade de Paul Verhoeven, ponto final, cineasta que põe em marcha um questionamento das possibilidades de encenar o desejo feminino, sobretudo quando aponta a Idade Média como contraponto a um mundo contemporâneo em que as sociedades heteronormativas podem ainda recuar perante essa encarnação de um orgasmo feminino.

Vamos falar de desejo? Um filme sobre a transbordante vibração do corpo feminino filmada por um homem, algo inflamável nestes tempos...

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