Exclusivo Beijinhos à mamã

A memória familiar e o rasto dos afetos num filme em forma de carta de amor às mães. A Metamorfose dos Pássaros revela uma realizadora, Catarina Vasconcelos, capaz de produzir um dialeto de imagens que ressoam um vínculo íntimo e universal.

Até ver, é possível que seja o mais belo filme português a chegar este ano às salas. Um trabalho delicado que parte do "ofício da saudade" mas não cai no saudosismo. Um baú aberto com recordações da vida no mar e em terra que remete para a infância em qualquer tempo, ou, em particular, para os tempos da colonização (ouve-se falar, a certa altura, de Cabo Verde, Angola, Moçambique). Os elementos da natureza cruzam-se aqui com objetos, as palavras em off impregnam planos estudados ao milímetro dentro de uma segura consciência formal, e o cinema, esse cresce como erva daninha por entre toda esta amálgama que é, no fundo, a narração de um ADN. Bem-vindos a A Metamorfose dos Pássaros, primeira longa-metragem de Catarina Vasconcelos.

O filme que começou em Berlim o seu percurso venturoso nos festivais internacionais, centra-se num íntimo diálogo geracional. A realizadora, que nunca conheceu a sua avó Beatriz, recua a essa forte referência na família para deambular por um passado também ele não vivido, quando o avô, oficial da marinha, amava a mulher e os filhos à distância de um oceano. Tempos de ditadura captados por uma linguagem afetiva que procura não assustar os pássaros, enquanto trabalha as texturas e a natureza morta em imagens que sugerem um olho artístico ao estilo de Agnès Varda - a cineasta, por excelência, da criatividade com biografia dentro.

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