As melhores biografias, memórias e diários para este Natal

Seria possível imaginar que Barack Obama e Bruce Springsteen conversassem durante horas? Que após mais do que uma tentativa, Philip Roth tivesse uma biografia? Que Napoleão ainda seduza leitores? Reescrever as vidas de Estaline e de Hitler? Ter o testemunho de Ai Weiwei em primeira mão? Recordar os bocados de tempo que fizeram a vida de Jorge Amado? A resposta é sim, a todas estas figuras que decidiram passar-se a livro e deixar-se conhecer melhor e que neste Natal chegam às livrarias

Talvez seja o livro mais inesperado desta época de Natal este que reúne as conversas entre o 44º presidente dos Estados Unidos e o músico Bruce Springsteen e que é catalogado tanto nos géneros de História dos EUA como no de Música. O próprio Obama disse sobre estes diálogos: "À primeira vista, Bruce e eu pouco temos em comum. Ele é um branco que vem de uma pequena povoação de New Jersey e eu um negro de origens mistas nascido no Hawai... ele é uma estrela do rock & roll e eu não sou assim tão cool". No entanto, Renegados; Nascidos nos EUA não é um objeto que se estranhe e ainda não se deu início à leitura e já o leitor acha a dupla uma parceria perfeita.

Na Introdução, o ex-presidente afirma que "as boas conversas não seguem um guião. Tal como uma boa música, estão repletas de surpresas, improvisos e desvios". E estas 304 páginas bem o demonstram quando um - Bruce - recorda os motins raciais em Ashbury Park e Obama quer saber como foram vividos; ou como Obama refere a sua adolescência: "A minha educação foi tão invulgar, tive de descortinar essas coisas. No Havai não houve motins. Não havia um outro lado da cidade onde os negros tinham de viver". Outro tópico que lhes importa é uma das formas de viver nos Estados Unidos: a estrada. "A América ainda parecia ser grande e a estrada parecia era plena de romantismo. Atravessava o país até à Califórnia...", conta Bruce, enquanto Obama conclui: "Lembro-me de olhar pelas janelas dos autocarros, dos comboios e de carro para quilómetros de milheirais, de deserto, de floresta, ou de montanhas, e pensar imagina aonde podes ir e, por arrasto podermos fazer o que quisermos e sermos quem quisermos, não é?"

As conversas entre ambos decorrem em 2020 a propósito de um podcast com o mesmo nome que o título do livro, mas a amizade vem desde o último ano da presidência, quando Obama convida Bruce para um concerto na Casa Branca. Bruce esquece a guitarra, opta pelo piano para acompanhar as suas canções. Logo ali Obama aconselha Bruce a partilhar a prestação com outros públicos. Recordam o momento em que Obama cantou e perdeu a imagem de que o músico era muito tímido. Há confidências presidenciais muito curiosas: "És dez anos mais velho do que eu, tem mais experiência de vida, eu ainda estou na fase da aprendizagem..." Bem como dizeres de Bruce inimagináveis: "Eras uma criança quando Born To Run foi lançado..."

As frases finais são: "Aprendi algumas coisas" por Obama; "Também eu", por Bruce. Pelo meio ficam análises sobre a "nação americana" segundo a visão do Presidente: "Enquanto conversava com o Bruce, demos por nós a voltar ao ponto de partida, a perguntar-nos: o que será necessário para restaurar a fé na promessa americana?" Renegados; nascidos nos EUA nunca deixa esquecer a capa do disco Born in the USA, e é o melhor road-book para quem gosta de música e uma boa pitada de política. Temas, sem dúvida, que unem tanto um como o outro dos dois conversadores.

Renegados; nascidos nos EUA

Barack Obama e Bruce Springsteen

Editora Objectiva

304 páginas

É um título pomposo o que Blake Bailey escolhe para o retrato biográfico que fez de um dos mais importantes escritores norte-americanos: Philip Roth - A Biografia. Mas escrever essa biografia seria o desejo de qualquer autor e as 1110 páginas agora lançadas em Portugal confirmam tal intenção, mesmo que fosse conhecido o desejo de Roth em controlar a imagem que deixa para o futuro, tanto assim que até escreveu um "manual", o Notas para o meu biógrafo, uma resposta às confissões da sua ex-mulher.

Bailey não foi a primeira escolha de Roth, mas o seu trabalho na biografia de John Cheever tornou-o relevante. Roth pediu-lhe para que o "tornasse interessante" em vez de o "reabilitar" e não se focasse na questão sexual que em muito define o homem que escreveu três dezenas de títulos e em que esta vertente está sempre muito presente. As críticas na imprensa a esta biografia foram boas e passados três anos sobre a morte de Roth ainda há muita gente curiosa em o conhecer muito melhor e ter uma interpretação de quem escreveu algumas das obras mais importantes da literatura norte-americana contemporânea. O autor da biografia parece feliz com o resultado e isso nota-se no registo, afinal o seu antecessor foi despedido por Roth, que alegou "ficar lixado" com a forma como era interpelado.

Como a maioria das biografias, Bailey começa pelos antepassados de Roth e a primeira imagem que ilustra esse livro é do futuro escritor ainda criança. A legenda diz: "Bess com o seu adorado segundo filho na praia de Belmar. «Aquele que é amos pelos seus pais é um conquistador, gostava Roth de dizer mais tarde, no auge da sua glória". Com um exame profundo às suas paixões, Bailey chega às duzentas páginas com um Roth já bem conhecido. Quando chega às trezentas páginas e outras mulheres, já Roth firmara os seus créditos e era adorado pela editora que o publicava. Quando chega às 400 páginas já houve muitas mais mulheres e O Complexo de Portnoy faz alarido devido a temas íntimos nunca antes considerados como literatura...

Onde foi Bailey investigar toda a vida de Roth além das entrevistas com o autor, conhecidos dele, amigos e menos amigos, conversas com o anterior biógrafo... Esclarece o processo nas Notas: "Roth tinha em casa quilómetros de arquivos pessoais"; ao visitar a Divisão de Manuscritos da Biblioteca do Congresso à qual Roth doara o seu espólio, Bailey sente-se como no filme Citizen Kane, como o magnata sobre milhares de páginas. Da escrita há uma frase que sintetiza muito do biografado: "A verdade é que não tenho outros interesses. O meu interesse é resolver os problemas que a escrita de um livro me levanta." E o biógrafo fez-lhe a vontade em mais de mil páginas, expondo muita da obscenidade de Roth aos seus leitores com uma imensa coletânea de frases picantes.

Philip Roth - A Biografia

Blake Bailey

Editora D. Quixote

1110 páginas

O artista Ai Weiwei começa as suas memórias assim: "Nasci em 1957, oito anos após a fundação da 'Nova China'. O meu pai tinha quarenta e sete anos. Durante a minha infância e adolescência, ele raramente falava sobre o passado porque tudo estava amortalhado no denso nevoeiro da narrativa política dominante e qualquer investigação de factos corria o risco de provocar repercussões demasiado horríveis para imaginar. Para satisfazer as exigências da nova ordem, o povo chinês sofreu um definhamento da vida espiritual e perdeu a capacidade de narrar os acontecimentos tal como eles tinham ocorrido na realidade. Só comecei a refletir sobre isto meio século mais tarde." É a partir de muita desta reflexão que Ai Weiwei desenvolve este livro, tanto na perspetiva do homem, como na do artista e do ativista, em muito através do legado do pai, o poeta Ai Quing, tão famoso como proscrito pelo regime, e bastante através da sua atividade criativa ao longo dos tempos. Ao olhar-se a si próprio, Ai Weiwei percorre a história do seu país, de onde sai para estudar Arte nos Estados Unidos na década de 1980. Anos mais tarde regressa à China e que lhe aconteceu é conhecido: preso pelo regime devido à defesa dos direitos humanos e a fazer uma arte que desafia os cânones do seu país, exilando-se na Europa a partir de 2015 (vive atualmente em Portugal).

O desfiar das suas experiências é grande, mas pode-se destacar um parágrafo que o caracteriza de forma muito perfeita (p.343) e que aconteceu durante uma intervenção pública: "Herta Müller tinha uma pergunta para mim: Era possível que eu estivesse a sobrestimar o poder da Internet para mudar as coisas? Ela duvidava de que a rede tivesse um impacto tão grande: é fácil os jovens entusiasmarem-se com a atividade na Internet, reconheceu, e podem ter a sensação de que é possível mudar a sociedade de forma relevante, mas os ditadores são muito arrogantes e prendem ou matam quem querem. Eu concordei que ela podia ter razão: a simples denúncia do totalitarismo não consegue uma transformação da sociedade como um todo; a verdadeira mudança requer todo o tipo de condições favoráveis. Não obstante, defendi a resistência."

1000 anos de alegrias e tristezas - Memórias

Ai Weiwei

Editora Objectiva

464 páginas

Adam Zamoyski é um especialista em Napoleão e tem uma quantidade de leitores muito grande, afinal aquele que será um dos franceses mais famosos ainda seduz muita gente. Com a escrita de Napoleão - O homem por trás do mito, o historiador considera que o desvenda a outro nível e em definitivo. O modo como começa a biografia mostra imediatamente uma das facetas do militar: "As pessoas enchiam as ruas [no dia 10 de dezembro de 1779] que conduziam ao palácio com a esperança de vislumbrar o herói do dia, mas os modos reservados deste defraudaram as suas expectativas".

No capítulo II volta ao passado de Napoleão e explica-o a partir de um dos "lugares mais pobres da Europa, a ilha de Córsega". A partir daí o tom militar vai-se sobrepondo, com mapas a mostrar os feitos, e várias descrições da sociedade de então, que permitem refazer o seu percurso de vida. Em jeito de conclusão, Zamoyski define Bonaparte dotado de "qualidades extraordinárias" que, no entanto, nunca o fizeram ultrapassar a escala do "homem normal em muitos dos aspetos da sua vida". Não aceita a versão de biografias anteriores que o elevavam a grandezas pouco comuns, quanto mais não seja porque a par de todas as suas glórias é dono de um dos maiores desastres militares: a invasão da Rússia em 1812.

Um dos interesses do leitor português será conhecer mais sobre as invasões francesas que destruíram Portugal, mas essas páginas - entre as 750 do volume - são poucas sobre esta temática. Uma meia dúzia, mas Napoleão nunca cá veio ou a História seria mais entusiasmante! Mesmo assim conta como uma parcela do nosso país foi entregue num acordo entre Napoleão e Elisa: "O processo foi bastante amistoso e, depois disso, foram juntos à ópera no Scala de Milão". Nesta biografia de Napoleão contam mais as grandes campanhas por que ficou conhecido do que os feitos mesquinhos dos seus exércitos maltrapilhos que chegaram ao território nacional e que com a conivência da fuga de D. João VI para o Brasil aqui "pernoitaram" e roubaram em sucessivas tentativas.

Napoleão - O homem por trás do mito

Adam Zamoyski

Editora Crítica

768 páginas ilustradas

Nunca é de mais conhecer os protagonistas mais cruéis da história do século XX e entre estes há dois que se destacam: Hitler e Estaline. O historiador Laurence Rees dedicou trinta anos da sua vida académica a esta biografia que inclui num único volume os referidos estadistas, que percorreram uma parte da sua vida em chão comum. Ambos os ditadores se distinguem por terem sido capazes de situações que não revisitadas dificilmente se acreditam ser verdadeiras. Para este trabalho, Rees manteve contactos com soldados de ambos os exércitos de Hitler e de Estaline, os que integraram a Wehrmacht e o Exército Vermelho, concluindo de uma forma clara que pouco mais eram do que os dois lados da mesma moeda.

Além dos que serviram nas frentes de combate, o historiador também recolheu depoimentos de quem apoiou ambos ou de artistas que contribuíam para as duas propagandas. Daí que conte como o cartoonista Boris Yefimov era obrigado a apresentar os seus desenhos à censura de Estaline antes de serem publicado e de como os realizadores de cinema que faziam a propaganda do regime se sujeitavam também ao veredicto de Goebells. O período em estudo é o entre 1939 e 1945, época em que Hitler e Estaline partilharam a sua ambição militar, primeiro enquanto parceiros e posteriormente como grandes adversários. O autor faz um aviso: "Embora esta seja uma obra de História, acredito que tem especial relevância para os nossos dias. Ainda existem muitos tiranos no mundo. E alguns deles possuem meios para nos destruírem".

Hitler e Estaline

Laurence Rees

Editora Vogais

621 páginas

Apesar de lançado em agosto, a imensa produção editorial do pós-pandemia fez com que este livro quase passasse ao lado das novidades literárias, contudo este diário de Jorge Amado é extremamente importante para se conhecer o escritor e a sua circunstância. Dono de uma prosa que o tornou um dos autores fundamentais para se conhecer a literatura do Brasil e, principalmente, algumas das suas partes de território distantes das grandes capitais, Navegação de Cabotagem compila em muito o percurso de vida, de opiniões e da sua escrita.

O grafismo é o de um diário, em que se sucedem verbetes que não seguem exatamente uma ordem cronológica mas têm uma lógica. O prefácio de Jorge Amado é um julgamento severo àquilo em que acreditou - como muitos outros - e que conforme vai vendo a vida passar se torna obsoleto: "Teorias, ideologias que seduziram intelectuais, mobilizaram multidões, comandaram lutas, revoltas, guerras em nome da felicidade do homem, dividiram o mundo em dois, um bom, um ruim, se revelam falsas, pérfidas, limitadoras: conduziram à opressão, não à liberdade e à fartura". É o "resumo" de oitenta anos de vida e dentro esses anos relata os factos que não fazem parte da História grandiosa mas da do povo, diz Amado.

As memórias sobre portugueses são várias, como a lembrança de Miguel Torga, que aproveita para questionar o desinteresse da Academia Sueca pelos autores de língua portuguesa; de várias passagens em que Eça de Queiroz é citado; as suas vindas a Portugal sob a ditadura e, posteriormente, Fernando Namora a recear a Revolução... não faltam outras referências internacionais que se cruzaram consigo: Jack Lang, Sartre, Pablo Neruda, Fidel... e centenas de figuras da cultura e da política brasileiras. É uma verdadeira sucessão de memórias que evocam outras memórias nos leitores.

Jorge Amado

Editora D. Quixote

518 páginas

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