Amor e sexo, fidelidade e traição em paisagens mexicanas

Com assinatura de Carlos Reygadas, um dos nomes mais internacionais do atual cinema mexicano, aí está "O Nosso Tempo", retrato íntimo de uma crise conjugal em que o cineasta e a sua mulher, Natalia López, interpretam as personagens centrais.

Carlos Reygadas, cineasta mexicano nascido em 1971, é um verdadeiro fenómeno internacional. No sentido mais básico (entenda-se: financeiro) que tal classificação pode envolver. Repare-se na diversidade de participações na produção do seu título mais recente: O Nosso Tempo - estreado no Festival de Veneza de 2018, agora lançado nas salas portuguesas - foi rodado com o envolvimento de empresas de México, EUA, Dinamarca, França, Suécia, Noruega, Alemanha e Suíça.

Não simplifiquemos, claro. Se há uma globalização cinematográfica, ela passa, como é óbvio, por estratégias de produção deste género e escusado será dizer que nenhum filme é "melhor" ou "pior" por causa do modo como foi financiado.

Acontece que, desde a sua longa-metragem de estreia, Japón (2002), o universo temático de Reygadas corresponde a uma espécie de sensibilidade "niilista" que, hoje em dia, encontra acolhimento fácil em muitos mercados. Dito de forma esquemática (porque estamos perante um pensamento esquemático), a sua visão relança uma certa ideologia "new age", segundo a qual todas as relações humanas estão assombradas pelos equívocos do sexo e do amor, nada mais restando a não ser a verdade telúrica da natureza. Com uma moral insólita: todos são culpados da sua própria inocência...

O Nosso Tempo não escapa a tal sistematização. Nele encontramos um casal, proprietário de um enorme rancho cujo principal negócio é a criação de touros: Esther assegura a gestão, enquanto o marido, Juan, concilia a escolha e tratamento dos animais com o trabalho de poeta. Vivem de acordo com um pacto conjugal segundo o qual as questões de fidelidade e traição seriam superadas pelo compromisso de cada um se dispor a aceitar as eventuais ligações amorosas do outro... O que, enfim, não corre como desejaram ou imaginaram.

Por momentos, podemos ser levados a supor que Reygadas está a tentar refazer uma matriz dramática que Agnès Varda experimentou, com sublimes resultados, em A Felicidade (1965). Ou até que a desmontagem dos laços conjugais possa envolver o misto de realismo e onirismo que encontramos em Belle de Jour (1967), de Luis Buñuel. Verdade seja dita, Reygadas não está a copiar ninguém. Terá mesmo assumido O Nosso Tempo como um dos seus investimentos mais pessoais, tanto mais que é ele que compõe a personagem de Juan, com Natalia López, sua mulher, a interpretar Esther, ela que já tinha sido dirigida pelo marido em Luz Silenciosa (2007) e Post Tenebras Lux (2012). Isto sem esquecer que os filhos do casal representam os filhos de Esther e Juan.

Daí os resultados paradoxais. Nas suas quase três horas de duração, o filme entrega-se a uma deambulação paralela às das próprias personagens, o que, convenhamos, nem sempre favorece a consistência final. O certo é que há cenas que Reygadas concebe como verdadeiros desafios dramáticos e narrativos, criando acontecimentos visceralmente cinematográficos que dispensam a "ilustração" de ideias mais ou menos simplistas. Lembremos o concerto a que Esther vai assistir, em que escutamos uma vibrante peça para orquestra e timbales com a participação da percussionista Gabriela Jimenez e, sobretudo, o espantoso plano-sequência de descida para a Cidade do México, registado do "ponto de vista" do trem de aterragem de um avião, enquanto em off escutamos a mais tocante confissão de Esther, lida com delicada e contida emoção por Natalia López.

Mesmo considerando que O Nosso Tempo trata as personagens secundárias de modo mais ou menos "decorativo", faltando-lhe algum rigor e contenção na gestão dos tempos narrativos, creio que estamos, afinal, perante um dos trabalhos mais coerentes de Reygadas (a par de Luz Silenciosa, tendo como pano de fundo uma comunidade menonita no México). Até porque, por uma vez, os elementos naturais são tratados como pontuações dramáticas fundamentais, sensuais e enigmáticas, para o desenvolvimento da intriga, instalando uma curiosa e envolvente sensação de ficção "documental".

* * * Bom

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