Agnieszka Holland "Não acredito no cinema dos biopics!"

Estreia-se esta quinta-feira Charlatão, de Agnieszka Holland, cineasta polaca que vai até às memórias da Checoslováquia contar uma história de um verdadeiro mito popular. O DN entrevistou-a em novembro, durante a sua visita ao LEFFEST.

Uma cineasta a filmar os misticismos e os folclores de uma Europa de Leste rendida a crenças e superstições do pós-guerra. Charlatão é a inacreditável história verdadeira de um curandeiro que se tornou lendário a curar chagas e doenças na Checoslováquia ocupada. Agnieszka Holland evita academismos e filma o tumulto interior de um homem marcado por um dom e sempre envolto no maior dos mistérios, a começar pela sua sexualidade escondida.
Nesta conversa, a diretora da Academia Europeia de Cinema fala também da sua passagem pelas plataformas de Hollywood e vinca a sua crença num cinema essencialmente narrativo. Uma cineasta polaca que aqui assina um dos seus melhores filmes.

Acredita que o cinema europeu pode ser também percecionado como um arquivo sobre a nossa História?
Na sua essência, o cinema é História. Não estou a ver o futuro desta arte sem a reflexão histórica, não concorda? O cinema mais forte e mais resistente é aquele que aborda predominantemente a nossa História. Sabe, esse é o cinema que atrai a maioria dos espetadores de cinema. Acredito muito na importância da História, e é esse o cinema que quero fazer, por muito que também seja apologista dos filmes mais líricos e visuais... As pessoas estão cada vez mais recetivas para ver cinema narrativo, mesmo quando continua a haver uma tradição do chamado "cinema puro".

Esta sua "história verídica" poderia ter a roupagem do telefilme, mas opta antes por um olhar estritamente cinematográfico...
Concordo, mas o cinema é uma narrativa audiovisual. E a narrativa é uma componente tão importante como as outras....O meu cinema tem três prioridades: a experiência, a emoção e a empatia - chamo-lhe os três "és". Na experiência, claro, está a sensualidade da estética, coisa que só se pode distinguir no grande ecrã - os meus filmes não são para serem vistos num smartphone.

Sente que o cinema europeu no qual acredita tem algo de ato de resistência?
Eu já fiz uma série para a Netflix... [1983] Digamos que foi uma experiência profissional... Creio que é importante estarmos abertos a novas formas. Também já fiz coisas para a HBO, onde até consegui fazer trabalhos bem pessoais, sobretudo o Shot in The Heart, que foi lançado mesmo perto do 11 de Setembro - ninguém o viu. Basicamente, afirmo que não acredito que a televisão, as plataformas e o cinema têm agora de estar separados. Claro que prefiro sempre a experiência do cinema nas salas, mas nos dias que correm é importante perceber quais os caminhos da distribuição. A grande crise começou antes da covid, com a mudança de hábitos de consumo de cinema das novas gerações. Os jovens hoje estão presos num mundo virtual, torna-se complicado convencê-los a irem aos cinemas. Por outro lado, depois desta pandemia, esses mesmos jovens até podem vir a recuperar a vontade de voltarem às salas. Temos de lutar pelo cinema! Não só pelos fundos europeus, mas sobretudo por uma ideia de histórias que aproximem o público desta arte.

Em Charlatão narra uma história verdadeira de um curandeiro que vê as mudanças da antiga Checoslováquia. Apesar de ser um caso muito específico, sente-se que quis fazer um filme para o chamado "grande público"...
A maioria dos meus filmes são mainstream, mesmo quando por vezes abordo temas polacos mais obscuros. Tento sempre encontrar uma linguagem universal, de forma a que todos possam partilhar a experiência. A maneira como construo cinematograficamente as minhas histórias tem sempre muitas portas de entrada e é precisamente isso que tento: deixar algumas delas abertas a públicos com contextos variados, por muito que depois cada um veja um filme ligeiramente diferente. O mais importante para mim são as emoções. Só assim consegui trabalhar nos EUA.

Tem um fraquinho por histórias baseadas em acontecimentos verdadeiros, não tem?
De alguma forma, quem tem esse "fraquinho" é o mercado. Mas gosto de me aproximar destas histórias como se de uma ficção se tratassem - foi o que fiz com o este curandeiro de Charlatão. Tornei-o numa personagem próxima de mim e a quem fui capaz de colocar questões que podem ser um mistério para nós próprios. Diria que não acredito mesmo no cinema dos biopics, sobretudo porque nunca sabemos aquilo que está no íntimo dos retratados. Nesse cinema assiste-se muitas vezes à hagiografia mais seca. A imaginação consegue criar a realidade!

Diria que este Charlatão pode ser visto como um filme de época mas que fala do nosso presente?
Acho que sim. Faulkner escreveu que o passado não está morto e que talvez nem seja passado. Julgo realmente que aquilo que já aconteceu pode ser o presente. Ao olhar para o passado, olho sempre com os olhos de hoje, ou seja, tem de ser relevante. Mr. Jones, o meu filme anterior, era sobre os anos 30, mas também era sobre o que se passa hoje, em especial com o que se está a passar com a corrupção dos media, fake news, etc. Sou uma pessoa muito conectada com a realidade e com o que se passa no mundo. É fascinante e aterrador tentar perceber onde estamos a nível histórico. Às vezes, para responder às perguntas que faço a mim mesma é necessário regressar ao passado.


Mas como é o seu processo de tentar encontrar as histórias da História para os seus filmes?
É um processo da mais profunda intuição, não lhe consigo explicar. Nunca encontro justificação para o que filmo, apenas sinto que é aquilo e pronto. Só quando o filme está pronto é que tento encontrar justificações. Em algumas das minhas justificações invento muita coisa... Por mês, leio uns 10 guiões e apenas um ou dois são mesmo bons. Sei sempre quando um guião me faz pensar: "Gostava de ver este filme." Depois, subitamente, começo mesmo a ver imagens que o guião me sugere e não paro de pensar no projeto. Um argumento tem de me inspirar! E há aquele momento em que se torna urgente fazer o filme. Uma urgência que vai crescendo. Por outro lado, o meu agente e os produtores também me pressionam para fazer filmes que sei que não quero fazer. O que é terrível, pois pagam-me muito para fazer esses!

dnot@dn.pt

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