A vida e a morte entre o drama e a comédia

François Ozon assina "Tout S"est Bien Passé" sobre a odisseia de um velho senhor que quer ter direito a uma morte assistida.

Apresentado na secção competitiva do Festival de Cannes, Tout S"est Bien Passé, do francês François Ozon, corre o risco de ficar rotulado como um filme "sobre" a eutanásia. Trata-se de fazer o retrato de um velho senhor de saúde cada vez mais frágil que decide que não vale a pena continuar a viver. De tal modo que investe todas as suas energias, incluindo a mobilização relutante das duas filhas, na montagem de um protocolo de morte assistida numa clínica na Suíça.

Corremos o risco de atraiçoar a riqueza humana e a subtileza cinematográfica do trabalho de Ozon se "obrigarmos" o filme a escorregar para dentro de um desses caldeirões mediáticos em que tudo, desde o VAR no futebol até à eutanásia, parece poder resumir-se a um combate de galos entre os "prós" e os "contras"... Afinal, o título avisa-nos que "tudo se passou bem", num jogo de calculada ironia e cândido humor. A saber: o drama a respirar como uma comédia, a comédia a integrar as sombras da tragédia.

Ozon escreveu o argumento a partir do livro homónimo de Emmanuèle Bernheim (1955-2017), precisamente sobre a fase terminal da vida do seu pai - o mesmo livro já tinha servido de base a outro belo filme, Être Vivant et le Savoir (2019), de Alain Cavalier. Não deparamos, aqui, com uma "tese" sem alternativa. Se Tout S"est Bien Passé nos faz lembrar alguma coisa será um certo cinema "psicológico" francês a que até mesmo um nome grande da Nova Vaga, François Truffaut, não foi estranho: o essencial acontece através da multiplicidade visceral das personagens e do misto de evidência e mistério que define cada um dos seus gestos.

Este é, assim, um cinema apaixonado pelos seus intérpretes - a eles pertence a tarefa de expor a complexidade das relações humanas, mesmo quando podem envolver os delírios mais extravagantes. Na figura do pai, André Dussolier excede-se na sua especialidade: representar os comportamentos mais bizarros ou indecifráveis com o à vontade de quem se limita a ser naturalista. De qualquer modo, a "revelação" do filme é Sophie Marceau, na personagem de uma das filhas (aliás, muito bem acompanhada, no papel da irmã, por Géraldine Pailhas). De facto, a carreira de Marceau ficou para sempre marcada pelo sucesso juvenil de La Boum/A Primeira Festa (foi em 1980, tinha ela 14 anos!), nem sempre permitindo-lhe mostrar as suas sofisticadas qualidades de composição dramática. O mínimo que se pode dizer é que está encontrada a primeira forte candidata a um prémio de interpretação nesta 74ª edição de Cannes.

Entretanto, entre os títulos extra-competição, temos já também um momento inolvidável: The Velvet Underground, de Todd Haynes, faz a história íntima da lendária reunião de Lou Reed, John Cale, Nico & etc. Por um lado, estamos perante uma estratégia clássica de memória documental (a estrear em outubro na Apple TV+); por outro lado, raras vezes se viu um objecto de tão rica textura visual e sonora, afinal assumindo até às últimas consequências o fulgor experimental que fez nascer a banda apadrinhada por Andy Warhol.

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