A nova sexualidade de Julia Ducournau

A obra-prima que venceu o Festival de Cannes chega hoje aos cinemas. Titane, de Julia Ducournau, tão violento como deslumbrante, pode ser um ponto de viragem no atual cinema francês.

Passados uns meses após a Palma de Ouro de Cannes 2021 e de uma entrada com números de bilheteira espetaculares nos EUA, este terramoto de Julia Ducournau é cada vez mais um caso de mudança de paradigma da própria ideia de um filme francês do "sistema". Como os seus atores disseram ao DN numa entrevista a ser publicada este fim de semana, há um antes e um depois de Titane. Goste-se ou não - estamos na presença de um filme que se ama ou se odeia - é um objeto que rasga um sistema, que eleva um género a uma nova fonte. Se quisermos, o feito de Julia Ducournau é mostrar que pode existir um novíssimo cinema francês, sem convocar filiações e sem ter medo de se assumir como body horror, nicho de um conceito que vai muito para além do "terror".

O filme narra a espiral de violência de uma jovem, Alexia, marcada por um acidente na infância que fez com que os médicos colassem na sua cabeça uma barra de metal. Já adulta, é uma estrela do circuito das apresentações dos salões de automóveis e depois dos avanços indesejado de um fã torna-se numa espécie de anjo vingador, exterminando quem pelo seu caminho passe, inclusive os pais. Para Alexia, o único resíduo de atração são os automóveis e os motores, a tal ponto que engravida de um automóvel (!). Grávida e em fuga, rapa o cabelo e é confundida com um rapaz desaparecido, indo parar ao lar de um bombeiro que a acolhe pensando ser o seu filho. A partir daí, sempre a esconder a sua gravidez, o corpo de Alexia é treinado para exibir uma masculinidade vaidosa num mundo de virilidade.

Quando se diz que Titane quebra tabus e as próprias regras do filme de terror, convém também referir que Ducournau faz do espetáculo do exibicionismo da violência um discurso sobre os limites daquilo que é admitido em cinema. Precisamente por isso, todo o sexo violento e transgressivo que encena está coreografado perante uma perspetiva de um discurso feminista de ataque, mesmo sem perder as linhagens do lúdico. Em vez de a provocação ser meramente sensorial há nesta agressão um conceito filosófico que enceta uma grande questão: o que fazer com a solidão da carne? Mas as questões no ar não têm que trazer respostas, em especial quando se reflete sobre a recusa da identidade de género. Logo aí, a atitude é punk. Um corpo como experiência niilista mas igualmente aberto a uma analogia de liberdade. Os monstros convocados por Ducournau nos vários corpos de Agathe Rousselle têm um efeito de espelho da nossa sociedade. Também por isso torna-se injusto e preguiçoso sublinhar o mimetismo a Cronenberg e, em particular, a Crash. Apesar da vénia, esta fusão de sangue e óleo tem uma plástica muito mais trabalhada segundo códigos da "cultura pop". Como se houvesse um casamento demente entre um Christine - O Carro Assassino, de John Carpenter, e a fúria feérica de certas coisas de Quentin Tarantino.

Por outro lado, é também uma declaração daquilo que de mais íntimo pode trazer o universo do sensorial. Uma intimidade que explode ao som do impacto da música, seja Macarena, seja o som dos Yeah Yeah Yeahs. Tal como no anterior e genial Grave, Ducournau procura e encontra forma de encetar um qualquer tipo de explosão. Uma pesquisa feita de afrontamentos audaciosos e com um prazer descontrolado. Quem entra no jogo é recompensado por uma partilha de loucura que soa a novidade, como se pensássemos "como isto é possível?" Essa é a qualidade libertadora do filme, colocando os papões bem visíveis e propondo uma utopia brava: a fantasia do cinema a criar uma nova sexualidade.

Se dos seios deste corpo de carne e titânio sai a dada altura óleo, a teoria de um conto a la Frankenstein sobre novos corpos faz pandã com as atuais questões afetas à fluidez de género e mudança de sexo. Por vezes, Titane não tem mesmo respostas para aquilo que propõe e aí funciona como viagem exploratória e um pedaço de perversão invertida sobre todos aqueles que estão à margem. O monstro criado por Agathe Rousselle precisa de amigos e a câmara de Ducournau consegue sempre ir para o mais inesperado, mesmo quando através do exemplo do bombeiro, cuja juventude é quimera trágica, traz uma luz humana. Um bombeiro povoado por um humanismo fortíssimo que só poderia provir de um ator como Vincent Lindon. Lindon e Rousselle juntos são aquilo que faz falta ao cinema contemporâneo: uma faísca que não pode ser contida.

Titane não é cinema convencional, é arte pura em formato inflamável. Agora é esperar que possa sair daqui um novo movimento. Os detratores vão colocá-la no saco dos cineastas de limite como Nicolas Winding Refn ou Gaspar Noé, mas o que é realmente "chocante" é que esta cineasta tem uma visão só dela, única e intransponível. Não vale a pena também darem-lhe a pressão de ser a salvadora do cinema francês, não merece isso. Mas é possível acreditar em duas coisas: esta foi a Palma de Ouro mais urgente dos últimos anos em Cannes e é verdadeiramente possível dizer que Titane não é "cinema francês". É outra coisa...

dnot@dn.pt

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