A inclusão através da arte pública no Festival Iminente

Música, artes visuais e performances fazem a programação do Iminente, que abre hoje, na Matinha, em Lisboa. Até domingo, perto de uma centena de participantes, com propostas muito diversas, mostrarão que a arte é um bom caminho para combater a desigualdade.

O que têm em comum o cineasta e músico sérvio Emir Kusturica e as mulheres da Tapada das Mercês, Serra das Minas, Bairro do Pendão, em Queluz, e Curraleira, em Lisboa, que, durante o confinamento, tricotaram em conjunto uma manta comunitária, sem que a maior parte delas alguma vez se tivesse encontrado numa rua, num café, no corredor de uma empresa? À primeira vista, quase nada, mas indo para além da superfície das coisas, a equipa de programação do Festival Iminente entendeu que, sob o "chapéu" deste projeto focado na cultura urbana e sua relação com as comunidades, cabem tanto o artista consagrado, presença habitual dos festivais de Cinema, e estas mulheres que encontraram em agulhas, lãs e muita conversa, a evasão a um quotidiano que a pandemia tornou ainda mais difícil. Como eles, cerca de uma centena de protagonistas (bandas, artistas musicais e visuais, performers e convidados dos debates) que passarão pelos vários palcos da Matinha (Rua da Cintura do Porto), a partir desta 5.ª feira até ao próximo domingo.

Pensado como uma grande ágora, este festival , que vai na nona edição (realizou-se já em cinco cidades de quatro países) privilegia, nas palavras da sua diretora, Carla Cardoso, "a aproximação das comunidades aos seus territórios e à produção artística contemporânea, cruzando tendências de mainstream com movimentos emergentes." Esta diversidade de propostas está bem patente na programação musical, que conta com nomes tão diferentes como a fadista Ana Moura, Dino d"Santiago, Jorge Palma, The Alchemist, Active Mess, Carlito Lagangzz, Celeste Mariposa, DJ Ride, Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra, entre muitos outros.

Esta multiplicidade estende-se, com a mesma lógica, às artes visuais e performances, todas criadas especialmente para o festival, com a curadoria de Pauline Foessel, da Underdogs, que explica: "No total temos dez intervenções site-specific, concebidas por artistas nacionais e internacionais que seguiram o mote do festival, transformando o edificado desta paisagem através de uma metamorfose que transfigura ruínas em arte. Estas intervenções são permanentes, um marco deste lugar relativamente desconhecido, e que agora possui um enorme potencial para se posicionar como um importante núcleo artístico." Nesta área, os trabalhos apresentados serão de Escif, Exas, Halfstudio, Mariana, a Miserável, Nuno Viegas, Obey Sktr, Openfield, Pedro Podre, Pipoca, Raquel Belli, Breaking, Tristany (com moradores do Bairro da Curraleira) Jonone e Lukanu Mpasy.

Um dos destaques desta edição do Iminente vai, como não podia deixar de ser até pela sua dimensão social, para o projeto "Bairros", que traz ao conhecimento do público fotografia, desenho, música, filme, histórias de comunidade e até mesmo uma marcha de Santo António, fruto do trabalho desenvolvido nos workshops artísticos comunitários entre junho e setembro, com os moradores e associações locais de quatro bairros de Lisboa (Bairro do Rego, Vale de Chelas, Alta de Lisboa e Vale de Alcântara). A razão da escolha destas comunidades, explica Carla Cardoso, "é o envolvimento das suas associações locais com os objetivos do Festival. Foram elas que começaram a vir ao nosso encontro em 2018. Agora, nós fomos a meio caminho"

E porque foi pensado em forma de ágora, no Iminente haverá ainda lugar para vários debates, cujos temas serão "Laboratórios vivos de descarbonização" (moderação de João Seixas, com David Pêra, Ana Marinho e Inês Campos); "Territórios como pertença: Desigualdades e capital humano" (moderação de Joana Gorjão Henriques, com Flávio Almada, Nuno Varela e Paula Cardoso), "O Papel da arte e da Cultura na equidade territorial urbana" (moderação de Sofia Costa Pinto, com Colectivo Warehouse, Vítor Sanches e Pedro Coquenão) e "Amor: Cuidar de quem Cuida" (moderação de Catarina Carvalho, com Piny, Patrícia Santos Pedrosa e António Brito Guterres). Sempre às 16h30 no Palco Choque. Os bilhetes diários custam 18 euros (online) e 22 (se comprados à porta) mas também há passes para os 4 dias de festival a 55 euros.

dnot@dn.pt

Mais Notícias

Outras Notícias GMG