A implacável danação de Paul Verhoeven

Perfume de escândalo em Cannes? Se não for com Benedetta, de Paul Verhoeven, já não será com mais nada. Triunfo seguro para um provocador. Mas o festival também acolheu uma vaca heroína inglesa e um regresso de qualidade de Joachim Trier.

"Filme danado, sim, mas feito com honestidade", diz-nos num lobby de um hotel Paul Verhoeven, o realizador de Benedetta, o seu último filme sobre uma freira lendária italiana vista como santa e feiticeira. O cineasta dos Países Baixos não estava a dar entrevistas, mas sim a caminho da soirée de gala do filme. Estava altamente bem disposto e ansioso por perceber como este seu trabalho finalmente iria ser recebido. Verhoeven não é inocente relativamente a escândalos. Já antes tinha atiçado o mundo com Delícias Turcas (1973), mudado o esquema de perceção na América daquilo que se entende como thriller erótico em Instinto Fatal (1992) e incendiado uma certa moral francesa com Ela (2016).

Agora regressa com aquele que é talvez o seu filme mais violento e com mais sexo explícito, um projeto que se atrasou devido a alguns problemas seus de saúde na pós-produção e, graças à pandemia, adiado um ano. Trata-se da adaptação de um romance de Judith C. Brown, Immodest Acts- The Life of a Lesbian Nun in a Renaissance Italy, que conta a história verdadeira de uma freira do século XVII possuída por visões violentas de Jesus Cristo. Uma freira que vive um tórrido romance com uma noviça e mais tarde torna-se madre superior de um convento italiano.

A força de Benedetta está em colocar a tal danação como estado de espírito de uma narrativa que surpreende sempre por nunca desacelerar no ritmo e por assumir uma linguagem seca e sem restrições no limite da representação do desejo feminino. Nos dias de hoje, com tanta brigada de policiamento do novo feminismo, um filme com tanta nudez feminina e em busca do orgasmo genuíno filmado por um idoso que inventou o cruzar de pernas de Sharon Stone, pode ser o "ai-Jesus" desta temporada. Escândalo "cannoise"? Em França, o filme estreia também ao mesmo tempo e certa crítica já está a venerar este objeto, fazendo questão em tentar empolar uma sequência onde uma freira é penetrada com um brinquedo sexual em forma da Virgem Maria. Tal como nos primeiros filmes, Verhoeven não tem medo de optar por uma fúria provocadora. Blasfemo? Benedetta, antes de ser um filme erótico-religioso, é um objeto honesto que interroga as políticas do nosso corpo. Para onde vai o desejo e de onde nasce a culpa...A certa altura, a freira protagonista é vítima de uma possessão. O ato de cinema de Verhoeven é obrigar o espetador a refundir dentro de si se é uma possessão diabólica ou divina.

A boa notícia é que Benedetta já tem estreia confirmada em Portugal, coisa que ainda não está confirmada para The World's Worst Person, de Joachim Trier, crónica sobre a geração "millenial" burguesa em crise de identidade. O filme não está ao nível de Oslo, 31 de Agosto, a obra que deu fama ao realizador, mas é realmente sincero na maneira como representa o caos ético que as voltas da vida podem provocar numa jovem ao sabor do acaso romântico. Seja como for, a coqueluche de ontem terá sido Cow, de Andrea Arnold, uma hora e meia de cinema do real sem efeitos a seguir uma vaca leiteira. Uma bela surpresa que chegou na nova secção Cannes Premiere.

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