"A Festa do Avante! é uma provocação que equivale à atitude de Trump e de Bolsonaro"

Em entrevista publicada a 8 de agosto, Miguel Sousa Tavares criticava abertamente a edição em 2020 da Festa do Avante!. A poucos dias da realização do evento, o DN republica as suas afirmações, bem como o que fala abertamente do caso Ricardo Salgado e do tráfico de influências nos escritórios de advocacia.

Para o jornalista, escritor e comentador, a Festa do Avante! é uma provocação que equivale à mesma atitude de Trump e de Bolsonaro ao se recusarem a usar máscaras, querendo significar que não se passa nada de estranho devido à covid-19 nos seus países e por isso diz: "Um só infetado que resulte desta festa é diretamente imputável à direção do PCP."

No que respeita ao grande caso na justiça mais recente, o da acusação a Ricardo Salgado, considera que a acusação do Ministério Público é forte e não só pela quantidade de crimes que apresenta: "É pela capacidade de os provar depois e aí parece-me que tem uma acusação sólida e fundamentada. Não sei se em tudo ou numa parte, mas alguma coisa se há de conseguir provar em tribunal." Diferente é o caso Sócrates, que se suporta em "deduções sem provas" e "é baseada numa testemunha comprada pelo Ministério Público". Acrescenta que a única coisa certa é que vivia à conta de um amigo: "Mas isso não é crime. Pode ser, eventualmente, uma situação pouco digna para um primeiro-ministro."

Quanto à situação política pós-quarentena, confessa que ainda não percebeu se o hipotético reativar da geringonça não é uma tentativa para António Costa "forçar uma resposta negativa dos partidos à esquerda e virar-se para o PSD". O mesmo pensa de Rui Rio "a fingir um entendimento com o Chega para se encostar ao PS".

Sobre a pandemia, garante que nunca acreditou que os portugueses "se fechassem em casa como aconteceu" e vê na missa que o Papa rezou sozinho na Praça de São Pedro a melhor imagem dos tempos da covid-19. Uma entrevista em que tanto existe o escritor como o comentador.


Surpreendeu ao mudar de editora e o primeiro livro a ser reeditado é Rio das Flores, num tempo em que os leitores pouco vão às livrarias. O que se passa com os portugueses?
A pandemia tirou 80% dos leitores das livrarias e a queda da venda de livros sentiu-se sobretudo aí. Era expectável que com mais gente em casa houvesse mais leitura e encomendas online, isso não aconteceu infelizmente e o que se passa é resultado da maldição das redes sociais, que levam as pessoas a achar que em termos de informação e de ficção, ou de tudo o que é cultura, são suficientes. Isso acontece também nas séries de TV, em que estamos a assistir a um fenómeno em que uma grande parte dos escritores trabalham para essas séries, assim como há cineastas que deixaram de fazer filmes e optam por séries diretamente. Ou seja, as pessoas têm cada vez menos capacidade de aderir a uma cultura que lhes exige algum esforço e ainda chegará a vez de os museus poderem ser apenas visitados virtualmente.

Não se sentiu tentado pelas redes sociais para evitar a solidão provocada pela covid?
Não, de todo, pelo contrário. Se alguma lucidez era preciso manter, para mim foi distanciar-me das redes sociais. Aliás, cada vez mais agradeço a minha capacidade de ter adivinhado há muitos anos o que iriam fazer deste admirável mundo novo. Criou-se um pesadelo e vou ficar longe dele eternamente.

Este seu romance é um relato histórico que se segue a Equador, com o fim da monarquia, a República, a ascensão de Salazar e a luta do brasileiro Luís Carlos Prestes. Se as lições da história são na maior parte das vezes ignoradas, será a literatura a boa forma de alertar o cidadão para o que não se deve repetir?
Acho que sim e o Rio das Flores apanha um período determinante do Estado Novo brasileiro e do português - que são politicamente distintos -, além da Guerra Civil Espanhola, da ascensão do nazismo na Alemanha e a ditadura no Brasil, que é muito desconhecida dos portugueses. Acho que a história é sempre uma lição, não por se repetir fatalmente, mas porque muitas das coisas que nos ensinou tendem a aparecer sob outra forma, afinal os seus genes da humanidade estão lá inscritos. Há lições boas e outras más, mas saber ao que certos acontecimentos conduziram no passado é uma arma para evitar repetições no futuro.

A dado momento refere no romance a sedução de Hitler pelo marxismo e o socialismo...
O Partido Nazi começou por se chamar Socialista, ou seja, havia uma atração do Hitler pelo socialismo pois as suas teorias eram muito fundadas na capacidade do autoritarismo e na muita disciplina e controlo das massas, daí achar que o socialismo era bom para o conseguir. Além disso, Hitler era na sua génese muito anticapitalista, embora depois se tenha apoiado numa dinastia capitalista fortíssima na Alemanha, os Krupp.

Vamos a caminho dos 50 anos do 25 de Abril a grande velocidade e a sociedade portuguesa confronta-se com casos de corrupção, talvez os maiores de sempre. A revolução serviu os propósitos ou ficou pelo caminho?
Essa pergunta exige muita cautela na resposta... Primeiro, não temos mais casos de corrupção do que outras democracias, por exemplo a francesa ou a espanhola. O que aconteceu agora com o rei de Espanha é inominável e se acontecesse com um Presidente português estaríamos de rastos. Segundo, já ninguém - a imprensa também - se dá ao trabalho de presumir a inocência daqueles que o Ministério Público apresenta na praça pública apenas como acusados, sem direito a contraditório, em muitos casos da justiça em Portugal. As pessoas já estão condenadas, nem se espera por ouvir a sua defesa. Neste aspeto iremos ter muitas surpresas quando certos processos forem a julgamento, pois há alguns que vão ser completamente desmantelados em tribunal. Terceiro, confunde-se muito na opinião pública, e deliberadamente, a corrupção com tráfico de influências.

"Acho que Rui Rio está a fazer o mesmo que o António Costa à esquerda, que é fingir o entendimento com o Chega para ganhar espaço de manobra e depois encostar-se ao PS. O Costa faz o mesmo para depois se encostar ao PSD."

Está mais generalizado?
O grande crime que existe a nível de contágio entre a política e a economia é o tráfico de influências, muito mais do que a corrupção. É um crime à solta na vida pública e que é muito difícil de combater até porque tem uma fachada legal e passa-se abundantemente nos escritórios de advocacia em Portugal.

Refere-se aos casos Sócrates e Ricardo Salgado?
Conheço mal o caso Ricardo Salgado, mas parece-me mais sólido e ancorado em termos de acusação. O caso Sócrates tem imensas falhas em termos de acusação, nomeadamente na relação que se faz entre ter sido corrompido pelo grupo BES. Eu li a acusação desse caso e, em grande parte, para não dizer na totalidade, é baseada em presunções e deduções que não assentam em factos. Além de que tudo o que se baseia em factos no caso Sócrates se deve a uma testemunha comprada, o Hélder Bataglia. A única acusação que se baseia num testemunho ou num facto é, verdadeiramente, um testemunho comprado, e nem sequer é de delação premiada, o que nem existe no direito penal português. A explicação é simples: Bataglia tinha um mandado de captura internacional da República Portuguesa e não podia sair de Angola; foi negociado com ele levantar o mandado em troca de ir dizer o que o Ministério Público queria. Portanto, em condições normais, o advogado desfaz aquela acusação no tribunal. No caso Sócrates vai ser muito difícil obter a sua condenação em tribunal, se bem que também seja difícil que os juízes devido à pressão de uma condenação que é feita na imprensa e na opinião pública se atrevam a não o condenar.

No caso Ricardo Salgado, a acusação do Ministério Público é forte: 65 crimes!
Não é o número de crimes que torna a acusação forte, antes a capacidade de os provar depois, e aí parece-me que têm uma acusação mais sólida e fundamentada. Feita em colaboração com as autoridades suíças, baseia-se numa grande quantidade de documentos e, de facto, há dinheiro que desapareceu. Isso é incontestável. Portanto, alguma coisa, não sei se tudo ou se uma parte, o Ministério Público há de conseguir provar em tribunal. Mas eu não a li a acusação, porque é direito financeiro e está além da minha paciência lê-la. Diferente é o caso Sócrates, que são deduções sem provas. A única coisa que sabemos por certo é que vivia à conta de um amigo, é confessado pelo próprio, mas isso não é crime. Pode ser, eventualmente, uma situação pouco digna para um primeiro-ministro. E toda a a tese do Ministério Público assenta em dois pressupostos: o dinheiro de Carlos Santos Silva era de facto de Sócrates e que todo esse dinheiro vinha de corrupção. Agora, como se diz em latim: quod erat demonstrandum; falta fazer a prova disso e essa não está nos autos

Voltando à pergunta inicial: a revolução serviu os seus propósito ou ficou pelo caminho?
Serviu se nos lembramos dos três "D": a descolonização foi tão tarde e era difícil ter corrido melhor; a democratização aconteceu sem dúvida alguma; o desenvolver também pois tivemos a ajuda inestimável da Europa e se fizermos as contas ao que cada cidadão português recebeu em dinheiros europeus é uma quantia brutal. Se, infelizmente, andámos para trás nos comparativos com a Europa daquela altura em relação ao que estávamos e somos ultrapassados de longe por esses países, a culpa é nossa. É uma culpa coletiva e não do ministro A ou B; de todos porque desperdiçámos ou usámos mal as ajudas. Eu sou um grande crítico da posição dos holandeses sobre Portugal, mas também os compreendo quando parte dos seus impostos são dados a quem não sabe usá-los.

Durão Barroso garantiu numa entrevista que não quer voltar à vida política ativa e...
Deus o oiça.

... classificou estes milhões que virão como uma orgia financeira. Portugal vai ser capaz de ter algum "orgasmo" com tanto dinheiro?
Espero que não seja um orgasmo mas um coito continuado, que é mais eficaz do que um orgasmo. A primeira dúvida que tenho é, ao olharmos para o que tem acontecido com a execução dos dinheiros europeus do quadro plurianual que ao chegarmos ao fim de cada ano não fomos capazes de executar, aconteça o mesmo. Agora, que vamos receber uma brutalidade de dinheiro além do quadro plurianual, a primeira coisa que receio é a nossa capacidade em gerir essa verba como deve ser. Não serve de nada ter uma enorme quantidade de dinheiro se não temos organização para o aplicar corretamente, sobretudo naquilo que acho que falta ainda enfiar na cabeça das pessoas: os dinheiros europeus não são eternos nem inesgotáveis. Por isso, quando vejo o Bloco de Esquerda e o PCP queixarem-se de que o dinheiro é pouco, que parte dele é empréstimo - apesar de parte vir mutualizado -, significa que vamos no mau caminho. O de quem se habituou a ser pedinte a troco de nada.

"Veja-se os Açores, que tem turismo há meia dúzia de anos e agora anunciam que sem o turismo entram numa calamidade económica. É um abuso completo e não pode ser verdade."

António Costa está a apostar no regresso da geringonça. Será a melhor forma de garantir a execução dos milhões da União Europeia?
Ainda não percebi se ele está a apostar no regresso da geringonça ou se quer forçar uma resposta negativa dos partidos à esquerda para poder dizer "eu tentei mas eles não quiseram, agora vou virar-me para o PSD".

Até porque todos criticam um bloco central!
Porque o bloco central deixou péssimas memórias e foi um fartar vilanagem na distribuição de tachos entre o PSD e o PS num assalto ao aparelho de Estado que ainda hoje se mantém por via de milhares de parasitas que contribuíram para o atraso do país. Foram nomeações partidárias a que eu assisti na RTP, onde foram promovidos os maiores cabotinos só porque tinham cartão partidário. Agora, se houver um bloco central, não sei se será diferente.

Um dos partidos de um bloco central também encena uma hipotética aproximação ao Chega. O que Rui Rio faz não é abstruso?
Acho que Rui Rio está a fazer o mesmo que o António Costa à esquerda, que é fingir o entendimento com o Chega para ganhar espaço de manobra e depois encostar-se ao PS. O Costa faz o mesmo para depois se encostar ao PSD. Não sei se é uma situação a concretizar-se, mas isso é mais uma conversa à Marques Mendes, que é analista político enquanto eu sou comentador.

"Eu acho que é um egoísmo e que a Festa do Avante! devia ser cancelada. É uma demonstração de egoísmo e é quase uma provocação."

O Chega não será parceiro do PSD?
Não acredito nisso.

Há quem diga que o plano elaborado por António Costa Silva está desfasado da realidade. Este alegado paraministro é uma cartada do primeiro-ministro ou o plano dará frutos?
Tem muitas coisas que acho serem óbvias e evidentes e nem parecem urgentes pois já o são há muito tempo. De facto são verdades que entram pelos olhos dentro e até redundantes. A chave para o nosso momento económico não pode continuar nas mãos de um setor exportador que, por sua vez depende na maior parte do turismo porque acontecem epidemias, tsunamis e ataques terroristas e, de repente, a galinha dos ovos de ouro acabou e não temos uma alternativa. Veja-se os Açores, que tem turismo há meia dúzia de anos e agora anunciam que sem o turismo entram numa calamidade económica. É um abuso completo e não pode ser verdade. Por outro lado, todos os países querem exportar e a própria Alemanha terá problemas em colocar os seus automóveis. Portugal deve é, apostando nas exportações também, tentar substituir importações por produção nacional e isso é possível em muitos setores. Com o que podemos produzir cá iremos obter um saldo favorável sem ser apenas com o forçar das exportações, até porque temos de concorrer com o dumping social dos países do Extremo Oriente no caso dos têxteis, por exemplo.

Tendo em conta o exemplo dos Açores, pode dizer-se que a covid serve como desculpa?
A pandemia acabou por revelar as fragilidades estruturais da nossa economia, que está muito dependente do turismo e de setores exportadores que precisam de mercados pujantes. Dou outro exemplo, o de Albufeira, que diz ir passar por uma crise terrível porque precisa de 50 mil turistas estrangeiros. Ora isso não é aceitável, nem o futuro pode ser desse modo. Além de que podemos transpor esta situação para o resto do país, chegando à conclusão de que a longo prazo destruímos o país e não há futuro.

A colaboração passiva da oposição nesta quarentena apenas ajudou a levar o governo de António Costa ao colo?
É normal que em épocas de crise as pessoas tendam a apoiar os governos. É preciso não esquecer que, sobretudo, no início, o governo esteve bem, fez o que devia fazer e as pessoas reconhecem que não perdeu o pé.

A Festa do Avante! é das poucas recusas partidárias ao cruzar de braços perante a covid ou é um desafio intolerável à saúde pública?
Eu acho que é um egoísmo e que a Festa do Avante! devia ser cancelada. É uma demonstração de egoísmo e é quase uma provocação. Isto equivale, quer queiram quer não, à mesma atitude de Trump e de Bolsonaro ao recusarem-se a usar máscara, querendo significar que não se passa nada de estranho e passa-se. Não se consegue perceber porque tantos espetáculos são cancelados e existem tantas regras de distanciamento social e depois o PCP espera meter cem mil pessoas durante três dias na festa como se nada fosse. No fundo, tal como vejo anunciado, não há alterações nenhumas em relação ao passado e é como não se passasse nada quando, de facto, passa-se alguma coisa. Um só infetado que resulte da Festa do Avante! é diretamente imputável à direção do PCP.

Está responsável por um dos noticiários da TVI. Desta vez vez não haverá silly season?
Não está a haver tanto quanto o normal, mas acho que também está a haver alguma retração a nível das notícias por que as pessoas estavam a precisar de um intervalo. Felizmente não está a acontecer uma grande época de incêndios e isso é bom porque toda a gente está a precisar de repousar, quer os autores das notícias quer os destinatários.

A fuga do rei Juan Carlos é o único caso que se enquadra bem no espírito da silly season?
É mais importante do que isso para quem conhece a história política de Espanha, porque a queda na ignomínia do rei Juan Carlos é um facto político de extraordinária importância e pode abalar os alicerces todos do frágil equilíbrio político do país, nomeadamente a nível da coligação entre o Podemos e o PSOE, pois o primeiro é um partido antimonárquico, tal como o segundo na sua origem, mas que institucionalmente suporta o rei.

E o PSOE está a contemporizar bastante.
Pedro Sánchez diz que já tiveram casos de corrupção na estrutura partidária e que isso não os levou a tentar erradicar os partidos, e fazem igual agora: "Condenamos as pessoas, não as instituições." Este é um discurso inteligente para tentar salvar a monarquia, só que a certa altura a pergunta é "para quê, tratando-se de uma república?". Ninguém poderia adivinhar que Juan Carlos iria ter um comportamento inqualificável, no entanto a monarquia espanhola também se tem salvado graças à rainha Sofia, que é grega, e o próprio Juan Carlos dizia que ela é que "era a profissional". Os espanhóis têm muito apreço por ela, o que não têm é pelo ex-rei, tal como o atual rei Felipe também é muito prestigiado - mas a Letizia não o é. O paradoxo da monarquia nos tempos de hoje é o de ou são deuses e estão acima de todos ou, se são humanos, ninguém lhes perdoa as fraquezas porque não é suposto tê-las.

Durante a covid teve de mudar os critérios do alinhamento das notícias e do tempo dado aos temas importantes porque deixaram de existir outras questões?
Aqui e no mundo inteiro. A minha aposta nos noticiários de segunda-feira na TVI é fazer diferente e não quero abrir um jornal com o Cristiano Ronaldo ou notícias sensacionalistas, mas a certa altura a covid tomou conta de tudo. Não existia outra realidade para as pessoas trancadas em casa do que os números de infetados e de mortos. Era impossível fugir à nossa situação, à do Brasil, à de França, entre outras, portanto fez-se algum esforço para haver outras coisas e para que não se fosse sensacionalista, antes mostrar o que se passava às pessoas com recurso a especialistas que explicassem o que se estava a passar e o que ia acontecer, sem tentar ser moralista ou ter o discurso de um por todos e todos por um ou o de se bater palminhas. Estávamos a viver tempos excecionais de facto! A imagem mais impressionante desses tempos para mim foi a do Papa Francisco na Praça de São Pedro. O Bernard-Henri Lévy dizia no outro dia que não gostou da imagem do Papa sozinho e a dizer missa porque era uma cedência ao medo coletivo. Eu não achei - e não sou católico -, antes considerei uma imagem lindíssima. Ele era o meu Papa a dizer "Pai, porque nos abandonaste" e rezando para fiéis invisíveis a oração visível, enquanto pedia explicações para estarmos todos trancados em casa. O Papa reagiu exatamente contra o medo e essa é a grande imagem do confinamento.

Falou em Ronaldo. O futebol esteve bem presente nos noticiários nos últimos dias com as vitórias do Futebol Clube do Porto e o regresso de Jorge Jesus ao Benfica...
Não são coisas comparáveis a fanfarra à volta do regresso do Jorge Jesus e a vitória no campeonato do Porto, mas a reação do Benfica aconteceu para tentar tirar importância ao que o Porto ganhou, alinhada com os seus colunistas de estimação. O Benfica tenta esmagar o efeito de uma derrota tremenda com o Porto. Não é comparável! O próprio regresso de Jesus com um cordão policial à volta e todo aquele espetáculo é de um ridículo terceiro-mundista. Tratou-se de uma operação montada para reeleger o Luís Filipe Vieira, que está desesperadamente a tentar ser reeleito, e tudo foi montado para isso. Que aquilo seja um caso nacional é ridículo, mas já estamos habituados. Eu, como portista, gostei muito que tivesse ganho o campeonato e a Taça, afinal gosto sempre de ver o David a vencer o Golias. Já agora, diga-se que que este foi o desfecho de uma época de futebol anormal.

Como é que Jorge Jesus abandona uma série e vitórias inimagináveis no Flamengo?
Não é estranho, ele não iria repetir o ano que teve no Flamengo e foi bem avisado em vir para o Benfica. É sempre melhor abandonar quando se está em cima e entrar quando se está em baixo, que é como está o Benfica.

Tanto a TVI como a SIC abandonaram os debates sobre futebol...
... as peixeiradas.

Foi um efeito da covid?
Não tem que ver com a covid, aliás teria sido mais correto se o têm feito durante a quarentena porque a sua existência já não fazia sentido. Aí teria sido mais sério do que fazê-lo agora, mas mais vale tarde do que nunca.

O que de importante foi deixado para trás nesta pandemia?
Há coisas que já sabíamos e que se tornaram evidentes: as condições de vida nos bairros suburbanos à volta de Lisboa, sobretudo, mas não só essas, que são em si mesmas um foco de doenças e um problema sanitário, além de uma situação de injustiça social. É urgente criar condições de habitabilidade para as pessoas, porque podem ser determinantes para empolar situações, bem como nos transportes públicos que são decisivos para a qualidade de vida e de saúde - tudo isso aprendemos na carne agora e com esta persistência de casos de infeção nas zonas à volta da capital. E também as condições de trabalho das populações migrantes e dos indocumentados e daqueles a que nenhum sindicato liga, nomeadamente os trabalhadores asiáticos que andam para aí na apanha da azeitona e dos frutos vermelhos e a viverem em contentores no parque natural de Alqueva, ao sol e em condições sub-humanas. Ninguém se preocupa com eles, nem os ministros da Agricultura, radiantes porque estamos a exportar muito azeite. Tudo isso tem de ser revisto e, se nada mudarmos, esses serão problemas que vão chocar connosco de frente. Veremos se se faz alguma coisa para mudar isso ou se esperamos pela próxima pandemia ou outro desastre e aí dizemos "Ai Jesus, aconteceu outra vez."

Essa "segunda vaga " também poderá ser o fim de muitas pequenas e médias empresas?
Vai ser terrível porque tenho ouvido previsões muito catastrofistas sobre o que aí vem para a economia portuguesa. Essas não têm a mínima hipótese de fazer frente à queda do consumo. Espero que os consumidores ganhem confiança, contudo até vir uma vacina vai ser muito difícil voltar a normalidade. Há uma coisa que é preciso dizer: a prioridade do governo neste momento não pode ser como dantes, o acorrer ao setor público, mas ao setor privado, principalmente ao que dá trabalho pois vamos com 250 mil desempregados e não podemos repetir os números da crise de 2008. Não se pode esquecer que no setor público o lugar está sempre garantido.

O que o passado recente mostra é que há dinheiro para negócios como o da TAP e não para ajudar os privados. O que se passa?
Pois... Constato que não houve ninguém a nível político e partidário com coragem para levantar a voz e dizer "feche-se a TAP". Ninguém. Toda a gente sabe que a TAP vai estourar todo o dinheiro que lá vai ser metido e ainda precisar de muito mais. Não há nada a fazer pela TAP neste momento, porque foi mal privatizada , a parte do Estado mal comprada e agora mal intervencionada.

Tudo isto faz esquecer o milagre económico e financeiro de Mário Centeno?
Não esquecemos, mas ninguém estava a contar com a pandemia. O que se passa é que a nossa é a terceira maior queda do PIB, em 14% no primeiro semestre - o alemão foi de 10%% e o da França 13% - e deve-se ao turismo, tendo levado uma castanhada maior do que os outros. Não pode haver um milagre económico em 2020 em Portugal nem em lado nenhum, basta ver os Estados Unidos. Aliás, Trump tinha a vitória garantida à conta do crescimento económico e agora, pela primeira vez, pode perder a eleição. Talvez a única coisa boa da pandemia seja a de correr com o Trump.

É capaz de avançar um prognóstico para as eleições americanas?
Nas últimas arrisquei e ganhei, nestas não sei. Em condições normais ele perderia, mas o Joe Biden é tão mau opositor que francamente não sei dizer. Só em cima das urnas.

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