A encantadora França inventada de Wes Anderson

'The French Dispatch' aterrou com pompa em Cannes. O novo Wes Anderson é um triunfo que vai polarizar...

Um filme a reinventar-se em plena marcha. The French Dispatch não é uma carta de amor à cultura francesa, é antes uma declaração de devoção em papel decorado a letras de ouro. Wes Anderson finalmente conseguiu mostrar ao mundo esta sua nova excentricidade, ode aos detalhes e às pequenas ideias que formam também uma imensa homenagem ao jornalismo das grandes histórias.

Pelos corredores do Palais há quem rejeite a proposta e quem abra o champanhe com euforia. De alguma forma, sente-se que é um Wes Anderson em ruptura com alguma da sua forma, mesmo percebendo-se em todos os planos que estamos num filme com a sua assinatura.

Tudo se passa numa cidade inventada, Ennsui-sur-Blasé, uma espécie de Paris onde os gatos dominam os telhados e as ratazanas são rainhas do subsolo. Uma cidade de uma "beleza francesa" que é típica ilustração cromática do realizador. De um episódio sobre os limites da arte moderna a uma reflexão sobre uma agitação estudantil à Maio de 68, há ainda tempo para um caso policial que mistura arte gastronómica e rapto. No fundo, artigos de um jornal de correspondentes americanos em França chamado French Dispatch.

Pensado como uma ilustração minuciosa de uma fascínio americano pelos ideiais (e clichés) franceses, The French Dispatch nem sempre acerta no humor: na primeira "reportagem" sente-se que o gague é algo atraiçoado por uma inclinação para a caricatura, mas depois há uma descolagem do efeito da piada e aí o mergulho em toda aquela beleza sufocante faz pandã com um ritmo de texto avassalador.

Wes Anderson transforma o corpo de atores como Jeffrey Wright, Frances McDormand, Timothée Chalamet ou Owen Wilson em piruetas que evocam Jacques Tati ou um cinema de animação próximo de imaginário sulfuroso. Através de peripécias aceleradas, entramos numa espiral de bonecas russas que nos levam para um excesso tão belo como avassalador. Se está demasiado cheio? Sem dúvida, mas é nesse risco que o filme enche o olho, os neurónios e o coração. Poderá estar na hora deste cineasta americano ter a sua Palma de Ouro...

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