A convocatória para a festa dos 80 anos da mãe

O romance de Luis Landero, Chuva Miúda (Porto Editora) conta a história de Gabriel, que quer festejar os 80 anos da mãe e precisa de convidar os vários membros da família. Nem todos vão responder de forma feliz. Uma pré-publicação de um autor espanhol para ler nestes dias de quarentena. Leia outros livros aqui.

Agora já sabe com toda a certeza que as histórias não são inocentes, não inteiramente. Talvez também não o sejam as conversas quotidianas, os descuidos e lapsos verbais ou o falar por falar. Talvez nem sequer o que dizemos em sonhos seja completamente inocente. Há algo nas palavras que, só por si, implica um risco, uma ameaça, e não é verdade que o vento as leve tão facilmente como dizem. Não é verdade. Pode dar-se o caso de certos ecos do que dizemos, e até do que dizemos do modo mais trivial, continuarem como que em letargia durante muitos anos, pulsando, débeis, num canto da memória, esperando uma segunda oportunidade para regressarem ao presente e aumentarem e corrigirem o que não ficou claro então, e amiúde com uma eloquência e um alcance significativo que excedem em muito os que tiveram na sua origem. Ei-los aqui, basta olhar para eles, vêm vestidos com estranhas roupagens, ao som de músicas exóticas, com caras nunca vistas, e isto porque trazem grandes notícias, assombrosas notícias, de um passado que talvez nunca tenha existido. E é sempre, sempre assim, as histórias ou as palavras que regressam dos obscuros domínios da memória vêm sempre com furor de guerra, carregadas de ofensas, ansiosas de reivindicação e discórdia. É como se, no longo exílio do esquecimento, tivessem penetrado nos seus mundos imaginários, vasculhado nas suas entranhas, como o doutor Moreau com as suas criaturas monstruosas, até sofrerem uma total, uma fantástica metamorfose. E assim, com o seu lúgubre cortejo de figuras grotescas, mas ao mesmo tempo irresistivelmente sedutoras, as palavras e histórias de outrora vêm até nós e impõem à nossa consciência a tirania, a deliciosa tirania, dos seus novos significados e argumentos. Ah!, e isto para não falar dos gestos que fazemos quando falamos, da dimensão teatral das palavras, gestos esses que às vezes são mais persuasivos do que elas e as perpetuam na memória, de tal modo que é comum não termos a certeza de estarmos a recordar as frases ou mais exatamente a sua encenação, o repertório de gestos que as acompanhavam, os sorrisos, os olhares, as mãos, os ombros, as pausas, a secreta tagarelice do silêncio e do corpo.

São negras conjeturas que atravessam e sacodem a mente de Aurora e lhe toldam o rosto de cansaço. É que ela anda há já muito, quase a vida toda, a ouvir histórias, confidências, palavras e mais palavras, ditas sempre em voz baixa e num tom furioso e magoado. São histórias que costumam vir muito de trás, que aconteceram num tempo remoto, já quase lendário, mas que se mantêm tão pujantes e vivas como então, se não mais. Que haverá em Aurora que desperta de imediato a confiança das pessoas, a vontade de se abrirem com ela e de lhe contarem fragmentos antológicos da sua vida, segredos que talvez o narrador não tenha revelado nunca a ninguém? Mas a ela sim. A ela, todos lhe contam as suas coisas, todos gostam dela, todos lhe agradecem a compreensão, o seu modo tão doce, tão consolador de ouvir.

Talvez seja um dom inato e quase miraculoso, porque quem a vê não consegue evitar sorrir, dirigir-se-lhe para perguntar uma qualquer minúcia, como se chama, qual o seu signo do zodíaco ou a sua flor preferida, e daí acabam todos a contar-lhe as suas pequenas alegrias, as suas conquistas, os seus tropeços e, finalmente, os seus grandes infortúnios. «Foi precisamente assim que conheci o Gabriel», pensa. Foi há já quase vinte anos. Trocaram uns olhares fugazes quando estavam a atravessar uma das ruas mais movimentadas da cidade, e Gabriel deteve-se com um repente de estranheza, aproximou-se dela, fintando as pessoas, e, semicerrando os olhos como se decifrasse algo turvo, perguntou-lhe se não se conheciam, ela disse que não, ele insistiu que sim e começou a fazer caretas inquiridoras, certo de que se tinham visto noutro sítio, ou talvez numa vida anterior, ou num sonho, os transeuntes serpenteavam velozmente entre eles, e depois é o que se sabe, deixa-me adivinhar ou lembrar o teu nome, é tão engraçado esse teu laço no cabelo, de onde és, o que fazes, tens a certeza de que não nos conhecemos?, e nessa mesma tarde foram a um café, e Gabriel tomou a palavra e falou-lhe longamente de si, dos seus gostos, das suas manias, dos seus projetos futuros, e depois contou-lhe uma boa parte da sua vida, e ela sempre a ouvir sem dar mostras de cansaço, alegrando-se ou afligindo-se em doses certas, sempre tão atenta à história, tão abandonada às palavras e aos silêncios, tão pronta para o assombro, tão dócil, tão acolhedora. «Nunca, nunca conheci ninguém tão... como dizer, tão especial e tão encantadora, tão doce como tu», disse Gabriel por fim, para fechar e celebrar o encontro, e aquelas palavras foram a antecipação de uma declaração de amor.

Depois acompanhou-a até casa e, como ela era tão boa confidente, pelo caminho falou-lhe da felicidade, o seu tema predileto, pois não era em vão que era professor de Filosofia e que desde muito jovem, quase rapazote, lera e pensara muito sobre o tema, e conhecia bem os caminhos que em cada época e em cada sociedade o ser humano escolhera para conseguir ser mais ou menos feliz. «Que interessante!», disse Aurora, e então Gabriel animou-se e disse que pensava que a felicidade é algo que se aprende, e que esse devia ser o primeiro ofício que as crianças deveriam aprender, assim como temos de aprender a lidar com os contratempos que o destino nos reserva, e que a mais importante de todas as lições consiste em aligeirar a alma para conseguirmos pairar sobre a vida, e nesse momento ondulou os dedos no ar como se imitasse o fluir da água, sem nos ferirmos quase nas arestas da realidade e sem que a adversidade ou a sorte, nem o entediante desenrolar dos dias, nem a tentação mortal de desejar o impossível, nem o fatalismo, nem os alarmes dos prazeres instantâneos, nem principalmente o terror da morte nos possam precipitar no lamaçal da frustração - e a cada poucos passos detinha-se para se recriar nas suas palavras e ver como ela as embelezava com a sua atenção -, mas, pelo contrário..., aqui deteve o discurso, porque o assunto era demasiado complexo para ser despachado em poucas palavras e talvez também porque logo teria oportunidade - e corou quando o disse -, se ela concordasse, de lhe falar destas coisas com calma. E como Aurora se mostrou conforme, encontraram-se noutras tardes, e assim, a pouco e pouco, foi-se propondo guiá-la pelo caminho da felicidade, e ela aceitou e seguiu-o docilmente, e penetraram ambos no futuro como num bosque encantado, onde espreita uma vastidão de perigos, ele à frente, levando-a pela mão para a proteger de toda e qualquer ameaça, como se ela fosse uma menina ou uma criatura inerme, algo de precioso e frágil que era preciso conduzir com enorme cuidado, e assim foram avançando a par e passo, e eis senão quando andavam há já vinte anos a trilhar esse caminho, mas sem nunca chegarem a nenhum lado, cada vez mais erráticos e incrédulos, e já perdido definitivamente o Norte da felicidade. Ainda dizem que as histórias são inocentes e que as palavras, leva-as o vento. E esse dom inato, teve-o ela sempre. Todos os que têm alguma coisa para contar vêm contá-la a ela. Talvez seja o seu ar aprazível e um pouco melancólico e o modo como sorri e olha. «Tens um sorriso tão triste e tão bonito», «A tua expressão é tão terna», «É um prazer olhar para ti», «O que os teus olhos brilham», disseram-lhe muitas vezes. «Demasiadas, demasiadas vezes», pensa, e então, tremendo e suspirando um pouco, volta à realidade. A noite cai e as crianças saíram faz já tempo. Saíram primeiro por ordem e depois em debandada, com os seus gritos, as suas mochilas, os seus fatos e máscaras de Carnaval. Já fora da sala de aula, pela janela, disseram-lhe adeus, fizeram-lhe caretas e gracejos, e ela seguiu-lhes as vozes, até serem só um oásis na distância.

E agora passou o tempo, e ela ainda ali está, não sabe bem porquê. «Não vens, Auri?», perguntou-lhe uma colega, espreitando ligeiramente pela porta entreaberta. E ela respondeu que sim, que ia sair dali a nada, que antes queria deixar uns exercícios corrigidos. Mas ainda não saiu nem corrigiu nada. Arrumou mesas e cadeiras, apanhou os desenhos, escolheu alguns e pendurou-os nos placares de cortiça que enfeitam as paredes. Cheira a baunilha, a borracha, a urina, a tinta de marcador. Depois, de repente, fica outra vez quieta, com os olhos perdidos na luz declinante do dia, como que absorta num pensamento que rodopia na sua mente sem se deixar apanhar. No que estaria ela a pensar há um instante e que era tão importante e esqueceu de repente? Ah, sim! Já se lembra. As histórias que toda a gente lhe conta, era isso. E acontece que ela nunca se importou de ouvir os outros, deixá-los desabafar e aliviar o cardápio das velhas memórias que os vão corroendo por dentro, porque é verdade que, contra os pesares já irreparáveis do passado, não há melhor elixir do que expô-los sem pressa diante de um auditório indulgente e até solidário - que haverá na narração que tanto nos consola das culpas e dos erros e das muitas penas que os anos vão deixando à sua passagem!? Assim foi sempre, e Aurora sempre o aceitou com prazer e sem reparos, mas ultimamente anda a acontecer-lhe uma coisa estranha, porque, quando ouve, quando interpreta o velho papel de confidente sentimental, às vezes apercebe-se de que a sua mente, como lhe acontece agora, está já noutro sítio, e as palavras que lhe chegam transfiguram-se às vezes numa linguagem estranha, num bulício de crepitações, de apitos de alarme, assobios, balbuciares e de palavras cortadas como as interferências dessas estações de rádio que transmitem de lugares muito longínquos. Então fica consternada e sente que de um qualquer ponto recôndito da sua consciência lhe chega como que um convite ao aborrecimento, à discordância, a uma fúria surda e momentaneamente imparável. «Estarei a enlouquecer?», pensa. É que ultimamente, mais do que nunca, parece que todos combinaram contar-lhe os seus pesares. Telefonam ou enviam mensagens pelo WhatsApp e mensagens para casa, para a escola, quando está a andar pela rua, a corrigir testes ou a ler um romance ou a ver um filme, ou a ajudar Alicia com os trabalhos de casa, quando começa a adormecer após um dia de trabalho esgotante.

Todos os dias, seja a que hora for. E isto sem contar com Gabriel, que não sabia falar de outra coisa senão da festa que iam organizar para a mãe pelo seu octogésimo aniversário. E, como os restantes, além das suas próprias coisas, conta-lhe também o que dizem os outros, todas as versões de todas as histórias acabam por confluir em Aurora. Ela é, na verdade, a única dona absoluta da história, aquela que sabe tudo, o enredo e o avesso do enredo, porque só confiam nela e só falam com ela, com todo o tipo de detalhes, sem vergonha nem reparos, todos e cada um dos implicados nesta história, que começou por ser trivial e até festiva e que acabou em ruína e em desastre, como ela intuiu desde o primeiro momento. Ora, agora, pela primeira vez na vida, dá-se o caso de também ela ter uma história para contar, e com prazer a contaria a alguém, mas não tem a quem, e talvez também não a saiba contar, porque lhe faltam forças para concentrar a memória num ponto e perde logo o fio à meada, e os episódios desmancham-se-lhe e misturam-se como se alguém os baralhasse a meio do jogo. O que recorda com exatidão é o momento em que tudo começou. Foi na sexta-feira passada, há apenas seis dias, quando Gabriel se lembrou de que o aniversário da mãe era uma oportunidade perfeita para lhe preparem uma festa e para que a família, toda a família, se voltasse a juntar, após tanto tempo dispersa, e aproveitasse para saldar todas as velhas e pequenas dívidas e todas as ofensas que cada qual guardava, ou melhor, defendia, no fundo do coração, e que os tinham mantido afastados, e quase inimigos, antes até de terem abandonado a casa materna.

Aurora pensou que, como todas as suas ideias, também aquela seria aparatosa e efémera, e que no poderoso impulso inicial estaria já o embrião do breve e inútil salto no vazio. - Vamos fazer a festa aqui em casa - disse. - Eu trato de tudo e, claro, também da comida. - E pôs-se a preparar a festa com um entusiasmo que Aurora não lhe conhecia havia muito tempo e que se lhe revelava dolorosamente familiar. Durante vários dias andou às voltas com a ementa, comentando-a e discutindo-a, cortando e acrescentando, renovando o velho afinco de gourmet que cultivara numa das suas épocas de euforia, porque queria surpreender todos com sabores novos, coisas deliciosas que nunca tivessem provado, para criar assim, logo desde o início, um ambiente insólito que os incitasse também a conversas novas e a novos estados de humor e disposição. «Algo que seja exótico, mas ao mesmo tempo tradicional», explicou, deliciosas iguarias e novidades, mas nas quais os comensais encontrassem reminiscências clássicas com que se pudessem identificar e congratular. E falou de moelas de pato, de fígado de tamboril, de ouriços-do-mar, de algas e ostras, de uvas recheadas com foie gras, de espuma de funcho, de pétalas de abóbora, de barrigas de bacalhau, de carpaccio de bambu e batata-doce, de cortes de autêntico kobe, de cem tipos de molhos e sobremesas, e ao ouvi-lo Aurora sentiu um misto de pena e raiva, e até uma vontade de chorar, mas fechou os olhos e respirou fundo, tentando conter a impaciência, e por fim forçou um gesto entre o guloso e o resignado, de complacência e até de admiração. Então ele, levado pela excitação do momento, disse:

- Vou telefonar à Sonia. Aurora tentou dissuadi-lo:

- Espera por amanhã. Qual é a pressa? Ou já não te lembras de que não é bom deixarmo-nos levar pelos impulsos?

- Que parvoíce! Também chamas impulso a qualquer coisa. Que mistério pode haver em algo tão simples como a celebração de um aniversário? Vou telefonar-lhe agora mesmo. E depois telefono aos outros. À Andrea, à mãe, ao Horacio, às meninas, a toda a gente. Estava de pé à frente dela e, à medida que falava, ia abrindo os braços como que maravilhado pela obviedade das suas palavras.

- Não telefones já - disse Aurora.

- Espera pelo menos que a Alicia adormeça. Porque ela era a única pessoa que conhecia os segredos de todos e cada um deles, e sabia que os pequenos e velhos rancores, por mais pequenos e velhos que fossem, continuavam latentes na memória, à espreita, à espera da oportunidade certa para voltarem ao presente, renovados e ampliados, borralhos ainda mornos que o menor vento poderia atiçar em chama, ou como aquelas histórias em cujo início, aparentemente inocente ou cómico, está já a semente de um final infeliz.

E também sabia ou intuía que, se os rancores e ofensas tinham permanecido em estado de letargia até então, era porque eles quase nem sequer falavam uns com os outros, só muito de vez em quando e por telefone, para darem os parabéns e desejarem um bom Natal, ou para contarem uma qualquer novidade. E era bom que assim fosse, pensava Aurora, para que o vento não soltasse a fúria das brasas, para que a história não se pusesse em andamento e se precipitasse cega para o desenlace. Isto apesar de gostarem muito uns dos outros, ou era pelo menos o que diziam todos, mas não tanto entre si como por pessoa interposta, e essa pessoa era sempre Aurora. «Eu gosto muito do Gabriel», dizia-lhe Andrea. «Ela acha que não, mas eu sempre adorei loucamente a mãe», confessava-lhe Sonia. «No fundo, a minha filha preferida sempre foi a Andrea», contava-lhe a mãe. «Eu continuo apaixonado pela Sonia como no primeiro dia», confessava-lhe Horacio. E era bom amarem-se, sim, pensava Aurora, mas à distância e em silêncio, porque mal vasculhassem nas entranhas desse amor principiariam os sarcasmos, os insultos, as censuras, as acusações, as palavras tortas, e todo o passado sairia da memória num crescendo quem sabe se imparável e infinito. Disse-lhe por isso uma vez mais, quase implorando:

- Não, por favor, espera só um pouco. Vamos ver um bocado de televisão e depois telefonas. Que diferença faz ligar um pouco mais cedo ou mais tarde Mas Gabriel já tinha marcado o número e encostado o telefone à orelha, e até se tinha refastelado no sofá para falar melhor, com ligeireza e à vontade. «Devo ter qualquer coisa de bruxa», pensa, e continua parada no meio da sala de aula, como que tentando lembrar-se do que ia fazer e que de repente se lhe varreu da memória.

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