A cidade é feita de palavras

As palavras de Alexandre O"Neill servem a João Botelho para fazer um filme fascinante em que reencontramos a relação muito portuguesa com o mundo dos sonhos.

Em anos recentes, o cinema português tem apostado na revisitação de figuras emblemáticas da nossa história (política, cultural, futebolística, etc.). Para o melhor e para o pior, como bem sabemos. A diversidade dos resultados leva-nos a pensar que, para todos os efeitos, vivemos uma crise de identidade (muito antiga, dirão os mais pessimistas...) que atrai o tratamento cinematográfico dessas figuras, talvez procurando nelas algumas certezas que nos faltam ou, numa espécie de demanda heróica, uma aura de grandeza de que não queremos desistir.

O novo filme de João Botelho não é estranho a tal dinâmica. De forma paradoxal, com o seu quê de paródico, já que o projeto está longe de encaixar nos parâmetros mais ou menos académicos de abordagem dos "grandes artistas". De que se trata, então? "Um divertimento em tempo de pandemia", como está escrito no subtítulo final. Ou seja: uma revisitação da herança de Alexandre O"Neill (1924-1986), apropriando-a e contaminando-a através de um puro desejo cinematográfico - Uma Coisa em Forma de Assim, do escritor, renasce como Um Filme em Forma de Assim.

Não menosprezemos a ironia dos títulos. Essa coisa/filme que se apresenta "em forma de assim" não pode deixar de ser algo que discute, relativiza, baralha e volta a dar o próprio trabalho formal. Ou para usarmos uma velha e acolhedora dicotomia: as atribulações que sempre se desenham entre "forma" e "conteúdo".

O que implica uma verdade nua e crua: este é um filme contra o espectador preguiçoso que exige que o labor narrativo se submeta à monótona "racionalidade" de uma telenovela. Ora, não se trata de mimar banais jogos de causa e efeito. A relação com o universo de O"Neill começa no reconhecimento de que as palavras do escritor não são tanto um comentário sobre a realidade, mas mais um apelo à criação de uma nova realidade. Que realidade é (ou pode ser) essa? Pois bem, um filme. E, através dele, a cidade que as próprias palavras parecem transportar e, no limite, reinventar.

O resultado tem qualquer coisa de pedagógica farsa musical. Enfim, num sentido muito imediato: o tratamento das palavras de O"Neill passa pelas canções e pelos seus calculados artifícios. Mas sobretudo numa dimensão visceralmente cinematográfica.

Por vezes associado a um cinema de intransigente austeridade, feito de planos fixos de gélida geometria, Botelho redescobre, aqui, o gosto pelos movimentos da câmara. O resultado distingue-se por uma musicalidade muito própria, transformando Um Filme em Forma de Assim numa aventura fascinante, capaz de atrair os mais inusitados contrastes: a pompa operática encontra a ligeireza festiva do teatro de revista.

Por fidelidade e amor à obra de O"Neill, revemo-nos como pequena comunidade de personagens à deriva no território dos sonhos, mesmo quando os nossos vícios oníricos não conseguem superar a fragilidade de um quotidiano sem transcendência. No limite, Botelho celebra a liberdade da escrita através da libertação do cinema e das suas linguagens. Assim mesmo.

dnot@dn.pt

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