O pequeno grande sonho de Lin-Manuel Miranda

Lin-Manuel Miranda pela mão do asiático Jon M. Chu numa "orgia" latino-americana? Não desesperemos, há esperança no grande musical americano.

Um filme com cinegenia de Instagram pode ser um bilhete válido de cinema? A resposta é duvidosa mas se formos menos cínicos e aderirmos com o coração à adaptação do musical da Broadway de Lin-Manuel Miranda (que tem aqui um delicioso papel secundário) podemos dizer que sim de forma ruidosa. Ao Ritmo de Washington Heights passa no teste das armadilhas das adaptações de musicais da Broadway ao cinema. Ao lado de desastres como Cats ou O Fantasma da Ópera faz figura de Citizen Kane. Na realidade, é um convite para voltarmos a ter prazer a ver cinema em grande ecrã: números musicais vibrantes, cores luminosas e um desplante em transformar Nova Iorque num palco de cinema onde as personagens podem perder a gravidade nos prédios de Washington Heights ou dançar ao som da música fabulosa de Manuel Miranda enquanto atores fotogénicos mas com talento saltam e gritam de alegria de vida nas ruas com as bocas de incêndio a jorrar água!

A história é fiel ao mais premiado musical da Broadway: um bairro de Nova Iorque, Washington Heights, a contas com problemas de gentrificação e uma invasão de hipsters. Um problema que é combatido pela comunidade hispânica, firme em tentar manter uma tradição nova-iorquina do elogio ao imigrante mas também confrontada com o lucro imediato. Um jovem dono de uma mercearia pode ser a voz de comando de um bairro que navega entre o ritmo do hip-hop e a música latina.

Mas para além de uma mensagem de "politicamente correto" pelas minorias, todo o projeto de Washington Heights, espetáculo e filme, se resume a um desejo de colocar o espectador em estado de frenesim e de funcionar como um imenso raio de sol, mesmo quando a dada altura estes "chicanos" são confrontados com um apagão.

Contra si está uma duração algo excessiva (Jon M. Chu não deve ter tido coragem de convencer Miranda a desbastar alguns dos números musicais), mas nada que belisque um convite para voltarmos a ter vontade de bater o pé ou as palmas no cinema, mesmo quando se sente que aqui e ali faz falta alguma memória cinéfila na "orquestração" das coreografias.

dnot@dn.pt

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