Universidade procura novos fármacos na flora ameaçada

A protecção, por serem espécies ameaçadas, e o estudo dos componentes, valorizando-os, em busca de um potencial farmacológico, é o objectivo de uma investigação da Universidade de Coimbra (UC) sobre a flora endémica portuguesa.

O projecto teve início em 2010, em pleno Ano Internacional da Biodiversidade, e desenrola-se até 2012, de Norte a Sul do país, com 14 espécies anti-fúngicas, pertencentes à família das "Apiaceaes". Nesta fase já foram identificadas duas espécies com grande potencial anti-fúngico, e numa delas também propriedades anti-inflamatórios, cujos componentes não revelaram toxicidade, o que as transforma num atrativo alvo da investigação de novos fármacos. Lígia Salgueiro, professora na Faculdade de Farmácia da UC e coordenadora do projeto, revelou à agência Lusa que uma delas é variante espontânea da cenoura (Daucos carota, subespécie halophilus) que tem em Portugal os únicos habitats no mundo, escassamente povoados, em particular na zona algarvia do Cabo de S. Vicente, mas também no Alentejo e Estremadura. A segunda denomina-se "Distichoselinum tenuifolium". É endémica ibérica, também existente no Algarve, que revelou actividade anti-fúngica e anti-inflamatória, o que eleva o potencial farmacológico pelo facto de normalmente estarem associadas às micoses as inflamações cutâneas.

Intitulado "Conservação e valorização da Flora Endémica ameaçada de Portugal", o estudo dá sequência a uma linha de investigação da Faculdade de Farmácia iniciada há sete décadas. Neste caso concreto, por se tratar de plantas utilizadas na medicina tradicional, procura ainda preservar uma sabedoria empírica, e validá-la cientificamente, identificando espécies e subespécies detentoras das propriedades curativas. Lígia Salgueiro realçou que dentro das subespécies as características químicas podem ser muito diversas, mas também têm influência nessas variações os tipos de solos e os ciclos vegetativos. O Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC é um dos parceiros, acolhendo no Jardim Botânico a reprodução "in vitro" das espécies e as colecções vivas, tendo em vista o aprofundamento dos estudos, químico e de bioatividades, e reposição de habitats.

No âmbito do projecto, financiada pelo Fundo EDP para a Biodiversidade, realiza a sua tese de doutoramento Ana Cristina Tavares, que no Jardim Botânico tem já germinadas, e floridas, em tubos de ensaio, as quatro espécies de "Apiaceaes" mais raras, e que aguardam o tempo adequado de transposição para o solo. Há, no entanto, uma outra espécie, integrada nas 14, que Lígia Salgueiro teme já ter desaparecido - "Bunium, macuca" -, que, embora reportada em herbários, não foi encontrada. Esta investigação da UC tem-se desenvolvido em colaboração com projetos sobre a flora endémica em curso no Museu de História Natural - Jardim Botânico da Universidade de Lisboa e nos Institutos de Biologia Experimental e Tecnológica (IBET) e de Tecnologia Química e Biológica (ITQB).

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