Único banco europeu fez 400 colheitas em meio ano

Meio ano após ter sido inaugurado, o único banco de conservação de células do tecido do cordão umbilical na Europa já fez 400 colheitas. Os investigadores afirmam que estas células poderão vir a ser utilizadas em Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) e na diabetes.

Até agora, a recolha de células estaminais era apenas feita a partir do sangue do interior do cordão umbilical (células hematopoiéticas), mas dois investigadores portugueses descobriram os meios para preservar as células estaminais do cordão umbilical (mesenquimais), um avanço que permite aplicações terapêuticas mais vastas.

"As aplicações das células estaminais da matriz do cordão umbilical são complementares às aplicações das células hematopoiéticas", disse à agência Lusa o investigador Pedro Cruz, durante uma visita ao laboratório que faz a colheita destas células, um serviço único na Europa e um dos dois existentes actualmente em todo o mundo.

As células hematopoiéticas têm sido utilizadas na terapêutica de várias doenças do foro sanguíneo, tais como leucemias e alguns tipos de anemia, entre outras.

Este novo serviço vai permitir outras aplicações, que até aqui não eram possíveis, relacionadas com a reconstrução de tecidos, como músculos e cartilagens, lesões por Acidente Vascular Cerebral, diabetes tipo 1, tratamento de feridas crónicas (pele) e aceleração de reconstituição do sistema sanguíneo em doentes oncológicos.

Pedro Cruz adiantou à Lusa que já existem "vários ensaios clínicos em pacientes que demonstram benefícios a nível de um conjunto diverso de patologias, que vão desde o enfarte do miocárdio, Acidente Vascular Cerebral à regeneração óssea, cartilagem".

Segundo Hélder Cruz, outro investigador, as células mesenquimais são compatíveis com os familiares directos do bebé o que vai permitir que pais e irmãos da criança possam beneficiar também das suas potencialidades.

O processamento das células faz-se no laboratório Cytothera, na Amadora, onde, em média, chegam seis a oito recolhas diárias, que depois são submetidas a um trabalho minucioso.

Geralmente as amostras são levadas pelos pais, como contou Marta Lopes, responsável técnica do laboratório, que foi mãe há seis meses e fez a recolha das células hematopoiéticas e mensenquimais do seu filho.

Marta Lopes explicou todo o processo até à criopreservação das células recolhidas da matriz do cordão umbilical.

O cordão chega em seco. Depois de limpo e preparado, o tecido fica uma noite numa solução com antibiótico para evitar qualquer tipo de contaminação. Posteriormente é colocado numa "solução digestão" que vai "destruir" o tecido para permitir que as células estaminais se libertem.

Por fim, as células vão ser divididas em três fracções: uma é congelada no próprio dia e as outras duas fracções - cada uma com um milhão de células, no mínimo - vão ficar em multiplicação durante 15 a 30 dias.

No final do processo, as células são colocadas durante 20 anos num tanque a 190.º graus negativos.

Questionado pela Lusa sobre quanto tempo estas células podem ser preservadas, o investigador Pedro Cruz afirmou que a perspectiva é que seja durante "muitas épocas, tendo em conta a experiência que já existe não só com estas células, mas também com outras células semelhantes".

Pedro Cruz anunciou um investimento de dois milhões de euros para os próximos dois anos para aplicações clínicas. Perto de um milhão é do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN).

"O que fizemos até agora foi desenvolver o método para obter e isolar estas células, um método muito robusto que permitisse obter células em quantidade e qualidade para as terapias. Agora a fase que se segue é a das aplicações clínicas", sublinhou.

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